Textos Complementares

A HIDROLOGIA DE MIRANTE DO PARANAPANEMA

Assim como todas as pessoas, os cursos de água (Córregos, Ribeirões e Rios), também têm vida, história e passam por várias fases durante a sua existência. Todos possuem data e local de nascimento, recebem e até mudam de nome, tem infância e maturidade, são alimentados apenas "com água", ficam doentes e recebem curas mas há casos também de morte, alguns são ricos, entretanto, outros são ou ficam pobres, recebem maus tratos e chegam até a alcançar a velhice, como o "Velho Chico", (Rio São Francisco).

PEGANDO ÁGUA DA CHUVA

Segundo a pioneira, Cremilda Bezerra, 73 anos, quando começou a formar o Patrimônio de Palmital, muitas famílias, nos anos 1947/48, tinham que pegar água da chuva para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupa, pois os poços escavados não davam água, principalmente na chamada "Gleba Seca", que se localiza ao redor do que é a sub-estação de energia. Naquela época só havia dois poços que davam água no Patrimônio, e por sinal, localizavam-se na área mais alto do relevo. Um era o famoso poço da dona Antônia e um outro o do senhor José Quirino Cavalcante. Esses poços localizavam-se onde é hoje, o primeiro, Rua Estreita, próximo ao prédio da chamada "Prefeitura Velha", e o segundo, Rua Alberto Shigueru Tanabe, próximo ao cruzamento com a Rua Papa João XXIII. Por mais de um ano formavam-se filas para tirar água desses poços, que eram profundos e localizavam-se exatamente numa área que havia sido desmatada há mais de dois anos. Também segundo depoimento da senhora Cremilda, o Córrego do Matadouro, nasceu em 1951, após dois anos do desmatamento de uma outra área florestal. O nascimento desse Córrego deu-se no sítio do Senhor Raimundo Bezerra de Queiroz, próximo onde é hoje o "Recanto dos Idosos". Segundo outros moradores antigos, em poços escavados, com até cinqüenta metros de profundidade, nessa área, naquela época, não dava água, ela só aparecia depois de um a dois anos após a retirada da mata.

O senhor Antenor Rosseti, 81 anos, conta também que a Água do Mastro nasceu em 1948, um ano após ele ter derrubado vinte e quatro alqueires de mata. Um outro Córrego existente hoje, o do Repouso, só deu sinais de vida também na segunda metade da década de 1940 e o seu tributário, Córrego do Mosquito, que o senhor Ivo Agneli, 52 anos, o viu nascer e crescer, surgiu em 1954.

O RIO COMO AGENTE HISTÓRICO

O "rio", curso de água, é um agente histórico, sua memória só pode ser resgatada e compreendida se relacionada com outros elementos que formam o seu ecossistema: vegetação, chuva, clima, relevo, solo, animais, etc. Portanto entendemos os cursos de água como sendo um agente que tem vida, passado, presente e futuro. A maior parte dos córregos deste município não teve um nascimento originado da evolução espontânea da natureza que forma, ou formava um ecossistema harmonioso e equilibrado, mas surgiram sim em função de desequilíbrios ambientais provocados pela ação destruidora do homem. Sem quaisquer sombra de dúvidas, a retirada da vegetação nativa sem nenhuma racionalidade para instalação de lavouras e pecuárias predatórias, foram as causas que levaram ao surgimento e agora a morte de praticamente todos os córregos do município de Mirante do Paranapanema.

Parece estranho, mas está comprovado que, em todas as partes do mundo, a retirada da floresta nativa faz surgir, num primeiro momento, nascentes (minas) e conseqüentemente cursos de água. O regime das águas dos cursos de água está diretamente ligado ao equilíbrio do ciclo hidrológico numa determinada área. Se a destruição da floresta faz nascer córregos e aumentar, num primeiro momento, o volume das águas dos já existentes, os derrubadores da mata, por sua vez podem tentar justificar, com isso, suas ações devastadoras, pois imaginam que arrasando com a vegetação nativa trouxeram água onde não existia. A explicação para esse fenômeno é simples e comprovada por pesquisas científicas, uma vez que se sabe ser a floresta a grande armazenadora e consumidora de água. O que ocorreu foi uma ruptura do equilíbrio natural do balanço hidrológico nessa área. Havia uma intensa circulação de água através dos vegetais, tanto para o seu crescimento, manutenção e evaporação. Num ecossistema equilibrado, a vegetação florestal, através da evapotranspiração, devolve para a atmosfera cerca de 74% de toda água da chuva que cai em sua área, (57% pela evaporação e 17% pela transpiração. 100 cm2 de folha transpira cerca de 24 g de água por dia - Grande Enc. LAROUSSE CULTURAL). Além disso para formar 1 g de madeira seca, uma árvore dessa consome 300 g de água. À medida que ela sai pelas folhas, mais água entra pelas raízes. Também nas folhas, nos galhos e no solo, os vegetais retém muita água da chuva, que acaba evaporando-se para a atmosfera.. A mata do nosso município era tão úmida que, segundo muitos pioneiros, era abundante a existência de samambaias.

Muitos agricultores de nosso município confirmam que um poço escavado só enchia de água depois de mais de um ano da retirada da mata em suas proximidades.

"Antes de 1940, com poucas enxadadas de terra a gente podia estancar a água do Ribeirão Santo Antônio, depois que a mata foi derrubada foi que aumentou a quantidade de água" (João Moronga, 76 anos). O senhor Jovelino Messias Moreira, 67 anos, conta que quando ele, em 1956 passava com colegas em cima de caminhões, pela ponte do Córrego Seco, ouvia sempre alguém dizer: "Aqui era seco, foi só o fazendeiro comprar essas terras que a água apareceu" . Na verdade o que se tratava era do nascimento do córrego que ocorria em função do fazendeiro ter desmatado aquela área.

O RIBEIRÃO QUE SUMIA

Os senhores João Augusto de Almeida, 78 anos, e Antônio Pereira da Silva, in memorian, afirmaram que o Ribeirão da Água Sumida, foi desviado em 1959, graças ao trabalho árduo de aproximadamente 45 homens durante vários dias. Em determinado local a água corrente se infiltrava no solo e aflorava novamente a cinco quilômetros daquele local. Esse fato é confirmado pelo senhor Jovelino Messias Moreira, 67 anos.

Comparando os mapas hidrográficos acima, podemos constatar também que quase a totalidade dos córregos hoje existentes surgiram depois de 1930, como por exemplo, Matadouro, Água da Prata, Ponte Seca, Repouso, Lontra e Do Quarenta.

CONTINUA NASCENDO CÓRREGOS

Com o desmatamento, o regime dos cursos de água, ou seja, o volume de água corrente, fora também alterado, o senhor João Moronga, 76 anos, conta que, mais ou menos em 1935, quando o nosso município ainda quase totalmente coberta de floresta, era possível represar o Ribeirão Santo Antônio com poucas enxadas de terra, dado ao pequeno volume de água corrente, em comparação ao de hoje. Interessante, quando retirou a mata aumentou o volume dos cursos de água existentes, mas em conseqüência da erosão e assoreamento, eles vêm, paulatinamente, tendo uma diminuição no volume de água. Com a vegetação o "rio" pode ter um menor volume de água, mas será perene, ou seja, não corre o risco de secar e desaparecer. Nesse ritmo, se nada for feito, em breve, não teremos em nosso município, mais água corrente e nem no lençol subterrâneo, pois o déficit entre a água da chuva que é depositada nos lençóis subterrâneos, e a que se escoa pelos "rios", é muito grande. A maior parte da água que escoa hoje pelos Córregos, Ribeirões e Rio de Mirante do Paranapanema, deveria ter sido evaporada ou consumida pela floresta. O senhor Joaquim José de Souza, 60, morador no Bairro Tocão, conta que em sua propriedade, em 1982, nasceu um córrego que deságua no Ribeirão Nhancá, num percurso de três quilômetros. Esse córrego contém atualmente duas pontes e nunca secou. Ainda segundo o senhor Joaquim, e confirmado pelo senhor José Maia Cresembini, 48 anos, morador também naquele Bairro, existia em sua propriedade um poço seco com mais de cem metros de profundidade que recentemente começou a encher de água e hoje ele até instalou uma bomba para aproveitá-la.

Existe, entretanto, uma outra explicação para que o lençol freático seja mais próximo da superfície do relevo nas áreas mais elevadas da paisagem. Esse fato ocorre em função das rochas nessas áreas, ter resistido mais ao processo erosivo, e conseqüentemente a água se armazena mais próximo da superfície terrestre.

A reversão do quadro desolador e de degradação dos cursos das águas, só ocorrerá através de um desenvolvimento sustentável, coletivo e de uma prática econômica racional e compatível com a realidade de seu meio ambiente combinando com silvicultura e espécies nativas da região com as práticas econômicas. A inconseqüência dos que nos antecederam na construção deste espaço não pode justificar a falta de compromisso das gerações atuais para com o futuro dessa região.

"Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus ..."(Sl 46: 4)

 

"RIOS DE MIRANTE"

João Zeferino Barboza Filho

(EE Zulenka Rapchan)

 

A realidade dos nosso rios,

Qualquer pessoa pode notar,

Como eles eram antigamente,

E agora estão para se acabar.

Rio raso, rio fundo,

Rio que vai para o mar,

Mas represaram tuas águas,

Para energia gerar.

Rio que já foi tão belo,

E ainda pode voltar a ser,

Basta o homem ser sério,

E saber recuperar você.

Rios do nosso Mirante,

Ainda podemos te melhorar,

É só reflorestar e juntos,

De nosso rios cuidar.

 

A MAIOR RIQUEZA DE MIRANTE DO PARANAPANEMA É O SEU POVO

A riqueza de Mirante do Paranapanema não foram e nem são o seu solo, o algodão, o café, sua política, sua economia e nem mesmo a exuberante vegetação que cobria seu extenso território, mas sua maior riqueza reside no seu povo. Quanto à formação étnico-cultural Mirante do Paranapanema é a maior fonte de riqueza dentre todos os demais municípios do oeste paulista, e porque não dizer do Estado de São Paulo e do Brasil.

Enquanto os imigrantes estrangeiros buscavam prioritariamente possuir um pequeno pedaço de terra, os migrantes nordestinos vieram em busca do trabalho e do retorno realizado.

 

AS MIGRAÇÕES

O Dr. Labieno era uma pessoa que "pensava grande" e conquistava importantes simpatias como a de Rui Barbosa e a do 31º Presidente dos EUA, Herbert Clark Hoover em 1929. Em Mirante do Paranapanema, a partir de 1918, fundou a Colonizadora Fazenda Valle do Paranapanema um tipo inédito de fazer colonização. Essa Colonizadora já foi objeto de tese de mestrado em conceituada universidade paulista. .

O Dr. Labieno buscou implantar aqui em suas terras uma colonização prioritariamente com imigrantes europeus, onde todas as famílias de um mesmo povo pudessem alocar residências próximas uma das outras, formando assim colônias específicas. Muitos chegavam diretamente da Europa e outros de diferentes regiões do Estado e do Brasil, e todos procuravam conservar suas raízes culturais. A iniciativa do Dr. Labieno proporcionou o surgimento em Mirante do Paranapanema de Bairros com nomes Colônia Germana (alemães), Lituânia (lituanos), Bessarábia (russos e tchecoslovacos), Santo Antônio (húngaros e romenos) e Milani (italianos). O projeto original do Dr. Labieno era implantar dez colônias em suas terras, mas com o aparecimento de outros "grileiros", isso não foi alcançado, a Colônia Nova Germânia, por exemplo, não saiu do papel. Mesmo assim tivemos as colônias dos lituanos, alemães, húngaros, romenos, tchecoslovacos e russos. Já no final da década de 1940, sob a influência do Sr. Kosuke Endo começou a formar a grande colônia de japoneses no Bairro Novo Paraíso e proximidades.

É imensurável a contribuição desses imigrantes na formação sócio-cultural da sociedade mirantense. Atingidos no mais profundo de seus sentimentos nacionais em função das sangrentas guerras quando foram expulsos do "chão" natal, e mesmo com a alma sagrando puderam, em "torrão" distante, reconstruir cada povo um pedaço de sua pátria amada. A grande diferença entre os imigrantes estrangeiros com os migrantes nordestinos reside no fato de que aqueles adotaram o Brasil como nova pátria, e por extensão Mirante do Paranapanema, onde os horrores do passado não os estimulavam a emigrar algum dia ao passo que o grande sonho do nordestino era voltar rico para sua terra.

 

IMIGRANTES EUROPEUS, A PEQUENA PROPRIEDADE E A ECONOMIA FAMILIAR

Para os imigrantes europeus que começaram a chegar em Mirante do Paranapanema ainda na década de 1920, grande sonho era ter um propriedade de terra. Ninguém almejava grandes extensões de terra, mas o suficiente para sobreviver. A pequena propriedade é uma de suas características. A família era o alicerce da sobrevivência e a colônia o centro de cooperação e o local de compartilhar as alegrias e os sofrimentos.

Os europeus trouxeram a prática de fazer em casa o pão e o macarrão da farinha de trigo e o preparo da lingüiça e do toucinho da carne do porco. Além disso, artesanalmente, também produziam queijo e manteiga. Procuravam plantar todos os tipos de alimentos e ao final da colheita armazená-los para futuro consumo. As mulheres confeccionavam os vestuários em casa, tendo apenas o trabalho de comprar o tecido e a linha. A maior parte dos imigrantes pertencia à religião luterana. Algumas famílias de descendentes ainda conservam esse costume até hoje.

A colônia húngara destacou-se tanto que até o embaixador da Hungria no Brasil fez questão de vir aqui conhecê-la.

 

OS IMIGRANTES JAPONESES

Quando se pensa em japoneses neste município logo vem à mente a cultura do café. Realmente a grande característica desses imigrantes foi esse produto, aliás, eles foram os únicos a se dedicarem exclusivamente a esse cultivo. Mas devemos a estes valorosos companheiros, outros importantes atributos. Quanto a isto basta constatarmos que os fundadores da cidade de Mirante do Paranapanema e que contribuíram decisivamente para a emancipação do município, foram dois japoneses: Iraku e Takeo Okubo. No Bairro Novo Paraíso e demais bairros próximos, tivemos até duzentos e cinqüenta famílias de imigrantes, a maior parte vindo de outras regiões do Estado de São Paulo, como noroeste, mogiana e paulista. Tivemos também cerca de vinte e cinco famílias no Bairro "Água do Mastro", que por um período curto no início dos anos 50, chegou a formar também uma importante colônia, que se dedicou mais à cultura algodoeira.

Esses imigrantes, que começaram a chegar aqui a partir de 1948, tinham como grande busca a conquista de um pedaço de terra. Vieram para plantar café, mas não esqueceram do arroz e outros gêneros alimentícios. A grande arma do sucesso desses imigrantes foi também a união e a conservação dos valores culturais. Apesar do interesse pela agricultura os japoneses esmeravam no estudo dos filhos. Todos os anos toda a comunidade japonesa, de todos os bairros do município se reuniam no Bairro Novo Paraíso para festas e competições esportivas e de gincanas. Vinha gente de muitos lugares e muitos "brasileiros" eram também convidados a assistir e também a participar. Os esportes mais competitivos eram Beisebol e Sumô. Teve um ano que contou com a participação de sessenta e cinco competidores no Sumô. A distribuição de prêmios era lápis, cadernos e utensílios domésticos. Isso mostra a preocupação que os japonesas dispensavam a educação. Outra influência japonesa foi a prática da horticultura doméstica.

A grande contribuição dos japoneses foi também o valor social que davam a terra, não só como fonte de riqueza, mas também como produto de satisfação para toda a comunidade. O valor maior era na formação acadêmica dos filhos. Uma das primeiras preocupações desses imigrantes ao formarem os bairros, era com a construção de um prédio escolar que quase sempre era fruto do trabalho comunitário.

 

OS MIGRANTES NORDESTINOS E O TRABALHO

A grande contribuição dos migrantes nordestinos sem qualquer dúvida foi o trabalho. Expulso de seu berço natal pelo sistema econômico do país, o retirante nordestino ansiava, sim, em muito breve voltar à sua terra com dinheiro, não rico, como costumamos definir. Muitos nordestinos não tinham o dinheiro da passagem para a vinda e um número quase igual não acumulou capital nem para pagar o regresso. O nordestino sabia que era muito trabalho o que lhe reservava por aqui e ele trabalhou. Se o trabalho realmente acumulasse capital para quem realmente trabalha, quase todo nordestino seria rico. Esse trabalhador mais uma vez foi explorado, maltratado, ludibriado e acabou acumulando aqui riqueza para quem não trabalhou e viveu da especulação e da desgraça dos outros.

Mas o nordestino trouxe sua música regional - o forró -, seu sotaque característico que contagiou a todos. Como é estranho ver japonês falando "Ó xente!". Na culinária eles trouxeram alimentos como farinha de mandioca, a jabá, a buchada e o feijão.

"...Feliz é o povo cujo Deus é o Senhor" - Sl. 144:15.

 

UM EXEMPLO A SEGUIR: UMA MESMA ÁREA - ANTES DEGRADAÇÃO - HOJE RECUPERADA

MEIO AMBIENTE E DEGRADAÇÃO: QUEM VIVER, VERÁ.

É impressionante como a cultura do algodão, introduzida em Mirante do Paranapanema em meados da década de 1940, modifica completamente o espaço geográfico deste município. Uma colonização que se processava lentamente há mais de vinte anos, através de uma agricultura familiar e economia de subsistência, vivendo relativamente em harmonia com a natureza, se vê, de um momento para o outro, diante de um novo modelo de economia: a monocultura algodoeira envolvendo interesses nacionais e internacionais e a pecuária que se apresenta extremamente devastadora do meio ambiente. O município, que até então produzia abundância de gêneros alimentícios, a ponto de se perderem nas roças e tulhas (depósitos), passa agora a ser grande comprador (importador) de alimentos.

As relações de trabalho; sociedade-natureza e cidade-campo, foram radicalmente modificadas. A economia do município, inevitavelmente se insere definitivamente no sistema capitalista de produção.

A primeira grande mudança ocorre na relação sociedade-natureza quando os recursos naturais passam a ser objeto e fonte de riqueza a terra que até então pouco valor tinha, passa a despertar grande interesse, principalmente pelos fazendeiros. A pecuária é introduzida em Mirante do Paranapanema em meados da década de 1950, em pastagens formadas em áreas que antes eram cobertas pela vegetação nativa.

A degradação do meio ambiente, ocorrida em Mirante do Paranapanema, em decorrência da prática da economia de mercado e da pecuária, pouco e quase nada difere do ocorrido em todo o oeste do Estado de São Paulo. Destacaremos apenas alguns impactos e problemas ambientais acarretados pela ação indiscriminada do homem:

COBERTURA VEGETAL E VIDA ANIMAL – Os primeiros elementos da natureza a sofrer com a ação devastadora do homem, são a vegetação original e os animais silvestres. A destruição das florestas traz conseqüências para toda a vida animal que participa de um ecossistema.integrado. O desmatamento passa a ser condição indispensável para a prática da monocultura comercial e da pecuária. O machado, a foice, o traçador, o fósforo e posteriormente, a moto-serra, passam a ser instrumentos indispensáveis para o preparo do terreno, seja para a prática da monocultura ou formação de pastagens. A destruição das florestas traz profundas conseqüências para todos, inclusive para o homem..

Um fato que nos chama a atenção, com relação à destruição da cobertura vegetal original em nosso município, principalmente em sua fase inicial, refere-se ao destino da maior parte das madeiras "de lei". Não houve uma exploração racional e econômica desse importante recurso natural, por vários fatores; a abundância de madeira redundava em valor econômico insignificante para a venda; as precárias vias de acesso dificultavam o transporte da madeira e a urgência na limpeza do terreno exigia sua eliminação o mais rápido possível. Interessante, Mirante do Paranapanema, apesar de tanta madeira, só vir a ter duas serrarias no final da década de 1950. A maior parte da madeira vendida do município foi parar em lugares distantes, dentre muitos, Presidente Bernardes e Álvares Machado. Normalmente quem desmatava não era o proprietário da terra, e sim o arrendatário, que por sua vez evitava deixar qualquer árvore de pé, pois, ela prejudicava na produção da lavoura. Este, portanto, se achava no direito de explorar toda área ocupada pela floresta, até mesmo aquelas bem próximas aos cursos de água. O negócio era plantar algodão, pois "daí vinha a riqueza". Tendo essa obsessão em mente, o migrante via na floresta um grande empecilho à realização dos seus objetivos, a madeira era queimada ou enterrada para facilitar o manejo do solo. Mas os fazendeiros, não querendo "ter problemas com peões ou arrendatários", ao derrubar ou queimar a mata, preferiam lançar semente de capim colonião, formar pastagem e criar gado bovino de corte.

"Hoje eu sinto uma tristeza muito grande, quando preciso de uma cabriúva para fazer um mourão de porteira, e lembro-me de quantas toras dessa árvore eu enterrei há cinqüenta anos atrás" ( Sebastião Vicente Barbosa ,74) "Muitas toras apodreciam enterradas"(Ângelo Perejom Haro, 72).

A fauna era muito rica, animais como catetos, onça pintada, anta, capivara, veado mateiro, macaco, cutia, tamanduá, aves, répteis, etc., eram abundantes. "Quando eu cheguei aqui em 1928, tinha bicho no mato como tem gado hoje no pasto. A gente não conseguia matar e comer todos os animais que podia ser caçado" ( João Meredija - in memorian).

 

O MAIOR CRIME CONTRA A NATUREZA

O maior crime contra a natureza em Mirante do Paranapanema ocorreu no ano de 1963. Após uma forte geada e um longo período de seca, quando a maior parte das árvores nativas que cobriam ainda quase dois terços da área do município, fez cobrir densamente o chão com suas folhas secas, um infernal fogo se espalhou e deu fim praticamente ao que restou do machado e do traçador. Foram milhares e milhares de hectares de mata que desapareceram em mais de um mês de queimada. Muitos madeireiros são unânimes em afirmar que o fogo foi criminoso. Muitos fazendeiros viram naquele momento uma extraordinária oportunidade de "limpar" seus latifúndios, lançar a semente do capim e criar gado. Para se ter uma idéia dessa intensa devastação bastar analisar o que o município perdeu de vegetação nativa durante apenas dez anos. Em 1960 havia no município ainda uma área de 78.262 ha. de matas e florestas naturais, já em 1970 essa área foi drasticamente reduzida para apenas 2.432 ha. Analisando a tabela sobre a utilização das terras em Mirante do Paranapanema, podemos constatar que o aumento da área de pastagem, naquele período foi de 510% e em contrapartida a diminuição da área de matas e florestas foi da ordem de 310%. Sabendo que a área destinada a lavouras cresceu apenas 11%, concluímos que a maior parte da área do município passou diretamente da destruição da vegetação nativa para a pastagem, ou seja, para a pecuária. A destruição foi muito grande, além da perda da enorme quantidade de madeira, a mortandade de animais silvestres foi de estarrecer. Muitas pessoas que presenciaram aquele triste acontecimento relatam com muita emoção até hoje o sofrimento e a angústia por que passaram os animais silvestres antes de morrerem queimados. Após a passagem do fogo o que se via pelo chão era uma infinidade de animais mortos. O fogo, segundo dizem, iniciou nas proximidades do Bairro Lituânia, passou pelo bairro Mil Alqueires, Engenheiro Veras, alcançando o Marco Dois e Bairro Martilândia Velha. O fogo era tão intenso que atravessava de um lado para o outro as estradas de rodagens de terra. Outra grande aliada do fogo, na década de 1960, no extermínio das florestas, foi a famosa moto-serra.

Portanto a maior degradação do meio ambiente em nosso município, não se origina na agricultura e sim na pecuária.

É bem sabido também, que se ao invés de após a grande área incendiada em 1964 tivesse sido ocupado sem sentido pela agricultura nos moldes que fora nas outras áreas, pouco ou quase nada também seria diferente.

Uns por ignorância, desconhecimento, outros por ganância e má fé, mas o que restou mesmo foi uma degradação ambiental total e com poucas possibilidades de reversão do processo. As enxurradas das águas das chuvas carregam o solo desprotegido para dentro dos cursos de água (Córregos e Ribeirões), assoreando-os e lhes proporcionando apenas mais algumas décadas de vida. A mata ciliar, que protegia os cursos de água e produzia alimento para os peixes, desapareceu por completo.

A continuar nesse ritmo, esse pedaço de chão, em muito em breve voltará a ser o que já foi há tempos geológicos, ou seja, deserto. Quem viver, verá, mas poderá ser tarde demais.

"E disse Deus ainda: Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão semente e se acham na superfície de toda a terra, e todas as árvores em que há fruto que dê semente; isso vos será para alimento". (Gn.1:29).

 

 

O ALGODÃO: RIQUEZA E MISÉRIA

Como fica evidente pela análise do gráfico nesta página, Mirante do Paranapanema já se notabilizou no cenário econômico nacional como grande produtor de algodão. A minha leitura da monocultura algodoeira em nosso município abrangerá, neste momento, tão somente, o período que vai da década de 1950 até início da década de 1970. Neste momento, não pretendo esgotar o tema, até porque ele é extremamente rico e dinâmico, mas tão somente analisá-lo de forma dialética através de cinco perguntas formuladas à mais de cinqüenta produtores de algodão neste período e de pesquisas realizadas junto ao I.B.G.E., jornais e revistas. Como pode ser concluído pela representação do gráfico, a produção da cultura algodoeira, apresenta uma variação muito grande de uma década para outra e até de um ano para o outro. Vários fatores colaboraram para que isso ocorresse.

Quem plantou algodão?

Quase a totalidade dos cotonicultores, que plantaram algodão aqui em Mirante do Paranapanema naquele período, em sua maioria migrantes nordestinos, existindo entretanto algumas dezenas de imigrantes europeus e outras poucas famílias de imigrantes japoneses.

Em nossa pesquisa concluímos que a condição da maior parte desses agricultores era de pequenos proprietários de terras e de arrendatários, todos descapitalizados. O arrendatário para produzir precisava fazer financiamento em praticamente tudo; terra, semente, veneno, enxada, enxadão, foice, ferramentas, animais, máquinas de plantar, moradia, alimento, roupa, remédio, etc. Até o pagamento da viagem do migrante nordestino, nos famosos "pau-de-arara", só podia ser efetuado no final da primeira colheita, fosse ele "peão" ou produtor. Verdade seja dita, o nordestino era um "trator" para trabalhar, mas a falta de conhecimento "em leitura", tornava-o muito vulnerável e facilmente podia ser enganado nos negócios e acertos de contas, muitas vezes até pelos próprios conterrâneos mais "espertos".

A maioria eram pequenos agricultores, fosse ele proprietário ou arrendatário. Na década de 1950 era muito difícil quem plantasse até cinco alqueires de algodão. Era comum um proprietário ter dez, vinte alqueires, plantar em alguns deles e arrendar o resto para cinco ou até outras oito famílias. Era comum ainda a existência de cinco, seis casas de pau-a-pique numa única propriedade de algodão.

Alguns migrantes nordestinos chegavam sozinhos, outros traziam toda a família.

Os agricultores de algodão, principalmente os arrendatários, condição da maior parte dos nordestinos, quase não plantavam alimentos básicos, como feijão, arroz, milho e mandioca. A farinha de mandioca, muitas vezes, vinha do nordeste, trazida por revendedores. Já os imigrantes europeus, na sua maioria proprietários de terras como os imigrantes japoneses, praticavam uma agricultura diversificada, ou seja, além do algodão, cultivavam também alimentos. Quem não produzia tinha que "cair" nas mãos dos revendedores no comércio local ou através dos "financiadores", que cobravam o preço e o juro que lhes conviessem. O juro, em média, era de 30% do valor da mercadoria cobrado ao final da colheita, mas havia casos de até 50%. "Em 1955, só eu cheguei vender por mês, aqui em Mirante do Paranapanema, 240 sacas de arroz de 48 kg. cada e 100 sacas de feijão de 60 kg. tudo comprado no Paraná e Mato Grosso do Sul. Existiam ainda outros dois comerciantes "fornecedores" que também buscavam alimentos nesses estados." (Manoel Estácio de Oliveira Filho, 79 anos). Tudo isso deixa claro como a maioria dos agricultores "dependiam" de comprar dos outros aquilo que eles mesmos podiam produzir, mas achavam que "a terra para dar dinheiro tinha que ser cultivada com algodão".

Segundo dados oficiais do IBGE, em 1960 a área agrícola do município de Mirante do Paranapanema era de 12.724 alqueires (30.791 ha), com 2.507 estabelecimentos, sendo que 84% dessa área era dedicada a monocultura do algodão. "O nordestino só via algodão pela frente".( Manoel Estácio de Oliveira Filho, 79 anos).

Rastreando o paradeiro dos agricultores que cultivaram o algodão na condição de arrendatários e/ou pequenos proprietários, no período em análise, constatamos que muitos deles emigraram novamente para o nordeste, quase nas mesmas condições econômicas que aqui chegaram, ou seja, praticamente sem nada. Dos que aqui permaneceram, aproximadamente 10% conseguiram ganhar e conservar alguma coisa, mas a maioria terminou por tornar-se "bóia-fria", ainda na década de 1970.

Como era o cultivo do algodão?

Terminada a derrubada da mata a terra ainda se encontrava "bruta" (muitas raízes, galhos, folhas, troncos de árvores e toras ainda estendidas pelo chão), o que dificultava o plantio, que por este motivo era todo realizado através de pequenas máquinas manuais ou mesmo com enxadão e depositando a semente com as mãos e tapando com os próprios pés. A semeadura, como demorava muito dias, era lançada ainda com a terra seca, pois se esperasse a chuva, a terra secava novamente e não era possível prever quando viria outra. As variedades de sementes "Texas" e "Express", cresciam tanto que formavam plantas que uma criança de cinco ou seis anos podia nelas subir com tranqüilidade. Aquelas sementes não eram adequadas para o tipo de solo, como hoje, crescia muito e pouco produzia. Os pés pegavam muita carga, mas quase não segurava, "carimbavam" muito, ou seja, as maçãs não abriam bem. Com isso a colheita se tornava muito difícil, e quem colhesse, quatro ou cinco arrobas por dia , era tido como "bom catador" . Além de tudo, os "catadores" ficavam com os dedos das mãos machucados, devido as pontas das cascas das maçãs. O algodão, principalmente no último ano da década de 1950, apresentava uma média de produção muito pequena, em comparação aos dias de hoje. Isso porque o auge da produção algodoeira neste município foi de 1953 a 1957, e em 1959, ano em que o IBGE se referiu para fazer o censo agropecuário de 1960, a produção já estava decaindo. As maçãs tinham muita semente e pouca pluma, e com isso não alcançavam boa classificação, além disso, as fibras eram curtas, o que contribuía para depreciar o produto na hora da venda. A soma da produção era enorme, porque praticamente só se plantava algodão nesse município, somente já no final década de 1950, começa destacar a cultura do amendoim, quando as máquinas, percebendo que só com o algodão não sobreviveriam muito tempo por aqui. A média da produção por alqueire em nosso município na safra de 1959/60, segundo dados do IBGE, portanto, também oficiais, foi de 150 arrobas. Nos Bairros Repouso, Água da Saúde e Pica-pau, a produção sempre esteve bem acima da média em virtude da melhor qualidade do solo para essa cultura. Nos anos posteriores, a média foi ainda menor. Quando alguém colhia 200, 250 arrobas por alqueire, era motivo de admiração. Vários fatores contribuíram para essa média baixa produtividade no município: 1) A diversidade da qualidade do solo (terra "mista" e terra "arenosa"); 2) Como a terra era "bruta", não se fazia um aproveitamento homogêneo do terreno, "perdia-se muito terreno". 3) O período chuvoso na época da colheita é tremendamente prejudicial aos algodoais. ( Em 1956 quase metade da safra foi perdida por causa da chuva); 4) O aparecimento de pragas, como o "purgão" ( isso ainda em meados da década de 1950) , 5) O plantio imediato à derrubada da mata e 6) O enfraquecimento do solo, quem sem dúvida nenhuma foi o maior fator.

Quando o algodão não produzia bem, seja por quaisquer motivos, e não era adequadamente colhido, sua depreciação era muito grande em classificação, peso e preço. "Se o ano viesse bem o lavrador ganhava, se viesse mal ele perdia. O algodão tem muita contrariedade. Ganhava-se algum dinheiro porque o custo era pouco naquela época" ( Manoel Estácio de Oliveira Filho, 79 anos)

Nos primeiros dez anos iniciais da cultura do algodão, o gasto era mínimo, era só plantar e colher, pois quase não havia pragas e mato para capinar.

Quem ganhou dinheiro com o algodão?

Quem realmente ganhou dinheiro e acumulou riqueza com a cultura do algodão em Mirante do Paranapanema foram: 1) As máquinas algodoeiras aqui instaladas, que davam o tipo, o peso, e muitas vezes até o preço do algodão conforme lhes conviessem; 2) Os bancos que financiavam e recebiam de qualquer jeito. Quem pegasse o dinheiro emprestado e não pagasse, o endossante era obrigado a pagar ou perdia suas posses alienadas; 3) Os compradores ("atravessadores") que não corriam risco algum, já que pegavam o produto final, pagavam como queriam e vendiam quando o preço melhorasse; 4) Alguns proprietários que arrendaram suas terras. Com grande ou pequena produção, primeiro era tirado o combinado. Mas até mesmo muitos pequenos proprietários acabaram perdendo suas posses com empréstimos bancários, alguns como endossantes de arrendatários; 5) Alguns "fornecedores", que aproveitando-se da ignorância da maior parte dos nordestinos, marcavam nas famosas "cadernetas" o que queriam e faziam acertos no final da colheita do jeito que lhes fosse convenientes. "Quase todos os nordestinos eram analfabetos"( Manoel Estácio de Oliveira Filho, 79 anos)

O arrendatário que, na medida que acumulava um pequeno capital, foi investindo na compra de terras, conseguiu ganhar alguma coisa com o algodão. Geralmente esse arrendatário trabalhava apenas com a mão-de-obra familiar e também não arriscava muito. "Lavoura o que dá num ano ela tira no outro" (José Clemente, 74 anos.) "Muitos não voltaram ainda para o nordeste porque não tinham dinheiro nem para pagar a passagem"(José do Nascimento Sobrinho, 78 anos). "Dos plantadores de algodão que aqui permaneceram, 70% deles tornaram-se "bóias-frias"( José Teixeira do Nascimento - "Zé Pimenta", 64 anos). Há casos, poucos na verdade, de migrantes nordestinos que aqui chegaram como peões, conseguiram comprar terras, plantar algodão e conservam até hoje um bom capital, como é o caso do senhor Sebastião Vicente Barbosa. Há ainda outros exemplos, bem poucos, na verdade.

Quem não ganhou dinheiro com o algodão?

"Se no final da colheita sobrasse algum dinheiro para comprar um animal para outro ano, a gente já ficava muito animado. Somente depois de cinco anos plantando algodão com minha família, é que consegui comprar uma vaca para dar leite para os meus filhos"(Sebastião Vicente Barbosa, 74 anos).

Muitos nordestinos ganhavam algum dinheiro aqui, voltavam para o nordeste, gastavam tudo e retornavam para tentar novamente a sorte plantando algodão, mas os bons tempos já haviam passado.

Não foram só os agricultores que perderam com a cultura do algodão, mas também vários comerciantes e financiadores. O senhor José Clemente, que tinha um grande estabelecimento comercial, para aquela época, foi um dos que perdeu muito dinheiro, fornecia de tudo para quase trezentas famílias de agricultores de algodão, que tiveram grandes prejuízos nos final da década de 1950 e início de 1960 e não tiveram como pagar as contas.

Na medida em que o algodão necessitava de mais investimentos, em virtude do aparecimento de determinadas pragas que exigiam venenos e defensivos mais caros; o valor do arrendamento subindo em função da expansão da pecuária; a não garantia do preço mínimo; com a persistência da ganância do "exploradores", quem arriscou continuar plantando algodão terminou perdendo tudo aquilo que penosamente ganhou em tantos anos de luta e sofrimento. "Quem ganhou dinheiro e comprou um pedaço de terra, conseguiu prosperar, mas quem não empregou em nada e foi para o nordeste gastar, esse acabou sem nada, quando voltou para cá, virou "bóia-fria", as coisas já não eram como antes"(Josafá de Oliveira Góis, 79 anos).

Muitos arrendatários, e mesmo alguns proprietários de terras, na verdade, não necessariamente, perderam dinheiro com o cultivo do algodão, pois poucos chegaram aqui com algum dinheiro para investir nessa nova atividade econômica, até porque se a situação econômica deles estivesse boa no nordeste, não haveria motivos de emigrar. "O nordestino pensava: se sobrar a mala com a roupa dentro, estou com o capital que cheguei"(Justino Souza Trindade, 72 anos). "Todo mundo chegou com as mãos abanando" (Zenálha Vasconcelos Góis, 79 anos). "Quem perdeu mais foi quem arriscou mais, quem tinha mais ganância"( Manoel Estácio de Oliveira Filho, 79 anos)

Quem teve maior prejuízo com a cultura do algodão?

Segundo técnicos do Instituto Agronômico de Campinas, a cultura do algodão (cotonicultura), constitui uma das mais nocivas práticas agrícolas no que concerne à erosão do solo. Para plantar, a terra tem que estar preparada no mês de outubro, mês que começa o período chuvoso nessa região ( hoje as condições do tempo tem estado alteradas). Plantado em outubro ou novembro, o vegetal só era arrancado em junho ou julho do ano seguinte, ou seja, sete a oito meses depois da plantação, após a colheita, que ocorria entre abril e junho. Durante todo esse tempo o vegetal retirava nutrientes do solo, depois era praticada "a queimada", como fora feito com a vegetação primitiva. Normalmente quem derrubava a mata era o arrendatário, que tinha o direito de plantar por alguns anos. Com isso ele, o arrendatário, não tinha qualquer interesse em deixar em pé qualquer "pé-de-pau" (árvore), pois isso, na sua visão, e analisado pelo seu ângulo, ele estava certo, atrapalhava mesmo na produção. Em virtude desta prática hoje existem poucas árvores nativas no município, a não ser, em algumas áreas de matas residuais ainda precariamente preservadas. Curvas de nível, assim como a quase totalidade dos brasileiros, os nordestino nem conheciam, recentemente é que alguns proprietários começaram a implementá-las em suas terras. Não é por acaso que a abundância dos cursos de água do município de Mirante do Paranapanema, se encontram atualmente num dos estágios mais avançados de assoreamento dentre todos os demais do oeste paulista.

Percebemos, desta forma, que o cultivo do algodão em Mirante do Paranapanema ocorreu do seguinte modo para produzir riquezas para poucos e misérias para muitos: desbravando uma vegetação que não conhecia, enfrentado todos tipos de perigos e dificuldades, milhares de nordestinos, largando sua terra natal, na esperança de um dia voltar rico, deixando distante parentes e familiares, aqui chegaram para tentar a sorte, acreditando na natureza, em seu trabalho e nos homens, lançaram a semente de uma cultura, que mal sabiam, fazia parte de todo um processo produtivo que envolvia não só interesses nacionais, mas até de outros países. Os "tubarões" e os mais "espertos", viram nesse contingente de pessoas simples, iletradas, aguerridas, humildes e trabalhadoras, uma grande oportunidade de ganhar dinheiro fácil.

Assim foi o algodão nos seus primeiros vinte anos em Mirante do Paranapanema, não me alegro somente por esse município ter sido a "Capital do Ouro", mas me alegraria sim se todos os que realmente trabalharam tivessem usufruído também de seu próprio trabalho. O que restou? Prédios de suntuosas indústrias praticamente abandonados; a maior parte da população do município vivendo em condições precárias, (logicamente que o algodão não pode ser culpado por tudo de ruim que aqui existe); os principais elementos produtivos da natureza totalmente degradados; vegetação primitiva praticamente inexistente; o solo totalmente destruído e cursos d'água secando. Muda-se a posse da terra mas o descaso para com a sua conservação continua o mesmo. Quem na verdade perdeu e está perdendo fomos e somos todos nós, seres humanos. (Colaboração do professor Cícero Nobre).

"Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou"(Rm.8:20)

 

AS CONTRADIÇÕES DA FAZENDA VALLE DO PARANAPANEMA

 

1 - ODILON FERRAZ E DR . LABIENO

É impossível desvencilhar da história e organização do espaço geográfico através da Empresa de Terras e Colonização Labieno da Costa Machado, entre as décadas de 1920 e 1940, a figura do administrador Odilon Ferraz, um dos amigos mais contraditórios do Dr. Labieno. Os dois compuseram uma longa história de amizade e ódio, que nesta matéria não pretendo esgotá-la.

Já por ocasião da primeira vinda a essa região, aproximadamente em 1918, para conhecer as terras herdadas de seu pai, que o Dr. Labieno se fez acompanhar de seu conhecido e amigo, Odilon Ferraz. Os dois viajaram até Indiana de trem e dali partiram a cavalo com destino onde hoje se formou o Distrito de Costa Machado atravessando mata virgem desde Pirapozinho.

Iniciada a colonização das terras do Dr. Labieno da Costa Machado, ainda na década de 1920, Odilon Ferraz se transforma no primeiro administrador geral da fazenda que denominava "Fazenda Valle do Paranapanema". Na década de 1940, mais precisamente de fevereiro de 1941 ao início do ano de 1946, Odilon Ferraz volta a administrar a fazenda, quando ocorre, finalmente a discórdia e ruptura entre os dois antigos companheiros de lutas.

A Fazenda Vale do Paranapanema teve outros administradores, mas o mais destacado e contraditório foi Odilon Ferraz, cuja trajetória de existência percorrida e atitudes tomadas, confundem com a própria história das primeiras organizações geográficas acontecidas ainda na etapa do pioneirismo do município de Mirante do Paranapanema.

Em conseqüência da falta de um acompanhamento mais "In loco" do Dr. Labieno nos negócios da Fazenda Vale do Paranapanema, proporcionou ao administrador Odilon Ferraz, a oportunidade de, como tantos outros, tomar posse de parte da abundância de terras que se apresentavam à sua frente. A partir desse momento ele passou a olhar com perspicácia para as posses do patrão, o que em se tratando de negócios daquela época, década de 1940, não seria uma aspiração incoerente.

Sem improbidade o Dr. Labieno estava criando a própria "cobra", que mais tarde o feriria quase que mortalmente.

Graças ao convívio com autoridades e seduzindo juízes, promotores e delegados, o administrador Odilon Ferraz, chegou até se intitular verdadeiro dono da Fazenda Vale do Paranapanema e colocar em dúvida a legitimidade do Dr. Labieno sobre a Fazenda Vale do Paranapanema.

Não seria apropriado qualificar o Sr. Odilon Ferraz puramente como um oportunista, mas sim como uma concepção da própria contradição que foi a propriedade do Dr. Labieno, que procurava acumular riquezas para poucos – para si - e miséria para muitos.

No início de 1946, julgando-se traído, o Dr. Labieno, após demanda judicial, conseguiu finalmente demitir e expulsar de sua propriedade seu ex-amigo e administrador Odilon Ferraz.

 

2 – ODILON FERRAZ E VIDA CONJUGAL

No primeiro casamento de Odilon Ferraz com Tereza Ferraz, ele teve seis filhos, quatro homens e duas mulheres. Nesse tempo ele morou em São João da Boa Vista, município paulista na divisa com o Estado de Minas Gerais, próximo a Poços de Caldas, e administrava a fazenda aqui, quando aqui ficava por períodos de dois a quatro meses.

Já viúvo e com 68 anos, Odilon Ferraz se casa com Amélia Varanda, que na época tinha apenas 15 anos de idade. Nesse casamento, que durou apenas sete anos, ele teve mais dois filhos homens.

Odilon morreu com quase oitenta anos de idade, de pneumonia, sozinho e pobre, longe da terra que um dia sonhou possuí-la.

Quando entrou em disputa judicial com o Dr. Labieno, Odilon Ferraz não pode continuar morando na sede da fazenda, e com isso acabou abandonando Dona Amélia, que ali ainda permaneceu por mais dois anos, vindo depois casar com o Sr. José Xavier, que era ex-capanga do Odilon.

Em entrevista gravada em 01/12/2001, dona Amélia Varanda Xavier, recorda os traços marcantes e as atrocidades praticadas pelo seu ex-marido, Odilon Ferraz.

"O Odilon era um homem bravo, bruto, só andava armado, perigoso, mandou bater em muita gente. Eu não contava pra ninguém porque tinha medo dele. Uma vez ele bateu tanto num homem que quando sai na janela da sede da fazenda, onde nos morávamos, que vi aquilo,não acreditava no que estava vendo. Ele era muito ignorante. A encrenca dele com o Dr. Labieno foi um golpe que ele queria dar nos negócios da fazenda. Até jagunços por conta ele tinha. Os jagunços tinham que fazer o que ele queria, se não a chibata comia. Ele era e perigoso, ele dizia que para matar um ele não trocava de roupa. Agora o Dr. Labieno era um homem muito bom para as pessoas.

Quando o Odilon chegava nos bailes ele mandava parar a música, se não parasse ele acabava com a festa e mandava jogar a sanfona dentro no córrego. O Odilon era um homem muito mulherengo.

Quando alguém não pagava a compra o Odilon tomava a terra à bala. Ele tinha um jagunço chamado Adalberto Marques que era temido por todo mundo.

Na sede da fazenda tinha um quarto bem forrado só para o Odilon e seus jagunços surrarem as pessoas. Quando o indivíduo era retirado o Odilon mandava lavar o quarto que estava cheio de sangue. Quando morria ele não deixava ninguém ver, eu que ficava trancada num outro quarto, só escutava muito gemido e o barulho das chibatadas.

Se deixasse o Odilon conseguia tudo, ele "engraxava" (comprava) todo mundo, até juiz. Quantos almoços eu fiz para juiz e promotor ali na sede da fazenda. Delegado ele trazia na palma da mão.

Quando eu terminava de servir a mesa com aquela gente, juiz, promotor, delegado, eu tinha que ficar no quarto para não ouvir o que eles conversavam.

 

3 - IGREJA E ASSASSINATOS

Quem não pagava o combinado, ou porque era inimigo, o Odilon mandava colocar música no alto falante da igreja do Costa Machado, e combinava com seus jagunços para levar o indivíduo para o meio de um bananal ali perto e matavam o sujeito com um tiro na cabeça e enterravam na cova que já estava pronta. A música era para ninguém ouvir o barulho do tiro.

O Dr. Labieno, chegou aqui com um juiz que fez um arraso, retomou a propriedade das mãos do Odilon, e o expulsou da fazenda.

O Odilon mandava e desmandava na fazenda, o Dr. Labieno quase não vinha aqui, quem mais vinha aqui era o Dr. Eumene. Durante todo o tempo, sete anos, que morei na sede da fazenda, o Dr. Labieno veio aqui só uma vez, ele veio de avião.

Jagunços do Odilon eram João Dias, Adalberto Marques, Durval Caetano, (administrador da Bessarábia), que se aliou ao Severiano para também tomar terra do Dr. Labieno no Bairro Santo Antônio.

Nem o Odilon e nem mesmo o Dr. Labieno fizeram alguma coisa para melhorar Costa Machado que é isso hoje por força dos outros. O Dr. Labieno dizia que não iria gastar dinheiro bom em coisa ruim, assim mesmo andou vendendo umas datas.

 

4 - NÚCLEOS HABITACIONAIS E VALORIZAÇÃO DAS TERRAS

Desde o início que o Dr. Labieno da Costa Machado, tinha como objetivo especular com as terras que afirmava ter herdado de seu pai. Buscando uma maior valorização das terras, era seu interesse organizar povoados em todas as colônias que iam se formando com os imigrantes europeus. Uma das maiores dificuldades para o europeu aqui se fixar, era a distância dos grandes centros urbanos, dado que a maior parte deles era procedente de cidades. Com os povoados esse problema poderia ser em parte também abrandado.

Mas apesar de todo o empenho despendido nesse sentido, o único núcleo que se mostrou tendente à constituição de um patrimônio, foi a colônia de Costa Machado.

A EMPRESA DE TERRAS E COLONIZAÇÃO LABIENO DA COSTA MACHADO

 

As origens da Fazenda Vale de Paranapanema

...O Dr. Labieno da Costa Machado tomou pose das terras havidas por doação de seu pai, passando a cultivá-la. Mandou levantar perímetro e todas as águas por meio de engenheiros. A posse do Dr. Labieno da Costa Machado, por si e antecessores, no referido imóvel, não foi molestada até 1921, quando começaram a aparecer os primeiros intrusos e pretensos donos de terras, portadores de títulos falsos, que, entretanto, sempre foram repelidos pelas ações competentes na justiça.

Fazer afirmação sobre o que é posse legítima ou ilegítima nessa região é algo perigoso. São muitos os exemplos que mostram a nulidade dos títulos apresentados como autênticos, quando já haviam sido repassados ou divididos para a comercialização de pequenos lotes...

A posse sobre terras do Dr. Labieno da Costa Machado foi confirmada oficialmente por uma vistoria em 1921, homologada pelo Juiz de Direito da Comarca de Assis, na defesa da invasão por parte da Companhia Marcados, que se dizia condômino de parte das terras, constatando-se que no imóvel Fazenda Vale do Paranapanema "... não existiam outras posses senão as dele"...

Apesar da vigilância e das ações impetradas contra eles (Dr. Labieno e Coronel Marcondes), na justiça, muitos intrusos permaneceram por muito tempo em determinados pontos do imóvel.

Apesar das ações de supostos grileiros, o Dr. Labieno da Costa Machado requereu a inscrição de várias glebas para serem retalhadas e vendidas à prestação, nas cabeceiras do Pirapozinho, o núcleo colonial Costa Machado, sede da fazenda, nas cabeceiras dos córregos Santo Antônio, os núcleos Nova Bessarábia e Santo Antônio e no Ribeirão das Queixadas...

Além das questões motivadas pelas invasões das terras, a Fazenda Vale do Paranapanema também teve a autenticidade dos títulos de posse avaliados pela Fazenda do Estado. Primeiro se discutiu se a posse do Dr. Labieno havia sido feita na totalidade das terras ou em apenas parte dela.

Entretanto, a questão de maior relevância contra o Estado teve início quando houve o "seqüestro da Fazenda Vale do Paranapanema", com publicação no Diário Oficial de 04 de novembro de 1933, devido ao atraso no pagamento de impostos rurais dos últimos 4 anos. A defesa da propriedade recorreu ao Supremo Tribunal de Taxas, onde obteve vitória, conseguindo o parcelamento de toda a dívida para com a Fazenda do Estado em doze parcelas, num total de 123.320$000, referente aos exercícios de 1928 a 1934. Pelo acordo, o não pagamento de qualquer uma das prestações, no mês estipulado, implicaria na caducidade imediata das concessões.

O interessante desse processo foi que, ao fazer o seqüestro pelo não pagamento de impostos, a Fazenda do Estado estava fazendo um reconhecimento formal da posse do Dr. Labieno da Costa Machado sobre a fazenda Vale do Paranapanema, além de confirmar as águas pertencentes à fazenda, tudo em acordo com as descritas na escritura original de compra de João da Silva Oliveira e de José Theodoro de Souza.

"A Fazenda do Estado, por esse seqüestro, inequivocamente reconheceu ao Dr. Labieno da Costa Machado à sua qualidade de proprietário da Fazenda Vale do Paranapanema, reconhecendo a área de 100.130 alqueires, os justos limites e confrontações da mesma, bem como as águas de que ela se compõe"(GLÓRIA, José O C. op.cit.,p.75)

No julgamento de uma ação de confirmação de posse, o Ministro Hermenegildo de Barros assim se pronunciou no final de seu voto.

"Aliás o próprio réu (Estado) reconheceu que as terras são domínio particular dos autores, tanto que lhes cobra os respectivos impostos, na qualidade de proprietário delas (Labieno da Costa Machado)"(GLÓRIA, José O C. op.cit.,p.72).

Mesmo quando as decisões não eram favoráveis às pretensões dos advogados do Dr. Labieno da Costa Machado, o discurso com os motivos para tal derrota era bem afinado.

"Somente a chicana sórdida e soez a serviço de advogados inescrupulosos, a cobiça descomedida e contrariada dos grileiros contumazes, a cretinice, a cretinice vesga de inimigos ou antipatizantes gratuitos, a má vontade da Procuradoria de Terras, apoiada no ´parti pris confessáveis e deslavado de juízes de outras comarcas, teriam tentado, como de fato, tentaram enxergar nesses títulos, qualquer ruga ou aparência de nulidade, com sadismo de depreciá-los. Não há, porém, nem pode haver, em que pese à semelhante gente, títulos, melhores e mais limpos de propriedade, nestas paragens, desde que elas começaram a ser conhecidas e desbravadas" "(GLÓRIA, José O C. op.cit.,p.69-70).

... Com a ação de especuladores e grileiros podia-se tomar posse de uma terra ou de outra já devidamente ocupada, transformando-as em áreas regularizadas, sob a proteção de títulos caprichosamente produzidos e colocá-las para a comercialização de pequenos lotes. Posto isso, entende-se porque durante muito tempo o Dr. Labieno da Costa Machado teve que freqüentar tribunais, levantar provas e impedir a ação de grileiros e ações do próprio Estado que constantemente colocavam sob suspeitas seus títulos e tentavam apropriar-se de parte das terras que considerava de sua exclusiva posse e controle.

Esse fato, que acabou se consumando mais tarde, em boa parcela das terras colocadas sob seu controle, nos deixa a dúvida até que ponto tais percalços atrapalharam o objetivo maior da Empresa de Terras em seu projeto inicial, que era a comercialização de lotes para pequenos proprietários. (Prof. Marcos De Martini – Tese "A EMPRESA DE TERRAS E COLONIZAÇÃO LABIENO DA COSTA MACHADO: DO VELHO PARA O NOVO OESTE PAULISTA".

 

 

MIRANTE DO PARANAPANEMA E O RAMAL DE DOURADOS

Em conversas entre os "mais antigos", políticos e "politicagens", em Mirante do Paranapanema, sempre se questionou sobre o trajeto da Estrada de Ferro do Ramal de Dourados. São inevitáveis questões como: por que a ferrovia não passou em nossa cidade? A culpa foi de qual prefeito? Quais os benefícios que a estrada trouxe para este município? Por que o ramal seguiu por um vale (várzea) quando o normal de uma ferrovia é acompanhar os espigões do relevo?

A verdade é que o Ramal de Dourados foi a obra mais contraditória que se tem conhecimento no oeste paulista, não só pelo seu itinerário mas sobretudo pela (des)necessidade de sua construção. A ferrovia atendeu somente interesses econômicos de alguns fazendeiros e políticos. O jornal "O CORREIO DA SOROCABANA", de 14/05/1953, assim já se expressava: "Até chegar a barranca do Rio Paraná, nenhuma importância econômica possui. É mais um luxo ou uma ostentação governamental na falta de coisas mais importantes. O Ramal da Sorocabana, que vai sangrar o tesouro Paulista, segundo consta é de 600 milhões de cruzeiros, é dinheiro jogado fora ou empregado mal. Começa que até o Rio Paraná este ramal não desempenha papel algum senão concorrer em condições de inferioridade com o caminhão. É uma infantilidade este Ramal".

 

O TRAJETO DO RAMAL

"Um investimento deste porte não pode escapar aos interesses financeiros e políticos daqueles que detinham o poder ou que estavam a caminho dele, que viam na construção da ferrovia um grande trunfo político ... (Lúcio Flavio Marini Adorno-UNESP - 1988).

"O que impôs o desvio de rota do Ramal de Dourados são os negócios de terras que desde tempos estão se fazendo, na certeza absoluta e antecipada da passagem da via férrea por aquelas paragens. Antes da chegada da missão técnica já se vendiam terras, já se assegurava aos compradores de lotes nas futuras estações garantia de êxito e lucro." (CORREIO DA SOROCABANA, 24/08/1952).

A indefinição do traçado do ramal, em virtude de grandes interesses fica evidente quando se compara os dois mapas, o da Comissão de Obras Novas, de 1951, que mostra o traçado original e o mapa do itinerário definitivo. Esta mudança ocorreu para atender aos interesses dos latifundiários e pecuaristas que buscavam a valorização das propriedades, "griladas" em terras devolutas do Estado no Pontal do Paranapanema.

Como se observa no mapa, pelo traçado original a estrada passaria na cidade de Mirante do Paranapanema (Palmital), mas a influência dos fazendeiros foi maior do que a do grupo político de Palmital, até porque nessa época essa área ainda pertencia ao município de Santo Anastácio, e o prefeito na época, pouco ou quase nada se interessou pelo destino do povoado. O que se sabe é que se determinadas pessoas influentes daqui do povoado impedissem a emancipação política do mesmo, então ele, prefeito, faria passar por Palmital a estrada de ferro. Diante da força econômica dos fazendeiros, creio que pouco provável a influência do prefeito alteraria o destino dos fatos. A verdade é que a ferrovia acabou passando à mais de dez quilômetros da cidade de Mirante do Paranapanema, quando a monocultura algodoeira já apresentava sinais de decadência neste município. Observando o mapa do traçado da ferrovia, podemos constatar que no percurso deste município - 35 km - foram construídos cinco pontos de paradas e uma estação, para atender aos interesses de fazendeiros. Em Mirante do Paranapanema a ferrovia deixou a região povoada e seguiu por entre os últimos resquícios da floresta, ficando estações e pontos de paradas em meio a densa mata. Tudo para valorizar as propriedades de fazendeiros.

Em função da ferrovia seguir por uma depressão no município de Mirante do Paranapanema, as inundações dos trilhos e rompimentos da estrada por enxurradas eram constantes nos períodos prolongados de chuvas. Em fevereiro de 1964, quando choveu 606,9 mm, em função de inundações próximo a parada Washington Luis, o tráfego na ferrovia ficou paralisado por mais de uma semana. Se a construção da ferrovia tivesse seguido por um espigão, esse tipo de problema dificilmente ocorreria.

 

A CONTRADIÇÃO DA CONSTRUÇÃO DO RAMAL

O Ramal de Dourados foi decidido na Conferência dos quatro governadores da Bacia do Paraná-Uruguai no final de 1951. Em 1953, tiveram início as obras de corte e aterros nas proximidades de Tarabai porque os prefeitos de Presidente Prudente e Regente Feijó disputavam o local do encontro do ramal com a Estrada de Ferro Sorocabana. Para ficar de bem com as duas cidades e querendo imitar a sabedoria de Salomão, o governador do Estado decidiu que a ferrovia sairia de um local entre as duas cidades.

Em 16/01/1956, inicia-se o assentamento dos trilhos a partir de Presidente Prudente e em fins de 1957 o primeiro trecho até Pirapozinho é completado. Em 1958 a ferrovia chega ao município de Mirante do Paranapanema e em 18/07/1960 é inaugurada a estação de Teodoro Sampaio com a chegada ali do primeiro trem. Os 169 km do ramal é completado em Euclides da Cunha Paulista em 1965. A partir do momento em que a ferrovia deixou de ser viável ao governo, em função da proibição do corte de madeira nativa no Pontal, ela foi desativada. O jornal "O IMPARCIAL", de 13/12/1978, assim noticiava: "Há mais de duas semanas, o ramal de Dourados encontra-se totalmente paralisado: foram suprimidos não apenas os trens de passageiros, mas também os de carga - segundo a Fepasa - não há o que transportar".

 

A FERROVIA E A RIQUEZA DO PONTAL

O Ramal de Dourados, isso porque se dizia que os trilhos chegariam à cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul, se concretizou na medida em que facilitava a retirada da riqueza por onde passava, principalmente a madeira e o gado bovino.

Não resta dúvida que a ferrovia se transformou praticamente no único meio de transporte para a região. A população da região poderia ir em busca de assistência médica em Presidente Prudente, os professores poderiam deslocar diariamente para lecionarem em escolas próximas à ferrovia.

"Em meio ao descontentamento do ramal o seu destino, nem por isso deixou de atingir o ofuscado objetivo das autoridades governamentais que o conduziam: a exploração da farta madeira da floresta do Pontal. Se houve algum desenvolvimento no Pontal de então foi em detrimento da extração da madeira. Eis então que os milhares de metros cúbicos de madeira eram o carro chefe da ferrovia. Com a queda e crise do desmatamento veio a desativação do ramal." (Lúcio F.M. Adorno).

Como já previa o jornal "O CORREIO DA SOROCABANA" "Foi dinheiro jogando fora ou mal empregado".

 

 

A VISÃO CAPITALISTA AOS AGRICULTORES NORDESTINOS

Para "ajuntar dinheiro com rastelo", acumular e administrar aquilo que consegue ganhar em decorrência do trabalho na lavoura, além de determinados conhecimentos e apoio governamental, faltou competência para a quase totalidade dos migrantes nordestinos que chegou em Mirante do Paranapanema (1950 – 1970), em seu período áureo de economia agrícola que estava baseado especialmente no algodão, e de forma complementar, no amendoim. Não devemos, entretanto, esquecer que a agricultura aqui sempre se constituiu num apêndice, ou seja, uma complementação e subordinação a prática da pecuária bovina.

Além da vontade de trabalhar, que sem quaisquer sombras de dúvidas, os nordestinos amanhavam de forma imponente, exigia-se deles, para acumularem capital nesse seu além-mundo, determinadas noções mínimas, porém fundamentais de economia de mercado, que lhes possibilitassem o desenvolvimento de distintas habilidades e visões, aqui traduzidas como espertezas resultantes de uma competência e consciência individual e coletiva. Por outro lado os migrantes agricultores, sob a visão dos objetivos a que propunham, foram extremamente competentes, ou seja, ganhar "um bom" dinheiro aqui, principalmente nas colheitas do algodão, e passear no nordeste – num constante vai-e-vem quase que anual – para gastar em coisas, muitas vezes consideradas supérfluas na visão capitalista de produção e acumulação de riqueza, mas que os afirmavam perante àquela sociedade que lá permaneceu, como bem sucedidos na dura empreitada a que se sujeitaram. Quando o dinheiro acabava, como muitos afirmam, é só pegar de novo o pau-de-arara e tornar a "arrastar" dinheiro em "Sam Palu". Assim sendo, a maior parte desses nordestinos tiveram seus desejos realizados e quem pode afirmar que eles não conquistaram tudo aquilo de almejavam? Na verdade o "mundo" do nordestino sempre ficou no nordeste, ou melhor, no norte, como é referido por eles.

Verdade seja dita, se as máquinas beneficiadoras, que compravam e beneficiavam o algodão produzido por esses agricultores; assim como também, a maior parte dos imigrantes europeus e dos asiáticos, fazendeiros, bancos e agiotas, ganharam dinheiro em cima do trabalho e da produção nordestina, foi por pura competência capitalista deles. Afinal, vivemos num sistema capitalista em que impera a de lei da oferta e da procura, onde quem tem o poder e as idéias para organizar e gerir o espaço geográfico, acaba explorando e fazendo a riqueza numa exploração racional dos meios de produção, no exercício do domínio sob outros trabalhadores.

A falta de uma política agrícola prejudicou e ainda prejudica, principalmente o pequeno produtor rural, mas foi a ambição e a ganância que levaram muitos agricultores, não só nordestinos deste Município, a perderem, com a própria agricultura, tudo aquilo que com ela haviam conseguido.

 

O NORDESTINO NÃO SE DESTERRITORIALIZOU DE SUA TERRA

O migrante nordestino tinha dois sonhos: o de ficar rico e voltar rico para sua terra, e com isso ele não conseguiu se desterritorializar do seu mundo de origem e nem se territorializar nesse lugar que lhe era alheio. Isso fica patenteado nas músicas do maior cantor nordestino, Luiz Gonzaga. "A TRISTE PARTIDA", de Patavia de Assaré." "Por terras alheia nós vamos vagar. Meu Deus, meu Deus. Se o nosso destino não for tão mesquinho cá e pro mesmo cantinho nós torna a voltar. "A VOLTA DA ASA BRANCA", de Zé Dantas e Luiz Gonzaga: " Já faz três noites que pro norte relampeia. A asa branca ouvindo o ronco do trovão já bateu asas e voltou pro meu sertão. Ai eu vou-me embora vou cuidar da plantação. A seca fez eu desertar da minha terra, mas felizmente Deus agora se "alembrou" de mandar chuva pra esse sertão sofredor.

Não houve uma disponibilidade por parte da maioria dos migrantes nordestinos em desterritorializar-se de seu mundo de origem, não só no plano econômico, como também no político-sócio-cultural.

"Nunca tive vontade de comprar terra aqui, pois iria ficar preso. No começo, por ano, dava para comprar até seis alqueires de terra. Gastei muito dinheiro à toa, hoje estou cego, se tivesse um filho de Deus pra me levar, eu queria morrer na minha terra. O nordestino sempre pensava em comprar um pedaço de chão, mas lá na sua terra. Ele queria ganhar dinheiro e ir embora. Chegava aqui sem um couro para morrer em cima, mas com um ano de serviço ele tinha muito dinheiro". (José Manoel dos Santos, -"Ozeas"-, sergipano, 86 anos, foi arrendatário e empreiteiro. Entrevista em 30/06/2002)

 

ERA SÓ PLANTAR E COLHER

Na organização do espaço geográfico de Mirante do Paranapanema, na sua fase pioneira, encontramos a figura excêntrica dos grileiros de terras, que para muitos utilizaram formas imorais, ilegais, ocupando terras devolutas do Estado, ou seja, apropriação ilícita de propriedades de caráter social. Rejeitando esta tese, da violência como poder de conquista e domínio, podemos reconhecer que esses fazendeiros, de forma extremamente competente, nos múltiplos palcos de batalhas – trincheiras e tribunais – superaram as inúmeras dificuldades, conquistaram seus espaços e, territorializando, estabeleceram seus domínios aqui por longos décadas, subjugando e amedrontando a todos e fizeram riqueza para si.

 

SEMPRE MIGRANTE

Mesmo com a facilidade para adquirirem terras, a condição de proprietário não se constituía objetivo básico para maioria dos nordestinos, considerando os obstáculos que se constituiriam para suas constantes viagens rumo ao "norte". Sabemos que após uma colheita, para quem é o dono da terra sempre requer, em sua propriedade múltiplas restaurações e preparos para novas plantações. Segundo o Sr. Ivo Agneli, 53 anos, filho de paulista, nascido, criado e toda a vida morador do Bairro do Repouso, relata que muitas famílias nordestinas de arrendatários de seu pai com dois anos cultivando algodão poderiam adquirir até dez alqueires de terra, mas escolhiam ficar à toa no período entre safra ou em ir para o nordeste gastar o que ganhou penosamente numa colheita e voltar no outro ano com adornos de ouro que, grandes proprietários de terras daqui nunca pensavam em um dia em possuir.

O Sr. Floriano Quirino Cavalcante, relata que inicialmente os nordestinos cultivaram algodão aqui de forma atabalhoada, ou seja, sem qualquer planejamento, até porque o algodão que eles tinham conhecimento no nordeste era da espécie arbórea, ou seja, uma qualidade perene, que possibilitavam até dez colheitas, sendo uma por ano. Aqui, apesar dos pés do algodão Texas, herbáceo crescer bastante também, ele só produzia uma vez, depois precisava ser arrancado para dar espaço, no outro ano, a novas plantações. Aliada a isso, e que contribuíam para o fracasso desse tipo afoito de agricultor foram: a falta de noções dessa cultura; o desconhecimento da constituição do solo e das condições do tempo, além é claro, dos mecanismos comerciais que envolviam essa atividade econômica e a insignificância de capitais para barganha.

 

MACHADO E FÓSFORO

Na cobiça pela riqueza através das exuberantes florestas primárias, as armas mais usadas pelos nordestinos foram o machado e o fósforo. Na agricultura foram aguerridos trabalhadores, mas diante das primeiras dificuldades, como por exemplo, pragas daninhas e esgotamento do solo já exaurido pelas sucessivas culturas anuais e predatórias do algodão e do amendoim, a maioria nomeou em alçar vôo e buscar novos paradeiros.

 

A ROÇA COMO SISTEMA

A cultura que aqui foi introduzida, sem qualquer racionalidade, foi do sistema parecido com o de roça, quando o homem busca empreender novas derrubadas das florestas para o cultivo, ao invés de recuperar a área anteriormente degradada. Quanto a essa mentalidade, que não é originalmente nordestina, assim se expressou o Sr. Joaquim Franceline de Andrade, cearense de Icó, 77 anos "Eu nunca adubei terra, se for para adubar eu deixo de plantar, só dá prejuízo". (O Sr. Joaquim abandonou a agricultura ainda em 1968).

Outro também cearense, José Ferreira da Silva, 73 anos relata que na década de 1950 ganhou dinheiro e preferiu passear no nordeste, (onde retornou dez vezes) a comprar 5 alqueires de terra. Ele mesmo confessa que gastou todo o dinheiro lá em coisas banais. "Todo nordestino é trabalhador que nem eu, ganhava dinheiro aqui, pegava vestia um terninho de casimira e ia gastar no"norte". Ganhava-se bem, mas gastava bem também. Pra nós tudo que está pra cima do Estado da Bahia é norte".

 

A TERRITORIALIZAÇÃO DOS IMIGRANTES EUROPEUS E ASIÁTICOS

Diferentemente dos migrantes nordestinos, os pioneiros imigrantes europeus, – primeiros habitantes efetivos que aqui chegaram a partir da década de 1920 – implementaram inicialmente uma agricultura de sobrevivência em pequenas propriedades, adquiridas a longas prestações anuais. Suas relações de produção eram baseadas no trabalho familiar e coletivo, e na preservação da identidade de cada povo, conseguiu gradativamente, e de forma competente, acumular capital. De igual modo, sem violência física, porém social, baseados na organização e na preservação da sua identidade enquanto povo, os japoneses tiveram competência, sobretudo coletiva, para territorializar o espaço do café na região do Bairro Novo Paraíso, a partir da década de 1950, e organizar um espaço que lhes resultavam riquezas, aproveitando-se sobretudo da mão-de-obra excedente e trivial do migrante nordestino.

Os produtores rurais mais antigos contam que, quando do desmatamento da área do município pelos nordestinos, a partir do final da década de 1940, até meados da década de 1960, lavoura aqui dava muito dinheiro. A terra, por estar localizada distante da Estrada de Ferro Sorocabana, e pelo fato de não ter provas de que a quem pertencia, era arrendada até de graça por três a quatro anos. O lavrador tinha apenas de desmatar a área, limpar o terreno, cultivar alguns anos e depois devolvê-la ao seu "dono", muitas vezes já com plantações do capim colonião. Os custos com o arrendamento não se tornavam um grande obstáculo para os agricultores, tanto é que a maior parte dos plantadores preferia tocar uma área maior de lavoura em terreno arrendado do que plantar numa pequena área, mesmo que esta fosse sua. Esse foi o caso do Sr. Antônio Estácio de Oliveira, "Antônio de Nel" 75 anos, sergipano, assim relata em entrevista de 23/06/2002. "Antigamente aqui se ganhava muito dinheiro com lavoura, era muito bom. Sempre fui agricultor, e sempre também dependi de terras dos outros para plantar. Eu não posso reclamar do algodão, no começo eu ganhei muito dinheiro que dava para comprar até cem alqueires de terra aqui em Mirante, mas preferi continuar arrendando terra e acabei perdendo tudo. Eu cheguei a cultivar 90 alqueires de terras de uma só vez. Não foi só eu que "quebrei"com lavoura não, "quebrou" muita gente. Foram cinqüenta anos somente plantando lavoura em terras arrendadas. Ganhei muito como arrendatário e acabei perdendo tudo também como arrendatário. O meu sonho sempre foi ganhar mais dinheiro para comprar, só de uma vez, bastante terra. Naquele tempo terra não era difícil para se comprar, com o que a gente ganhava plantando algodão em dois alqueires durante apenas um ano, dava para se comprar um alqueire de terra. Ganhei muito dinheiro com algodão e perdi tudo também com algodão. Eu não usei a cabeça para ir comprando terra pouco a pouco e aí deu no que deu. Eu não culpo ninguém não, o culpado fui eu mesmo".

Os agricultores são unânimes em afirmar que era só plantar e colher: solo fértil (muita matéria orgânica), pouca erosão e pragas, boa produtividade, ou seja, os custos eram reduzidíssimos. Mesmo os compradores não pagando bons preços pelos produtos colhidos, os produtores conseguiam ganhar um bom dinheiro. Muitos desses até preferiam continuar arrendando terras para o plantio, sobretudo do algodão, do que empregar os lucros das lavouras na compra de terras. Os poucos que assim o fizeram, quando chegou a decadência da cultura do algodão (final da década de 1960), puderam investir na pecuária, atividade econômica mais rentável naquele momento, e com isso conservaram e desenvolveram o capital acumulado pela lavoura, como foram os casos dos cearenses, Floriano Quirino Cavalcante, 77 anos, Sebastião Vicente Barbosa, 76 anos, Raimundo Batista da Costa, 67 anos, e do sergipano, Sr. Josafá de Oliveira Góis, 82 anos.

Portanto, os imigrantes estrangeiros, que aqui portaram, ao mesmo tempo em que se desterritorializaram de seu "antigo mundo", procuraram reterritorializar um outro espaço geográfico, preservando, todavia, suas diferentes identidades dentro de novas amarrações e relações com a natureza.

 

 

"ZUCA" MARCOLINO: SUA VIDA SUA HISTÓRIA

Aproveitando sua presença em Mirante do Paranapanema, por ocasião do 48º aniversário deste município, realizei no último dia 30 de novembro, entrevista com José Zuca Marcolino Sobrinho, ou simplesmente o "Zuca". Essa figura notável e contraditória que chegou ao ápice da glória popular experimentando o júbilo no alarido das massas, bem como o amargoso paladar do abandono de muitos de seus companheiros e correligionários de pelejas e triunfos. Ao longo de quase quinze anos de vida política neste município, conseguiu capitalizar paixão e ódio, aclamado e desamparado pelas ruas da cidade. Enquanto prefeito fez uma obra contraditória: asfaltou a cidade sem antes fazer a rede de esgoto.

Um município bem próximo ao nosso, tem sua sede com rede de esgoto, mas a maior parte de sua população vive no barro quando chove e no pó quando estia. A bem da verdade, um serviço não substitui o outro.

Por falar tudo o que pensa e nunca ficar "escondendo a gordura debaixo do casco, igual tatu", como ele mesmo afirma, acaba lhe custando caro e isso encurtou sua trajetória na vida política local. Perseguido, segundo afirma, pelo tenente "Gastão", em atendimento ao Prefeito da época, quase ficou preso, quando ainda era simplesmente um agricultor do bairro "Pica-Pau". Já no pleno exercício do poder político e líder "carismático" da parte da massa popular mirantense, acabou sucumbindo por três dias na prisão em São Paulo.

Nas batalhas políticas, que dividia a população do município em apenas dois grupos "GATUREMA" e ‘CARA PRETA", ele captou para si paixão e ódio.

Hoje ainda há bastante gente "antiga" neste município, que o considera como maior líder político que aqui já surgiu e como o melhor prefeito que Mirante já teve. Enquanto outros o acusam de ter feito o asfalto sem rede de esgoto bem como de ter deixado a conta para os prefeitos posteriores pagarem-na, ou melhor, o povo. Como sempre reconhecemos nesta coluna, não existe somente uma história, somente uma geografia.

Seja o que for, trata-se de um homem destemido, presunçoso, franco, atrevido, leal com os amigos e analfabeto, situação que não faz questão de esconder. Possuidor de uma eloqüente oratória que ainda hoje, faz olho gordo a muitos "posseiros" de diplomas universitários.

O Sr. "Zuca", é um típico nordestino, possui latente nas próprias veias a paixão pela política que extrapola a vontade e a razão. Na busca da concretização do sonho que todo migrante nordestino almejava, buscou juntar dinheiro com "rastelo" e retornar abastado para o círculo de seus conterrâneos. Não alcançando plenamente esse objetivo aqui, continuou "voando", como a "asa branca", longínquas distâncias, até encontrar um novo chão para um pouso mais duradouro, firme e rico que lhe desse suporte enquanto não desperte o espírito nordestino de nunca desterritorializar de sua terra natal, ou seja, um dia voltar rico para o seu inigualável mundo.

Hoje o Sr. "Zuca" mora em Rondônia, onde acumula, além de prestígio político, terra, fazenda, gado e vive em muita tranqüilidade.

 

DADOS PESSOAIS

José Zuca Marcolino Sobrinho, nascido em Icó-CE, em 11/08/1924, hoje com 77 anos de idade, ficou casado 33 anos com Maria Cândida Rodrigues. Teve cinco filhos nesse primeiro casamento, sendo um deles já falecido. Os outros um é médico, outro é advogado e outro é pecuarista.

Em Rondônia foi morar com a sua ex-Tesoureira da Prefeitura, Alzira. Naquele Estado exerceu o cargo de Deputado Estadual.

Recentemente (hoje, novembro de 2003), Zuca Marcolino sofreu um grave acidente automobilístico, e segundo informações de sua família, não passa bem.

 

O VAI E VOLTA NO NORDESTINO

"Não tenho nenhum diploma, freqüentei 6 meses de aula particular, quando ainda garoto lá no nordeste, à uma distância de 18 quilômetros, naquele tempo em que diziam que a preguiça é a chave da pobreza. Saía de manhã e voltava de noite.

Cheguei em Mirante em 19/03/1949, quando ainda se chamava Palmital. Cheguei a dormir em cima de algodão num galpão porque não tinha dinheiro. Trabalhei com o Zeca, matando bicho com um veneno chamado formicida Tatu, na Gleba Seca. Depois eu fui colher algodão na Barra Funda para o Sr. João Jeremias. Nesse tempo meu pai vendeu umas vaquinhas que eu tinha lá no nordeste, e com os 3 mil cruzeiros que ele me mandou comprei três alqueires de terra naquele bairro. Em 1949 derrubei o mato e no outro ano já plantei algodão".

Em 1950, ganhei 30 mil cruzeiros e voltei para o nordeste, pois tinha deixado mulher e filhos lá. Arrendei os três alqueires e fiquei lá uns 6 meses. Em 1951, quando voltei, tinha chovido muito e o arrendatário não tinha como me pagar. Aí, eu acabei comprando aquela lavoura e colhi o que foi possível. No final das contas apurei cem mil cruzeiros. Voltei novamente para o nordeste e montei um armazém e ganhei apenas 6 mil cruzeiros durante um ano. Falei então para a mulher: você quer ficar aqui, fica, porque eu vou embora para São Paulo. Fiquei lá um ano e cheguei aqui novamente com a mulher e os filhos. Trouxe também "uns ouros". Tentei comprar terras no Estado do Paraná, mas era muito cara, 20 mil cruzeiros o alqueire e meu dinheiro só dava para comprar 5 alqueires. A terra no norte daquele Estado estava muito procurada para a cultura do café. Em 1952 vendi os três alqueires da Barra Funda e comprei no bairro "Pica-Pau", 22 alqueires, desmatei e continuei plantando algodão. Em 1954 ganhei 400 mil cruzeiros em apenas 10 alqueires. Quando começou a chuva naquele ano eu já tinha colhido mais de 50% da produção. Por causa das chuvas o algodão nasceu nos pés, quem tinha colhido antes vendeu por um preço muito bom. Colhi duas mil arrobas antes das chuvas e duas mil depois. Em 1955 deu uma seca terrível aqui, os pés de algodão estavam com apenas uma ou duas bolas. Em 07/03 deu uma chuva grande. Eu arei passei veneno naquela lavoura e colhi ainda 300 arrobas por alqueire, isso já no mês de agosto. Ganhei dinheiro e montei um bazar aqui na cidade; mas vender botão, zíper, não era o meu negócio.

Fui comprando mais terra e cheguei a possuir 250 alqueires, isso já no final de 1966, quando ganhei para prefeito. Quando tudo lá no Pica-Pau, era pastagens, só vaca nelore para cria eu tinha 600.

POR CAPRICHO, ENTROU NA POLÍTICA

"Eu estava fazendo uma estrada no enxadão lá pro bairro. Naquele tempo tinha o tal de tenente Gastão, que era um terror e ele me intimou para comparecer aqui na Delegacia. O tenente foi logo perguntando: quem é você? Quando eu acabei de pronunciar meu nome ele foi logo perguntando: você que é o "jagunço" do Pica-Pau? O prefeito José Quirino sentado ali do lado. O Gastão disse: eu te prendo. Eu disse, já estou preso. Aí ele perguntou, você não chamou o prefeito do burro? Eu rematei imediatamente: o Dr. está perguntando ou afirmando? Fui logo arrematando a conversa dizendo: Dr. aqui está uma autoridade, não a máxima deste município, mas que foi constituída pela soberana vontade de um povo sofrido e acima de tudo, íntegro e honesto. Portanto pela relevância do cargo que esta pessoa atualmente ocupa, lhe obriga criminalmente responder condignamente os anseios deste povo sofrido e trabalhador desta terra. Falei ainda, essa intriga aconteceu Doutor, por causa das estradas que o excelentíssimo prefeito não conserva, mas que eu não tinha a qualquer intenção de molestar a pessoa inaudita do Sr. José Quirino. Aí eu virei para o prefeito e disse: nós te elegemos prefeito, mas se eu possuir feijão e farinha para comer com minha mulher e meus filhos, te derroto na outra, só se Deus não quiser. E assim eu fiz. Na eleição seguinte(1958) fui o vereador mais votado. Tirei 256 votos entre 2.600 eleitores e o meu candidato, João Augusto de Almeida ganhou para Prefeito.

Perdi, por 82 votos para o "Chico" Farias na eleição seguinte para Prefeito, em 1962, quando fui apoiado por João Augusto de Almeida.

Quem me levou para a política foi o tenente "Gastão" e o José Quirino Cavalcante. Foi um capricho meu.

 

ELEITO A PREFEITO

 

Na outra eleição para prefeito, em 1965 ganhei por diferença de 798 votos do Sr. José Quirino, que estava sendo apoiado por Chico Farias.

 

VAMOS ASFALTAR A CIDADE!

Peguei a Prefeitura com 25 cruzeiros de caixa. Fui prefeito de 01/01/1967 a 31/01/1970, ou seja, três anos e um mês. Não tinha um metro de asfalto na cidade e todas as estradas do município estavam abandonadas, era ponte quebrada, buracos e areões que muito dificultava o transporte da produção do campo.

Chamei a Câmara, mandei um projeto de lei para fazer o asfalto da cidade, muitos davam risada, achando eu estava sonhando muito alto. Trabalhei dia e noite nesse asfalto. Era três horas da manhã e eu estava distribuindo lanche para os peões que trabalhavam e eu não conseguia dormir direito.

Eram duas turmas de trabalho, uma de dia e outra de noite. Com muita luta o asfalto saiu e está aí, um dos melhores de todas as cidades desta região. Melhorei o salário dos tratoristas, de 120 foi para CR$ 420,00. Abri muitas estradas, coloquei o Dr. João fazendo consultas em todos os bairros do município e distribuindo remédios para a população pobre.

 

MELHORANDO AS RECEITAS

Nessa época começou o repasse do ICM do Estado para o município e como eu também aumentei o ITR dos fazendeiros, as receitas da Prefeitura aumentaram substancialmente.

Por conta do meu trabalho e administração, arrumaram uma forma de me prenderem em São Paulo, fiquei lá três dias e voltei aclamado pelo povo.

 

VAMOS CONSTRUIR A PRAÇA DA IGREJA!

Para construir a praça da igreja tive que comprar uma "briga" com o padre Geraldo e com o Bispo Dom José de Aquino Pereira, de Pres. Prudente. Ainda esses dias fiz as pazes com o padre. Naquela época eu e meus adeptos fomos excomungados.

Quando a praça foi concluída todo mundo gostou e mesmo os adversários, depois, confessaram que o serviço era necessário. Inventaram que eu queria colocar uma fonte luminosa só para passar a imagem de que eu queria jogar dinheiro do povo fora. No final meu prestígio político aumentou.

Aqui enfrentei adversários políticos, padres, promotores públicos, ex-companheiros, e no final, até a mulher e filhos. Fui proibido de vir em Mirante. Quando eu estava em Rondônia, diziam: eu tinha que ficar em Cuiabá Paulista, porque se aqui viesse o juiz mandaria me prender, mas eu acabei vindo e continuei solto nessa Comarca que foi criada na minha administração.

Eu e meus companheiros, que já tínhamos elegido para prefeito o Justino de Souza Trindade, colocamos também nesse cargo o meu filho, Francisco Cândido Marcolino, o "Nenca", que foi, naquela eleição, o mais novo prefeito eleito do Brasil, quando tinha apenas 19 anos de idade.

No final armaram ciladas para me matar, uma vez numa ponte no Rib. Pirapozinho e outra em Cuiabá Paulista.

 

VOANDO PARA NOVAS PARAGENS

Política, colégio dos filhos, negócios foram fracassando e no fim, em 1972 foi preciso vender tudo e acabei sem nada. Eu tinha também aplicado um pouco de dinheiro em Rondônia em terras de "posses" que além de não resultar em nada, quase fui eliminado por pistoleiros de aluguel.

Aqui em Mirante no final, já em 1975, só restavam comigo Agnaldo Costa Correia, José Maia, Valdecir e o Moreirinha. Conseguiram levar a briga política de fora para dentro de minha casa, aí eu fui para Rondônia definitivamente. Os políticos me abandonaram, você só tem valor quando possui dinheiro.

 

A POLÍTICA VERTE DAS VEIAS...

Lá em Rondônia em 1982 fui convidado, pelo governador do Estado para ser candidato a deputado estadual representando os agricultores. Após um discurso em Presidente Médici fui aclamado por 10 mil pessoas e ganhei a simpatia de políticos até em Brasília. Em Vilhena, outra cidade de Rondônia, fui indicado pelo governador para saudar o Presidente Figueiredo.

Fui o deputado mais votado do Estado e na eleição seguinte concorri ao cargo de governador do Estado de Rondônia, e nessa eu perdi, porque os houve "complô" de políticos da capital do Estado para que eu não fosse eleito.

Hoje moro em Cacoal-RO, e a 45 Km dessa cidade, sendo 30 km de estrada asfaltada, possuo uma fazenda com 2. 507 hectares, ou seja, 1.036 alqueires paulista, sendo 700 alqueires em pastagens e o resto ainda está coberto de mato. Tenho 4 mil cabeças de gado bovino, sendo 2 mil em parceria".

Está aí uma história de paixão e ódio que sempre fará parte de Mirante do Paranapanema. Um personagem, que não entrando na questão dos juízos de valores, sempre fez questão de manifestar publicamente suas simpatias e opiniões. Entendemos que quando ele escolheu a função pública nos reservou o direito de apreciar seus atos, questionar e analisar suas atitudes e exprimir nossas opiniões: "o mito não pode errar".

Uma máxima do próprio entrevistado: "A preguiça é a chave da pobreza".

Ao mesmo tempo em que os agentes criam à história, essa cria também os seus próprios personagens, e o Sr. "Zuca" é a expressão autêntica do "modelo" da política, tipicamente no nordeste, implantada em Mirante do Paranapanema, para a sua fundação, emancipação, administração, disputa e sustentação do poder.