O QUE ENTENDO POR HISTÓRIA

Prof. Milton Paulo dos Santos

Neste dia tão festivo para o Município de Mirante do Paranapanema quando ele  completa 62 anos de emancipação político-administrativa, quero desejar a todos os mirantenses de todas as épocas e lugares o meu reconhecimento por tudo aquilo que vocês fizeram e ainda fazem por esta comunidade,  muitas vezes com lutas e sacrifícios, explicitamente e as vezes como agentes que de forma perspicaz e no anonimato, contribuíram  de forma de forma definitiva nos resultados dos acontecimentos que neste espaço ocorreram.  

Aproveitando este momento de reflexões, creio que é importante fazer aqui uma “prestação de contas” e esclarecimentos sobre os procedimentos e métodos utilizados em minhas pesquisas históricas sobre este Município. Entendo que toda pesquisa histórica deva   utilizar um método que possibilita o resgate por meio da leitura e interpretação dos fatos e ocorrências.  Entendo que não há apenas uma história sobre a mesma realidade, existe sim um olhar parcial e singular sobre episódios acontecidos em determinando local e tempo. Portanto, eu que nem sou historiador de formação, teria muita pretensão em querer sustentar  as conclusões às quais cheguei  sobre os acontecimentos de Mirante do Paranapanema, sejam as únicas verdades acabadas e absolutas considerando que a história é construída cotidianamente.

Refletindo hoje no que entendo por história, veio-me a mente um fato ocorrido a muito tempo, que foi a fala de uma pessoa  desta cidade, que assim expressou-me o seu conceito sobre história: “História para mim é o dia da emancipação do Município, o decreto, os nomes dos Prefeitos e o total de eleitores”. E neste momento, reportei-me aos meus conceitos baseados na educação que recebi de meus pais os quais me ensinaram acerca do respeito,  principalmente com  os mais velhos.   A História de um povo vai além de meras suposições mas se faz na busca constante de fatos que possam confirmar hipóteses talvez, quem sabe, não posso garantir,   esta pessoa em   sua  “análise” estivesse fazendo referência ao meu modo de “escrever” história, que fala de colonização, algodão, café, terras, população, campo, cidade, pobreza, riqueza, indústrias, bairros, etc. condiz com os objetivos com que realizo minhas pesquisas.  Em todos os meus trabalhos de história sobre este Município, procurei  dar  destaque ao processo da emancipação político administrativa cuja conquista  decorreu após  muita luta  em várias instâncias administrativas da região e da capital do Estado. A fundação da cidade e as eleições municipais receberam também tratamentos destacados, pois os considero fundamentais marcos de nossa história.  Diante de novas reflexões considero que  história para mim vai além de meras citações  de nomes, menções de quantidade, de dados, de descrições de fatos, de informações ou acontecimentos. Ou seja, eu trabalho na visão dialética dos acontecimentos: tudo muda tudo transforma e tudo é contraditório. O método de pesquisa adotado por mim busca interpretar as mudanças, as permanências e as contradições dos acontecimentos que ocorrerem no espaço geográfico em toda a sua construção histórica.    

                Para mim a história de Mirante do Paranapanema começa a ser construída ainda no ano de 1918 com a chegada do Dr. Labieno da Costa Machado. Depois passa pelo processo de colonização estrangeira e já na década de 1940, pelos migrantes nordestinos. Muito antes da emancipação político – administrava, que o jornal “O OESTE PAULISTA” de Santo Anastácio já reconhecia a história que o povo de Mirante do Paranapanema estava construindo. Se não vejamos: 10/07/1949 p. 1 “Já não restam mais dúvidas. O progresso, representado por um pugilo (porção) de homens e principalmente pelo dinamismo de Iraku Okubo, Taeko Okubo e Yoroshi kikutti, sentados na praça no Bairro Palmital, futuro Mirante do Paranapanema, movimentado os fundos de nosso município, com real proveito para o nosso futuro. Surgindo do nada, de uma hora para outra, o Palmital, como é conhecido no município, cresceu espantosamente e hoje já está merecendo título de cidade, pois seu progresso é ininterrupto e não muito tarde será mesmo um verdadeiro mirante do Município para o Paranapanema. O jornal ainda no dia 13/11/1949 com a manchete: “Instalada a Agência Posta de Mirante do Paranapanema, ex-Palmitalzinho” “... Mirante do Paranapanema, localidade que vem progredindo assustadoramente em nosso município. No dia 05/05/1950, o Jornal “OESTE PAULISTA” também registra “SEMPRE AVANTE, MIRANTE DO PARANAPANEMA”. “Mais uma pequena cidade que surge nos sertões da Sorocabana, trata-se de Mirante do Paranapanema (antigo Palmital). Uma pequena, mas feliz cidade que nasceu no seio de uma zona protegida por cursos naturais. Conta com um povo ordeiro, honesto e trabalhador. Encorajados, enfrentaram a mata bruta para pôr em frente seus ideais, a felicidade do lar. Gente de estímulo incansável que de sol a sol, mergulhados nos mais profundos rincões, procuram levar de vencido seu objetivo, prosperar! Progredir! Crescer! E o fazem com facilidade graças aos ininterruptos trabalhos forçados e espírito lutador e enérgico temperamento de força de vontade. ... Mirante evidentemente está orgulhoso em possuir uma população onde a inércia lhe é desconhecida, onde o retrocesso não conheceu. Essa mesma pequena cidade está dando maior vida para nosso município, pois uma zona produtiva como é, nos favorece com abundância colheitas de cereais dos mais variados”.  (Minhas Reflexões: 1) Em 1949, quatro anos antes da emancipação político administrativa do Povoado, o local já era reconhecido como: “Mirante do Paranapanema”. Este registro do jornal contradiz o que algumas pessoas afirmam que o nome: “Mirante do Paranapanema” surgiu por ocasião do processo de emancipação. 2) Como não considerar como história toda esta brilhante construção de nosso povo mirantense  antes da emancipação política administrava. Observem quantos adjetivos foram conferidos pelo jornal ao povo de Mirante enaltecendo o seu trabalho.

Existem outras pessoas que cobram mais fotografias em meus trabalhos, e olha que no CD-ROM são aproximadamente 1.500. Fotografia, ou quaisquer outros tipos de imagens para mim são recortes e registros de uma realidade num determinado momento e local. Uma coisa é fazer história outra é fazer álbum de fotografias. As fotografias são memórias importantíssimas para o historiador, assim como também são os registros mentais de pessoas (agentes) que participaram dos fatos e acontecimentos. Entendo sim que é necessário que o historiador interprete e confira sentido aos elementos que estão contidos nos registros.  O maior drama vivido por mim durante os dez anos de pesquisa para a produção do CD, foi o momento em que precisei fazer os recortes necessários em minhas descobertas e conclusões. Aquilo que em meu entendimento poderia “virar” história. Muitos registros se configuravam em acontecimentos isolados, pontuais e partidários políticos que, em minha leitura, não acrescentaria em nada ao meu trabalho, afinal eu estava pesquisando história por meio de conferir o maior grau de cientificidade possível aos fatos diagnosticados.