Pioneirismo Europeu

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LABIENO DA COSTA MACHADO DE SOUZA: FIGURA EXPOENTE

NA HISTÓRIA DE MIRANTE DO PARANAPANEMA

Agente notável na composição histórica do Distrito de Costa Machado e dos municípios de Mirante do Paranapanema e de Garça, estado de São Paulo, Dr. Labieno da Costa Machado, nasceu em 27 de setembro de 1880, em Vila Costina, no município de São José do Rio Pardo e faleceu no início dos anos 60, na capital paulista.

Aos 6 anos de idade, seus pais mandaram-no para o Real Colégio Britânico, na Inglaterra, onde estudou durante quatro anos. Retornando ao Brasil, aqui permaneceu por pouco tempo, porque, ainda adolescente, foi novamente encaminhado à Europa para continuar seus estudos e adquirir uma das mais elevadas formações acadêmicas da época. Lá permanecendo por onze anos, estudou em Colégios da Suíça, França e Alemanha, berços da civilização ocidental.

Tão logo terminou seus estudos, ainda na Europa, fundou em Milão, na Itália, a Costina Coffee Company.

Nos primeiros anos deste século, regressou ao Brasil já falando fluentemente a língua alemã e diplomado em Direito exerceu a profissão por algum tempo.

Conforme confidenciava a amigos íntimos e familiares, desbravar o sertão brasileiro era um de seus maiores sonhos, e como podemos constatar pela sua brilhante história, esse desejo foi em grande parte concretizado.

Nas horas vagas dedicava-se às letras. Algumas de suas obras literárias foram: "Portos Francos", "A Liga Agrária Brasileira", "Sistema Bancário do Brasil" e "Confederação Sul Americana", esta com repercussão internacional. O "Manifesto do Partido Nacional", em 1910, deu-lhe uma projeção nacional e internacional, conquistando as simpatias de Rui Barbosa e do presidente dos Estados Unidos, Hoover.

Seu pai, José da Costa Machado, foi figura parlamentar de destaque no Segundo Império, tendo ocupado por várias legislaturas a Câmara Baixa, chegando a Senador e a presidente da Província de Minas Gerais.

Foi casado com dona Mimi e teve os seguintes filhos: Clovis da Costa Machado, Izabel Costa Neves, Otávio da Costa Machado, Hilmar Machado de Oliveria, Otávio da Costa Machado e Francisco Eumene Machado.

Seu filho, Dr. Hilmar Machado de Oliveira, foi eleito prefeito de Garça por duas vezes, em 1936 e 1946.

Fato curioso é que o Dr. Labieno, até mesmo em suas ações judiciais, não usava o sobrenome: " de Souza".

 

UMA COLONIZAÇÃO MUITO DIFERENTE

O Dr. Labieno viveu uma vida simples, apesar de sua elevada formação intelectual e possuidor de muitos bens. Segundo informações, entretanto, não deixou ao final da vida, para os seus filhos, uma herança compatível com seus empreendimentos.

Como era uma pessoa de nobres competências, transitava com muita facilidade por todas as camadas sociais, organismos institucionalizados e em todas as instâncias da Federação brasileira. Em se tratando, então, da área forense, ele era pertinaz. Possuía e exercia, como ninguém, certas habilidades que transcendia o segmento habitual e com isso facilitava a realização de seus ideais. Muitas pessoas que conviveram com ele, nos espaços das colônias, tem ainda boas lembranças de suas ações e são unânimes em afirmar que se tratava de uma pessoa que tinha seus negócios muito bem organizados, principalmente para representação perante a justiça.

O Dr. Labieno era uma pessoa que "pensava grande", buscava e lutava por ambiciosos projetos, tais como o de realizar, em suas terras aqui na Fazenda Valle do Paranapanema, uma colonização prioritariamente com imigrantes europeus, onde todas as famílias de um mesmo povo pudessem estabelecer residências próximas uma das outras, formando assim colônias específicas. Essa iniciativa proporcionou a origem, em Mirante do Paranapanema de Bairros tais como: Colônia Branca, Bessarábia, Santo Antônio, etc. Buscando atingir esse objetivo, o Dr. Labieno fez divulgar, no início da década de 20, por grande parte da Europa, as qualidades de suas prósperas terras. Nesse comunicado em panfletos, ele propunha certas vantagens para as pessoas que desejassem colonizar suas terras ainda inexploráveis. Isso fez com que de imediato despertasse um grande interesse em muitas famílias que já almejavam abandonar uma Europa em crise, onde o trabalho era muito difícil e os impostos pesados demais. As pessoas viam nesse negócio a única saída para começar uma nova vida em lugar distante das perturbações vividas, pois praticamente todo continente passava por tremendas mudanças sociais e políticas devido às novas lutas pelo poder em conseqüência ainda da Primeira Grande Guerra Mundial, que havia terminado recentemente. A fome e o medo assolavam as populações de todas classes sociais e em todos os países e, quem pudesse emigrava a qualquer custo. A maior parte das famílias que aqui chegou trabalhava na agricultura e todas traziam em suas bagagens angústias e traumas emocionais. A adaptação ao clima e a nova alimentação, foram os grandes problemas à esses imigrantes. Muitos dos chefes de famílias, que adquiriram terras do Dr. Labieno, nas décadas de 20 e 30, eram ex-combatentes de guerra.

Todas essas circunstâncias explicam o contingente de imigrantes vindo para o Brasil neste período e em especial para essa região, uma das últimas áreas do estado de São Paulo a serem colonizadas.

A FUNDAÇÃO DE COSTA MACHADO

Dr. Labieno, além do Distrito de Costa Machado, foi também um dos fundadores da cidade de Garça, estado de São Paulo. O nome de Garça, foi uma imposição sua. Isso mostra que, apesar de simples, era também uma pessoa de personalidade muito forte e como, todos os homens públicos ou figuras de vulto, era também dialeticamente contraditório.

 

A "FAZENDA VALLE DO PARANAPANEMA"

Em Costa Machado, o Dr. Labieno executou, a partir de 1921, um plano de uma empresa colonizadora chamada: "FAZENDA VALLE DO PARANAPANEMA". O nome "Paranapanema", pode ter se originado do antigo patrimônio Campos Novos do Paranapanema em Garça. Lá também, na década de 20, se formou um Patrimônio com o nome Labienópolis, em terras que pertenciam ao Dr. Labieno.

Na mesma época em que o Dr. Labieno desbravava as matas virgens da região de Costa Machado, no início da década de 20, ação semelhante ele realizava na região de Garça. Segundo pesquisadores daquela localidade o Dr. Labieno era mais querido e admirado pelos colonos daqui da Fazenda Valle do Paranapanema do que pelos daquela localidade.

 

ORIGEM DE SUAS TERRAS

Tanto as terras da Fazenda Valle do Paranapanema como as de Garça, que o Dr. Labieno alegava ser possuidor legal, foram objeto de pendências judiciárias, que transitou até pelo Supremo Tribunal Federal, e nas quais ele obteve ganho de causa, em 1947 e 1959, respectivamente.

Quanto as terras que formava a FAZENDA VALLE DO PARANAPANEMA, o Dr. Labieno teve como ganho de causa judicial quando comprovou que elas tiveram como origem a escritura particular de 04 de outubro de 1868, transcrita em 1880, a João da Silva Oliveira, juntamente com outras. Os herdeiros de João da Silva Oliveira, durante e mediante alvará, venderam aos pais do Dr. Labieno, por escritura pública de 17 de julho de 1887, também transcrita, no mesmo mês e ano. Finalmente, por escritura pública de 15 de maio de 1918, o Dr. Labieno da Costa Machado, por doação e adiantamento legítimo recebeu de seus pais. O valor dessas terras pago, no século passado, pelo pais do Dr. Labieno, segundo relatos em ações judiciais, foi menos de 200$000 (duzentos mil réis), o que na prática, por ser um valor tão irrisório, nem precisaria comprovação de titulagem, pois não atingia o valor acima citado.

A área legalizada na justiça pelo Dr. Labieno em 1947, se acha localizada hoje, em grande parte no município de Mirante do Paranapanema. Essa área era de aproximadamente 36 000 alqueires paulista, mas o máximo que ele chegou a controlar, através de onze "picadões" (trilhas) e diversas estradas que se ligavam entre si, foi de apenas cerca de 12 000.

Como o objetivo do Dr. Labieno, em relação às suas terras aqui do Pontal, era a venda e a formação de colônias específicas através de pequenas propriedades, não se tem qualquer notícia de que ele, tenha empreendido qualquer derrubada na mata virgem ou realizado qualquer tipo de plantação ou mesmo criação de gado. O que se tem notícia é que nas proximidades de Costa Machado, ele tinha algumas dezenas de cabeças de gado bovino em vegetação de serrado.

Se na justiça o Dr. Labieno provou a origem de suas terras, mesmo depois de mais de vinte anos de acirrada batalha, na prática foi mais difícil conservá-la. No início da década de 30 e até meados desta, as terras aqui da fazenda chegaram a ficar meio abandonadas, o que fez aumentar ainda mais a invasão de outros grileiros.

Segundo depoimentos de várias pessoas que viveram o período da colonização do Dr. Labieno, a área aqui era muito violenta, pois para manter o domínio de sua vasta fazenda, ele tinha que se valer de pessoas, para fazer o patrulhamento constante de suas terras. A incumbência dessas pessoas era expulsar, a qualquer custo os inimigos invasores interessados no mesmo pedaço de chão.

Em 1935 Takeo Okubo, assume a Administração da fazenda do Dr. Labieno e seu irmão, Iraku ocupa o cargo de Corretor Geral. Em 1946, assume a gerência dos negócios o Dr. Francisco Eumene Machado.

Uma característica marcante quanto a maior parte das propriedades vendidas pelo Dr. Labieno, foi com relação a área: 10 alqueires cada uma. A intenção dele, pelo que se percebe, era realmente acomodar o maior número possível de pequenos proprietários em uma colônia específica. Isso fica claro quando analisamos o mapa da fazenda. O europeu também não era muito dado a grandes extensões de terras, mas apenas ao suficiente para sobreviver. Uma de suas práticas era a produção doméstica, tanto de alimentos como também de utensílios domésticos e peças de uso pessoal. Isso veio introduzir um novo padrão cultural, não somente aqui em nossa região, mas principalmente no sul do Brasil.

Muitos antigos compradores das terras do Dr. Labieno, ou seus filhos ainda vivos, fazem questão de afirmarem que ele, em nenhum momento, criou qualquer tipo de problema quanto ao pagamento das terras vendidas aos colonos e muito menos reclamava em justiça a falta do mesmo. Todos pagavam como podiam . O prazo para pagamento podia ser longo, passando dos cinco anos, até porque se assim não fosse, era quase impossível vender terras nessas localidades, pois o dinheiro, já escasso também naquela época, só era conseguido após a derrubada da mata e das primeiras colheitas anuais. Se bem que até meados da década de 30, o que se viu por aqui foi uma economia de subsistência. Faltava gente para trabalhar e os produtos agrícolas tinham um valor muito baixo na hora da venda, além do grande problema do transporte, pois estradas praticamente não existiam e foi sempre um grande empecilho ao desenvolvimento agrícola na época.

O Dr. Labieno aceitava de tudo como pagamento da terra, desde dinheiro, trabalhos braçais em abertura de trilhas e estradas até mesmo produções domésticas como queijo e manteiga.

A verdade é que, como afirmam esses antigos moradores, muitos compradores acabaram se aproveitando "dessas facilidades" e até hoje ainda não completaram o pagamento devido ao Dr. Labieno pela compra de terra, apesar dos baixíssimos valores combinados. Só para dar um exemplo, em 1930, nas proximidades do Bairro Colônia Branca, com o valor da venda de uma mula, animal de trabalho na época, dava para comprar mais de um alqueire de terra. Uma das duas: ou uma mula custava muito caro ou era a terra que tinha um preço irrisório. Eu prefiro acreditar na segunda hipótese.

Quanto ao valor das terras transcrevo: "Quem nasce para tatu morre cavando, enquanto plantávamos café, fazendas e mais fazendas, o Dr. Labieno, loteava suas terras centenas e mais centenas de alqueires ao preço de dois centavos de réis em prestações anuais". (Relato de um pioneiro de Garça – CORREIO DE GARÇA, 05 de maio de 1979, pág. 36).

 

A RELAÇÃO SOCIEDADE - NATUREZA EM MIRANTE DO PARANAPANEMA DE 1921 A 1940

A ação dos colonos sobre a natureza em Mirante do Paranapanema, no período entre 1921 a 1940, criou o espaço geográfico que ao longo dos anos veio sofrendo constantes transformações até se configurar como ele é hoje. A natureza foi sempre a fonte dos elementos e recursos necessários a sobrevivência do homem de alimentação, vestuário, abrigo, etc. e acumulação de riqueza e miséria. Foi na relação com a natureza e nas relações sociais de trabalho que resultou, nessa área, a riqueza para poucos e a miséria para muitos.

Os colonos buscavam construir suas casas de coqueiro de "pau-a-pique" e cobrir de sapé. O coqueiro e o sapé eram elementos da natureza em abundância nessa região. Eles procuravam morar nas proximidades dos córregos em função da necessidade da água para o abastecimento doméstico, preparar alimentos, beber, tomar banho e lavar roupas. Poços só foram cavados alguns anos depois da chegada das primeiras famílias.

A mata e os animais eram vistos como empecilhos à habitação do homem e a prática da agricultura. A cada árvore derrubada, labaredas de fogo subindo, animal capturado ou morto, eram motivos de gritaria e de regozijo para os desbravadores. Todos acreditavam que o perigo morava na floresta e que bicho do mato tinha que morrer mesmo.

Os colonos mantinham contatos diretos com a natureza e dela dependiam para preparar a terra, lançar a semente e obter colheitas de alimentos. A produção era pouca mas o suficiente para manter todos os membros da família em condições de sobrevivência.

"Na exploração direta, podemos ter o sistema familiar, quando a terra é explorada pelo próprio dono, com a ajuda de sua família... O objetivo do lucro fica em segundo plano, porque a subsistência da família é mais importante". ("Espaço em Construção" - p. 79 – Ed. LÊ).

Nesse período a madeira não era aproveitada para a venda, pois além da falta de estradas para o transporte e venda, o preço não compensava, pois a oferta era grande e algumas serrarias da região, eram chamadas e tiravam as madeiras das propriedades dos colonos apenas para facilitar a limpeza. As toras, de "madeira de lei", que demoravam para queimar, eram enterradas para não perder muito tempo na preparação do solo e produção de gêneros alimentícios.

O plantio realizado no solo rico em matéria orgânica decomposta resultava, nos primeiros anos, em elevada produtividade. Como os elementos naturais eram abundantes, eles foram tratados como se fossem inesgotáveis. A destruição da vegetação e o desgaste do solo foram-se tornando cada vez maiores e a ação do homem, na busca de sua sobrevivência e na produção de riqueza, alterou profundamente o equilíbrio da natureza.

 

RELAÇÕES COM COBRAS E URUBUS

Os lituanos, imigrantes que chegaram diretamente da Europa no final da década de 20, sem muito conhecimento da flora e da fauna tropical, chegaram até cozinhar urubu para comer, quando depois de mais de um dia a carne não cozinhava, perceberam que não se tratava de animal comestível. Inicialmente coletavam mel silvestre para o seu próprio consumo. Como a apicultura era uma atividade conhecida por eles, acabaram desenvolvendo essa prática no Bairro Lituânia. A produção excedente do mel era vendida. Coletavam também erva-mate apenas para o consumo. Do cerrado, onde habitaram, retiravam diversos tipos de cobras, que em caixotes eram enviadas para o Instituto Butantã de São Paulo e em troca recebiam o soro antiofídico e outros remédios.

Os alemães do Bairro Colônia Branca, no inicio da década de 30, criavam porcos, alimentados com milho. Os animais, quando no ponto do abate, eram transportados vivos em carroças até a cidade de Santo Anastácio através de carroças com várias parelhas de burros, onde eram abatidos e sua carne comercializada. Os animais eram levados vivos e abatidos naquela cidade, pois a viagem durava mais de dez horas e a carne poderia chegar lá já sem condições ideais para o consumo.

Em virtude do aumento da oferta desse produto, em poucos anos a criação de porcos se tornou uma atividade inviável, pois o preço não compensava e a criação passou a ser apenas para o consumo.

Com poucas opções para acumular algum capital, os colonos, passaram a criar o bicho-da-seda. Essa atividade se desenvolveu aproximadamente de 1935 a 1945. A amoreira, de onde provinha a alimentação do bicho-da-seda, se desenvolvia de forma exuberante, dada a fertilidade do solo e as condições climáticas favoráveis. Os casulos eram transportados em balaios em lombos de burro até a cidade de Santo Anastácio, de onde eram enviados de trem até a cidade de São Paulo para a indústria têxtil produzir tecidos.

Essa atividade foi a que trouxe uma certa acumulação de capital, e possibilitou, para alguns colonos, a ampliação de suas propriedades.

 

RELAÇÕES ENTRE GRILOS, GAFANHOTOS E INVASORES DE TERRA

Na relação sociedade-natureza, no início da colonização de Mirante do Paranapanema, pudemos constatar outros fatos interessantes:

No mesmo período em que os primeiros colonos praticavam uma economia de subsistência, a posse da terra era objeto de intensa disputa judicial e até à bala através de jagunços. As áreas que estavam fora dos núcleos coloniais, eram extremamente violentas e os assassinatos eram constantes. Vários grileiros lutavam, por um mesmo pedaço de terra, não para transformá-la em elemento de sobrevivência, mas sim em recurso natural de especulação e fonte de riqueza.

O colono João Meredija, conta em seus relatos, que quando ainda jovem, caminhava de noite por uma estrada que ligava sua colônia no Bairro Sete e Meio, com a cidade de Santo Anastácio, subitamente foi "abraçado", por um enorme tamanduá. Se não fosse a ação imediata de seu irmão que o acompanhava, dificilmente ele teria escapado vivo.

3. Em outubro de 1946, nossa terra, Mirante do Paranapanema, foi invadida por uma praga de gafanhotos que estava em processo migratório, vindo da Argentina, entrou no Estado de São Paulo através do Paraná. Em poucos dias, nada restou do que estava plantado. Lavouras de milho, mandioca e hortelã foram totalmente consumidas de um dia para o outro e os agricultores tiveram um grande prejuízo. A luta para acabar com os insetos levou meses e necessitou até da ajuda do governo do Estado.

Até hoje se pergunta: quem provocou e ainda provoca maior estrago em nossa região, os grilos ou os gafanhotos? Muitas pessoas confundem os grilos e os gafanhotos, no entanto estes pertencem a famílias diferentes. Os gafanhotos foi uma praga passageira, fizeram grandes estragos apenas nos elementos materiais, que logo puderam ser restaurados, já com relação aos grilos eles continuam vivos e provocando estragos até hoje, não só no território das plantações de alimentos, mas principalmente no território interno dos seres humanos onde verdadeiramente se prova os sabores da miséria e da injustiça social.

"Não faltava o que comer, mas até 1940, quase não correu dinheiro por aqui. A terra acabava sendo cara, pois a gente não tinha quase dinheiro para comprá-la". (Erich Klann – 1922 – 2000).

"No Bairro Santo Antônio as famílias trocavam cereais entre si e as colheitas eram feitas em forma de mutirão. Como a produção de alimentos era muito boa, o consumo pequeno e a comercialização quase não compensava, muitos produtores acabavam transformando feijão e arroz em adubos para outros produtos agrícolas, como o café". (José Nezo – 1928 -).

"A gente só comprava na cidade sal, açúcar, fósforo, querosene, farinha de trigo, alguns calçados e tecido. Até soda para fazer sabão de banha de porco a gente conseguia de cinzas de madeira" (Nair Pereira Gomes – 1932 -).

 

PEQUENOS AGRICULTORES, SEM DINHEIRO, PRATICAM ECONOMIA DE SUBSISTÊNCIA

Baseado nos relatos dos agricultores acima e de outros que também viveram o período de 192l a 1945, em diferentes Bairros, pudemos concluir que durante todos esses anos se praticou uma economia de subsistência no espaço em que posteriormente veio a se constituir no município de Mirante do Paranapanema.

 

A relação Cidade – Campo em Mirante do Paranapanema nas décadas de 1920 e 30

As pequenas culturas de subsistência, que caracterizou a construção do espaço geográfico nas colônias agrícolas em Mirante do Paranapanema, nas décadas de 1920 e 30, desenvolveram relações sociais de produção num estágio não-capitalista. Elas buscavam prioritariamente a satisfação das necessidades básicas dos colonos e não o acúmulo de riqueza através da produção excedente ou da especulação de terras adquiridas. O que contribuiu de forma determinante para a prática dessa cultura, nesse município, foi o fator geográfico localização. A maioria dos agricultores, que chegava a Alta Sorocabana, consideravam melhor negócio comprar terras, plantar e morar nas proximidades da Estrada de Ferro Sorocabana e dos núcleos urbanos que se formavam na extensão da estrada. Aquela ferrovia era o único meio de transporte moderno de pessoas e de mercadorias, que ligava a região com a cidade de São Paulo. As terras ali localizadas, devido a sua grande procura, eram muito caras, em comparação com as localizadas em Mirante do Paranapanema, distantes e de difícil acesso.

A relação cidade-campo era simples, visto que só se comprava na cidade o que consistia no estritamente necessário a sobrevivência no campo, e por sua vez também, a cidade pouco necessitava do campo, a não ser para o fornecimento de alguns gêneros agrícolas, para o seu consumo, e de madeira para as serrarias transformarem em tábuas. A cidade fornecia ao campo produtos como o sal, o açúcar, o querosene, calçados, tecidos, remédios, ferramentas agrícolas simples, utensílios domésticos e serviços como assistência médica, religiosa e burocrática. Colonos de origem alemã e russa (romenos, húngaros), produziam domesticamente queijo, requeijão, manteiga e ovos de galinha que vendiam ou trocavam nas cidades por produtos que necessitavam. Os moradores do campo, com pouco dinheiro, só podiam comprar na cidade aquilo que realmente não conseguiam produzir no campo. O pão, a roupa, o sabão, a soda cáustica e até o óleo da mamona que era usado nas lamparinas quando faltava o querosene. É bom lembrar que ainda na década de 1930 o Brasil importava praticamente todos produtos industrializados que necessitava. É fácil imaginar que as dificuldades no abastecimento era imensas, principalmente após a crise do café. Com o início da Segunda Guerra então a situação piora ainda mais.

Naquele período o campo e cidade não necessitavam de se complementarem e tão pouco existia uma interdependência entre ambos. Destacamos que a maior parte da população residia no campo e a vida urbana não atraia tanto como hoje. Morar na cidade era questão de opção de vida e não falta de condições de sobrevivência no campo, pois não havia uma supremacia da cidade sobre o campo. A vida no campo, ou seja, na zona rural era muito simples e calma, com muita fartura de alimentos, mas sem nenhum conforto como hoje, com energia elétrica, televisão, água encanada, casas de tijolos e na maioria delas algum tipo de automóvel. Naquela época os trabalhadores acordavam cedo e saiam para cuidar das plantações e dormiam assim que a noite chegava. A vida, apesar da carência de alguma coisa, era saudável, com ar puro e muita sombra das árvores da floresta e muitas festas entre as famílias dos bairros. Além da agricultura, os agricultores criavam animais como galinha, porcos, vacas e sempre abatendo animais para o consumo. A forma de armazenamento, principalmente da carne, era feita de maneira rudimentar, num processo que consistia na fritura da carne (principalmente suína) na própria gordura, onde a mesma podia permanecer por meses sem deteriorar, ou seja, estragar. Havia ainda uma espécie de sistema comunitário e por ocasião do abate dos animais, a carne era dividida entre os "vizinhos", que por sua vez quando também abatiam animais, retribuíam no mesmo processo, garantindo assim carne praticamente "fresca" durante todo ano e para todas as famílias.

Ninguém passava necessidade de alimento no campo, pois ele produzia muito mais do que seus habitantes necessitavam. Até os caixões, para enterrarem os mortos, eram construídos pelos próprios colonos. Agricultura era agricultura, cidade era cidade, campo era campo e indústria era indústria.. A construção do espaço rural e do espaço urbano se deu de forma diferenciada. Nas décadas de 1960 e 70, ocorreu o êxodo rural em função da expulsão do homem do campo, quando ele foi expropriado de suas terras. A cultura agrícola praticada em Mirante do Paranapanema, até o final da década de 1930, só pode ser entendida se contextualizada com a realidade vivida pelo Brasil e o mundo naquele momento. Tivemos a Crise de 1929, a Revolução de 30, a Revolução Constitucionalista de 32, a Conspiração Comunista de 35, o Golpe e o Estado Novo em 37 e a Segunda Guerra Mundial de 1939 a 45.

O extrativismo vegetal e animal foi outra atividade econômica que os colonos buscavam para suplementar a produção de gêneros alimentícios. Havia abundância de animais silvestres adequados para o consumo do homem, como cateto (porco-do-mato), paca, tatu, capivara, etc. Como afirmavam alguns colonos, era impossível comer todos os animais que podiam ser caçados. Muitas famílias sobreviveram, por mais de anos, alimentando apenas de palmito e animais da floresta. Esse foi o caso da família da Dona Nair Pereira Gomes, quando ainda adolescente, veio morar com seus pais no Bairro Barra Funda em 1944.

Sem mão-de-obra disponível fora da família, (peão, por exemplo), descapitalizados e sem acesso a empréstimos bancários, os pequenos agricultores não tinham como ampliar suas lavouras. Como consequencia, prolongou por mais de uma década a prática da cultura de subsistência e, num círculo vicioso, isso contribuiu para um maior isolamento da economia de mercado e do sistema capitalista de produção já inseridos na Alta Sorocabana.

Pudemos constatar que simultaneamente a essa cultura de subsistência, operavam "fora da lei", em Mirante do Paranapanema, muitos grileiros, que através de jagunços, procuravam manter a posse de terras por meio do terror e da "bala". Não foram poucos os assassinatos, pois assim afirmavam os próprios jagunços: "onde o corpo caia, ali mesmo os bichos comiam". Esses grileiros viam a terra apenas como fonte de riqueza através da especulação e não como recurso para sobreviver como acontecia com os colonos.

Assim foi o campo, que tempos depois veio constituir-se no Município de Mirante do Paranapanema nas décadas de 1920 e 30, de um lado muito conforto, paz, harmonia, festas e alegria e do outro ganância, tristeza e morte.

"Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males ..." ( I Tm.6:10)

 

A PRODUÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO DE MIRANTE DO PARANAPANEMA DE 1921 A 1945

"Naqueles tempos nada tinha valor. A gente plantava de tudo, a terra produzia muito, mas os produtos perdiam-se na roça, pois não tinha comércio. Começamos a vender alguma coisa depois de muito tempo que aqui já morávamos. A gente cozinhava em panelas de ferro pendurado pelas alças em cavaletes fincados no chão. Para trabalhar na roça só tinha foice, machado e enxada. Até aos 10 anos de idade, a maior parte dos meninos andavam sem roupa, pois não sobrava dinheiro para comprar vestuário. A gente plantava mandioca, legumes, verduras, feijão, arroz, milho e café, só para o sustento da família. Engordávamos porcos para o consumo e para vender isso quando achávamos compradores e os preços, compensavam". (João Meredija - 1919 – 1998).

Os primeiros colonos que aqui chegavam, praticavam um sistema agrícola ainda primitivo, que podemos classificar de agricultura de subsistência, pois cultivavam buscando satisfazer prioritariamente as necessidades de seus familiares. O processo consistia na derrubada da mata, queima da vegetação rasteira e das árvores cortadas a machado, plantio e colheita de alguns gêneros básicos para o seu próprio sustento.

Vários fatores conduziam à prática dessa economia, tais como: a descapitalização desses pequenos colonos, dificuldades de acesso aos distantes centros consumidores urbanos para a venda do excedente colhido e a grande produtividade em toda a região, que só fazia aumentar a oferta e reduzir os preços dos gêneros agrícolas.

 Os colonos plantavam mandioca, arroz, feijão, milho, café, legumes e verduras. Também criavam várias espécies de animais como porcos, galinhas e vacas para a produção do leite. Utilizavam-se a banha do porco para preparar alimentos e o que não se aproveitava do animal para comer, produzia-se sabão. Com os tecidos comprados, as costureiras da própria família confeccionavam as roupas para todas as pessoas da casa, e os retalhos que sobravam eram emendados ou trançados, transformando-se em colchas e tapetes. Da massa da farinha de trigo, preparada em pequenos cilindros fixados em mesas de madeira, eram feitos pães, que por sua vez, eram assados em enormes fornos de tijolos revestidos com barro construídos no terreiro da casa. Nesses fornos e nos fogões da cozinha, utilizados para o preparo dos outros alimentos, também construídos de tijolos, usava-se a madeira do mato para o aquecimento. As roupas, eram lavadas nos córregos ou em casa, com água puxada dos poços perfurados nas proximidades das casas e retirada através de sarilho de madeira em baldes amarrados com cordas. Para que as roupas ficassem totalmente limpas elas eram arremessadas com toda força nos "batedores", que nada mais eram do que grandes tábuas obliquamente fixadas sobre cavaletes ou pedaços de toras.

A mobília das residências eram simples e quase todas fabricados pelos próprios colonos. No início da colonização os noivos, parentes e convidados caminhavam até Santo Anastácio para a realização da cerimônia civil. Já no final da década de 30, pelo menos a noiva já se deslocava montada em burros ou mulas. Os partos dos bebês eram realizados nas próprias casas das mães com o auxílio das famosas "parteiras".

No Bairro Santo Antônio tinha até alambique para a produção de aguardente, mas apenas para o consumo local. Nos finais das colheitas, costumava-se matar porcos e realizar uma grande confraternização entre todas as famílias.

 

PERÍODOS DIFÍCEIS

Durante a 2ª Guerra Mundial, (1939-1945) o Brasil passou por uma grande crise de abastecimento interno e mercadorias como o sal, a farinha de trigo e o querosene, estavam racionados e difíceis de encontrar no mercado. Durante esses anos, o querosene, usado para iluminação da casa, fora substituído pelo óleo da mamona produzido pelos próprios colonos. Alimento tinha em abundância, mas os primeiros colonos viveram momentos de extrema dificuldade em nosso município, quanto alguém ficava doente, se suportasse, era conduzido em lombo de animais até o hospital em Santo Anastácio, caso contrário, a morte era certa.

 

POPULAÇÃO RURAL E URBANA

Registrou-se na década de 30 uma grande expansão da área agrícola comercial em demais regiões do oeste paulista, onde grandes agricultores dedicavam-se a prática das monoculturas cafeeira e algodoeira, sem contudo abandonarem o cultivo de gêneros alimentícios.

Nesse período a maior parte da população se concentrava na zona rural e os pequenos centros urbanos, que se formavam, eram insuficientes para absorver todo o excedente da produção do campo.

"Ao Senhor pertence a terra, e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam" (Sl.24.1)

 

A RELAÇÃO SOCIEDADE – NATUREZA

Os primeiros colonos de Mirante do Paranapanema buscavam construir suas casas nas proximidades dos córregos, pois a água é uma necessidade primária para a sobrevivência do ser humano. Poços só foram perfurados alguns anos depois da chegada. A água dos córregos servia para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupas.

A mata e os animais eram vistos como empecilhos à moradia e prática agrícola. A cada árvore derrubada, labaredas de fogo subindo às alturas, um animal capturado ou morto, era motivo de gritaria e regozijo. Acreditavam que o perigo morava na floresta e que bicho do mato tinha que morrer. Animais silvestres e aquáticos como cateto, tatu, cutia, anta, peixes e até lagartos, serviam como alimento suplementar aos alimentos agrícolas produzidos.

As casas, construídas em meio à mata densa, eram de pau roliço ou de coqueiro rachado ao meio, coberta de sapé e posteriormente com tábuas de cedro.

Os colonos, principalmente nos primeiros anos de ocupação, eram extremamente dependentes do que a natureza poderia oferecer. No trabalho utilizavam apenas a força muscular humana, pois nem mesmo animais de tração poderiam adquirir, tendo em vista a falta de dinheiro. A produção era pouca mas o suficiente para a sobrevivência de todos da família em condições mínimas de consumo.

Nesse período a madeira não era ainda aproveitada para a venda, pois além da falta de estradas para o transporte, o preço não compensava para os colonos. A oferta era grande e algumas serrarias da região, tiravam as madeiras das propriedades dos colonos sem nada pagarem, apenas para facilitar a limpeza dos terrenos. As toras, normalmente as chamadas de "madeira de lei", que demoravam para queimar, eram enterradas para não perder muito tempo na preparação do solo e na semeadura de gêneros alimentícios.

O plantio, realizado sobre cinzas da intensa madeira queimada indiscriminadamente e da matéria orgânica decomposta e abundante no solo, resultava em elevada produtividade de gêneros alimentícios. Mas com a falta de conservação e os sucessivos plantios das mesmas espécies vegetais num mesmo espaço, o solo em poucos anos de uso se mostrava pobre e inicia-se nesse período a degradação mais acentuada em nossa região, que e a erosão.

Nesse período pudemos constatar que o homem se achava muito dependente da natureza, pois a sua capacidade de intervenção sobre a mesma era limitada pelas suas próprias necessidades e disponibilidade de instrumentos de trabalho. O trabalho se realizava de maneira muito simples: foice, machado e enxada. Todas as etapas, desde o preparo do solo até a colheita dos gêneros agrícolas, eram manualmente executados. Deve-se destacar que essa prática agrícola se realizava em pequenas clareiras no meio da mata e que muitas vezes animais silvestres, como queixada e catetos, destruíam completamente as plantações, principalmente de milho e arroz.

Através do trabalho, os colonos transformavam a natureza, (vegetação, solo, gêneros agrícolas, etc.) em bens necessários a sobrevivência, sem contudo devastar grandes áreas da floresta.

 

 GRILOS, GAFANHOTOS E INVASÕES DE TERRA

No mesmo período em que os primeiros colonos praticavam uma economia de subsistência, a posse da terra era objeto de intensa disputa judicial e até na bala através de jagunços. As áreas, fora das formações dos núcleos coloniais, eram extremamente violentas e os assassinatos eram constantes. Vários grileiros lutavam, por um mesmo pedaço de terra, não para transformá-la fonte de sobrevivência, mas como objeto especulativo e da busca pelo lucro fácil.

Na relação sociedade-natureza, no início da colonização de Mirante do Paranapanema, pudemos constatar outros fatos interessantes:

O colono João Meredija, conta em seus relatos, que quando ainda jovem, caminhava de noite por uma estrada que ligava sua colônia no Bairro Tupi, com a cidade de Santo Anastácio, quando foi "abraçado", por um enorme tamanduá. Se não fosse a ação rápida de seu irmão, que o acompanhava, dificilmente ele teria escapado vivo.

Em outubro de 1946, nossa terra, Mirante do Paranapanema, foi invadida por uma praga de gafanhotos que estava em processo migratório, vindo da Argentina, entrou do estado de São Paulo através do Paraná. Em poucos dias, nada restou do que estava plantado. Lavouras de milho, mandioca, hortelã foram totalmente consumidas de um dia para o outro e os agricultores tiveram um grande prejuízo. A luta para acabar com os insetos levou meses e envolveu até organismos do governo estadual.

Até hoje se pergunta: quem provocou e ainda provoca maior estrago em nossa região, os grilos ou os gafanhotos? Muitas pessoas confundem os grilos e os gafanhotos, no entanto estes pertencem a famílias diferentes. Os gafanhotos foi uma praga passageira, fizeram grandes estragos apenas nos elementos materiais, que logo puderam ser restaurados, já com relação aos grilos eles continuam vivos e provocando estragos até hoje, não só nos elementos visíveis da natureza, como plantações de alimentos, mas principalmente no espaço interno dos seres humanos em qual território se prova os sabores da miséria e da injustiça social.

   

AS TRANSFORMAÇÕES DO ESPAÇO GEOGRÁFICO

Decompondo o arranjo dos primeiros espaços geográficos do município de Mirante do Paranapanema em seu período de colonização, fato advindo através de diferentes fluxos migratórios e lutas pela posse de terras, pudemos identificar e distinguir quatro grandes áreas, locais ou bairros, que ficaram assim conhecidos: "Domínio (área) dos Imigrantes Europeus"; "Domínio (região) dos Fazendeiros"; "Domínio dos migrantes nordestinos" e "Domínio (bairros) dos Imigrantes Japoneses". Pelo mapa "MIRANTE DO PARANAPANEMA – DOMÍNIOS NA ORGANIZAÇÃO DO PRIMEIRO ESPAÇO GEOGRÁFICO", constatamos que o maior domínio, tomando quase a metade da área do município, coube aos fazendeiros. Devemos reconhecer que a importância e a influência dos migrantes nordestinos, a partir do final da década de 1940, pode ser constatada por todos esses os domínios

Hoje nem tanto, mas até há poucas décadas, quando alguém fazia qualquer referência aos bairros: "Santo Antônio", "Bessarábia" e "Colônia Branca", era impossível não lhe derivar à mente alguma relação com imigrantes europeus.

O primeiro a se declarar titular das terras deste município, aproximadamente em 1917, foi o Dr. Labieno da Costa Machado, por sinal, filho de imigrantes alemães. Todos os acontecimentos que caracterizaram a colonização dessa área estão diretamente relacionados às atitudes e procedimentos desse fazendeiro. Inicialmente ele empreendeu uma forte propaganda de suas terras através de panfletos e jornais por vários países da Europa. Em função de ter estudado naquele continente, falar fluentemente a língua alemã e o fato da Europa estar passando por uma grave crise social e econômica, em função da nova geopolítica pós-I Guerra Mundial, facilitou a consecução de seus desígnios de vender pequenos lotes de terras alocando seus compradores em colônias de uma mesma nacionalidade.

Na aspiração de principiar uma nova vida, muitos europeus incorporaram essa idéia emigrando para essa região já no início da década de 1920. Centenas de famílias incluindo alemães, romenos, húngaros, lituanos, austríacos, búlgaros, tchecoslovacos e até russos, de um momento para outro se viram em meio a uma floresta virgem distante dos centros urbanos.

O governo brasileiro, através de um programa, incentivava a vinda desses, adiantando o pagamento das despesas com a viagem. Por força de contrato, a maior parte desses imigrantes era obrigada a trabalhar por dois anos nas lavouras de café para conseguir restituir o dinheiro ao governo.

Muitas famílias, notadamente alemãs, que já residiam no Brasil, também migraram para essa região.

 

A DIFÍCIL ADAPTAÇÃO

Por várias razões, a maior parte dos primeiros imigrantes europeus, acabou emigrando para outras regiões no Brasil, sobretudo para a cidade de São Paulo. Muitos não conseguiram superar as dificuldades advindas pelas condições contrárias ao seu mundo de origem, com relação à cultura, relações de trabalho e ao clima. Praticamente todos os chefes de famílias eram admiráveis profissionais formados em artes importantes naquela época, tais como: carpinteiro, eletricista, mecânico, pedreiro e ferreiro. Muitos desses eram ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial e apresentava deficiências físicas, como surdez, visual e mutilação de membros, além de muita perturbação mental. Somavam-se os costumes alimentícios diferentes, a questão da linguagem e ainda o fato do clima tropical aqui SER muito estranho às condições baixas temperaturas.

O Sr. João Meredija (1915-1998), tchecoslovaco que chegou no bairro Km 7,5 (Tupi), próximo a Bessarábia em 1928, em entrevista no dia 02/09/1996, conta que os primeiros dez anos que ali viveu, foram terríveis. Quem ficasse doente, morria e ali mesmo era enterrado. O acamado tinha que ser transportado nas costas até Santo Anastácio, pois nem animal para isso existia. Segundo afirma também, a terra não custava muito, o problema era que quase não existia dinheiro. A terra produzia abundantemente todos os tipos de cereais, cujos produtos estragavam nas roças e galpões. O problema era a carência de estradas para o transporte e os baixos preços na venda dos produtos que acabavam inviabilizando a produção. "Se contar o que a gente passou naquele tempo, ninguém hoje acredita" (Catarina Nezo Dezo, húngara, 84, que chegou no bairro Santo Antônio em 1928). "Em 1934 deu uma malária tão forte na Bessarábia que matou muita gente, principalmente russos. Os corpos eram enterrados ali mesmo nos sítios" (Carlos Moronga, romeno, 80, que chegou na Colônia Santo Antônio em 1927). Atemorizados com a epidemia da malária, quase todos os russos fugiram inesperadamente, abandonando galpões cheios de cereais.

Havia cemitérios nas Colônias Santo Antônio, Bessarábia e Costa Machado. O Sr. Carlos conta que só conheceu a cidade de Santo Anastácio depois de quase vinte anos morando em meio ao mato aqui nas colônias.

A Dona Maria Moronga Baiças, 82, conta que os filhos (homens) de imigrantes, quando ela aqui chegou em 1928, até aos dez anos, andavam sem roupa. Ela conta também que só conseguiu conversar na língua portuguesa aos doze anos de idade quando ingressou na escola.

 

ATIVIDADES ECONÔMICAS

A grande função econômica dos imigrantes europeus foi no exercício do trabalho doméstico e na economia de subsistência em forma de mutirão. Mesmo com a chegada da cultura do algodão, na década de 1940, esses imigrantes continuaram praticando a policultura, ou seja, cultivando vários tipos de produtos ao mesmo tempo. "Os estrangeiros não eram muito dado a plantar algodão" (Nicolau Chocostiuc, 85, que chegou na Bessarábia em 1928).

O número exato de famílias, efetivamente morando nesses bairros europeus, sempre foi incerto. Em 1935, segundo o Sr. José Nezo, filho de imigrantes húngaros, nascido no bairro Santo Antônio em 1928, 73 anos, afirma que em 1935 existiam aproximadamente 60 famílias morando nesse bairro. Segundo o Sr. Willy Nendza, 70, as Colônias Branca e Costa Machado, em meados da década de 1930, contavam com aproximadamente 55 famílias, sendo a metade composta de alemães e a outra de romenos. A Colônia lituana nunca chegou a possuir, ao mesmo tempo, mais do que 30 famílias, os russos na Bessarábia sempre contaram com cerca de 25 famílias, bem menos ainda era o número de tchecoslovacos, austríacos e búlgaros.

 

PRESERVANDO A IDENTIDADE

As grandes marcas e características da colonização européia em Mirante do Paranapanema foram: a luta pela preservação da identidade das nações com suas culturas e valores; a pequena propriedade explorada pelo trabalho familiar e comunitário; a prática da policultura e a produção de cereais; o respeito às instituições constituídas e a aversão pela política fragmentada e populista do Brasil.

Os russos, que vieram da região da Bessarábia, pertencente a atual Rússia, denominaram esse bairro de "manoca", que nessa língua significa "fomos enganados". Quando aqui chegaram, no final de década de 1920, os primeiros imigrantes foram parar onde é hoje o Distrito de Cuiabá Paulista, procurando seus lotes. Logo depois é que se fixaram definitivamente na Bessarábia.

Os húngaros chamavam, em sua língua de origem o bairro Santo Antônio de "bairro da mulher feliz". E a colônia alemã era conhecida como "colônia branca", isso porque esses imigrantes pintavam as casas de barro com a cor branca e também por eles apresentarem uma cor de pele e cabelos esbranquiçados.

 

CAUSAS DA DECADÊNCIA

Foram vários os fatores que determinaram a emigração dos estrangeiros desses bairros: a) inicialmente, as condições adversas para moradia; b) a ruptura no seu sistema produtivo (de subsistência), com a chegada da monocultura algodoeira; c) as relações sociais de trabalho com o migrante nordestino. Muitos nordestinos arrendavam suas terras e no final das colheitas não queriam pagar o arrendamento e nem os financiamentos. O Sr. João Meredija, conta que quando chegou a arrendar terras para cerca de 25 nordestinos, praticamente não saia do Fórum de Santo Anastácio atendendo convocação para resolver intrigas. Muitos proprietários, desanimados com essa situação, acabaram até abandonando suas terras e indo embora. "O estrangeiro confiava muito nas pessoas e às vezes isso não dava certo. Muitos nordestinos mudavam e não pagavam nada pela renda da terra. Aconteceu de muitos colocar a produção em caminhões e desaparecer à noite", Carlos Chocostiuc, 49). Segundo o Sr. Nicolau, nenhum estrangeiro possuía boteco em suas colônias.

 

OS REMANESCENTES

Existem ainda hoje, espalhados pelo município, cerca de 30 famílias de imigrantes europeus ou seus descendentes, os demais emigraram para outras partes do Brasil.

Inauguração do busto do Dr. Labieno da Costa Machado, no Distrito de Costa Machado em 1954. No centro, o mais baixo, José Quirino Cavalcante, prefeito na época, tendo a sua esquerda, pela ordem, Dr. Labieno e Paulo de Assis. À direita do prefeito, também pela ordem, Dr. Eumene e Francisco Mario Pires.

 

 

AS CONTRADIÇÕES DA FAZENDA VALLE DO PARANAPANEMA

 

1 - ODILON FERRAZ E DR . LABIENO

É impossível desvencilhar da história e organização do espaço geográfico através da Empresa de Terras e Colonização Labieno da Costa Machado, entre as décadas de 1920 e 1940, a figura do administrador Odilon Ferraz, um dos amigos mais contraditórios do Dr. Labieno da Costa Machado. Os dois compuseram uma longa história de amizade e ódio, que nesta matéria não pretendo esgotá-la.

Já por ocasião da primeira vinda a essa região, aproximadamente em 1918, para conhecer as terras herdadas de seu pai, que o Dr. Labieno se fez acompanhar de seu conhecido e amigo, Odilon Ferraz. Os dois viajaram até Indiana de trem e dali partiram a cavalo com destino onde hoje se formou o Distrito de Costa Machado atravessando mata virgem desde Pirapozinho.

Iniciada a colonização das terras do Dr. Labieno da Costa Machado, ainda na década de 1920, Odilon Ferraz se transforma no primeiro administrador geral da fazenda que denominava "Fazenda Valle do Paranapanema". Na década de 1940, mais precisamente de fevereiro de 1941 ao início do ano de 1946, Odilon Ferraz volta a administrar a fazenda, quando ocorre, finalmente a discórdia e ruptura entre os dois antigos companheiros de lutas.

A Fazenda Vale do Paranapanema teve outros administradores, mas o mais destacado e contraditório foi Odilon Ferraz, cuja trajetória de existência percorrida e atitudes tomadas, confundem com a própria história das primeiras organizações geográficas acontecidas ainda na etapa do pioneirismo do município de Mirante do Paranapanema.

Em conseqüência da falta de um acompanhamento mais "In loco" do Dr. Labieno nos negócios da Fazenda Vale do Paranapanema, proporcionou ao administrador Odilon Ferraz, a oportunidade de, como tantos outros, tomar posse de parte da abundância de terras que se apresentavam à sua frente. A partir desse momento ele passou a olhar com perspicácia para as posses do patrão, o que em se tratando de negócios daquela época, década de 1940, não seria uma aspiração incoerente.

Sem improbidade o Dr. Labieno estava criando a própria "cobra", que mais tarde o feriria quase que mortalmente.

Graças ao convívio com autoridades e seduzindo juízes, promotores e delegados, o administrador Odilon Ferraz, chegou até se intitular verdadeiro dono da Fazenda Vale do Paranapanema e colocar em dúvida a legitimidade do Dr. Labieno sobre a Fazenda Vale do Paranapanema.

Não seria apropriado qualificar o Sr. Odilon Ferraz puramente como um oportunista, mas sim como uma concepção da própria contradição que foi a propriedade do Dr. Labieno, que procurava acumular riquezas para poucos – para si - e miséria para muitos.

No início de 1946, julgando-se traído, o Dr. Labieno, após demanda judicial, conseguiu finalmente demitir e expulsar de sua propriedade seu ex-amigo e administrador Odilon Ferraz.

 

2 – ODILON FERRAZ E VIDA CONJUGAL

No primeiro casamento de Odilon Ferraz com Tereza Ferraz, ele teve seis filhos, quatro homens e duas mulheres. Nesse tempo ele morou em São João da Boa Vista, município paulista na divisa com o Estado de Minas Gerais, próximo a Poços de Caldas, e administrava a fazenda aqui, quando aqui ficava por períodos de dois a quatro meses.

Já viúvo e com 68 anos, Odilon Ferraz se casa com Amélia Varanda, que na época tinha apenas 15 anos de idade. Nesse casamento, que durou apenas sete anos, ele teve mais dois filhos homens.

Odilon morreu com quase oitenta anos de idade, de pneumonia, sozinho e pobre, longe da terra que um dia sonhou possui-la.

Quando entrou em disputa judicial com o Dr. Labieno, Odilon Ferraz não pode continuar morando na sede da fazenda, e com isso acabou abandonando Dona Amélia, que ali ainda permaneceu por mais dois anos, vindo depois casar com o Sr. José Xavier, que era ex-capanga do Odilon.

Em entrevista gravada em 01/12/2001, dona Amélia Varanda Xavier, recorda os traços marcantes e as atrocidades praticadas pelo seu ex-marido, Odilon Ferraz.

"O Odilon era um homem bravo, bruto, só andava armado, perigoso, mandou bater em muita gente. Eu não contava pra ninguém porque tinha medo dele. Uma vez ele bateu tanto num homem que quando sai na janela da sede da fazenda, onde nos morávamos, que vi aquilo,não acreditava no que estava vendo. Ele era muito ignorante. A encrenca dele com o Dr. Labieno foi um golpe que ele queria dar nos negócios da fazenda. Até jagunços por conta ele tinha. Os jagunços tinham que fazer o que ele queria, se não a chibata comia. Ele era e perigoso, ele dizia que para matar um ele não trocava de roupa. Agora o Dr. Labieno era um homem muito bom para as pessoas.

Quando o Odilon chegava nos bailes ele mandava parar a música, se não parasse ele acabava com a festa e mandava jogar a sanfona dentro no córrego. O Odilon era um homem muito mulherengo.

Quando alguém não pagava a compra o Odilon tomava a terra à bala. Ele tinha um jagunço chamado Adalberto Marques que era temido por todo mundo.

Na sede da fazenda tinha um quarto bem forrado só para o Odilon e seus jagunços surrarem as pessoas. Quando o indivíduo era retirado o Odilon mandava lavar o quarto que estava cheio de sangue. Quando morria ele não deixava ninguém ver, eu que ficava trancada num outro quarto, só escutava muito gemido e o barulho das chibatadas.

Se deixasse o Odilon conseguia tudo, ele "engraxava" (comprava) todo mundo, até juiz. Quantos almoços eu fiz para juiz e promotor ali na sede da fazenda. Delegado ele trazia na palma da mão.

Quando eu terminava de servir a mesa com aquela gente, juiz, promotor, delegado, eu tinha que ficar no quarto para não ouvir o que eles conversavam.

 

3 - IGREJA E ASSASSINATOS

Quem não pagava o combinado, ou porque era inimigo, o Odilon mandava colocar música no alto falante da igreja do Costa Machado, e combinava com seus jagunços para levar o indivíduo para o meio de um bananal ali perto e matavam o sujeito com um tiro na cabeça e enterravam na cova que já estava pronta. A música era para ninguém ouvir o barulho do tiro.

O Dr. Labieno, chegou aqui com um juiz que fez um arraso, retomou a propriedade das mãos do Odilon, e o expulsou da fazenda.

O Odilon mandava e desmandava na fazenda, o Dr. Labieno quase não vinha aqui, quem mais vinha aqui era o Dr. Eumene. Durante todo o tempo, sete anos, que morei na sede da fazenda, o Dr. Labieno veio aqui só uma vez, ele veio de avião.

Jagunços do Odilon eram João Dias, Adalberto Marques, Durval Caetano, (administrador da Bessarábia), que se aliou ao Severiano para também tomar terra do Dr. Labieno no Bairro Santo Antônio.

Nem o Odilon e nem mesmo o Dr. Labieno fizeram alguma coisa para melhorar Costa Machado que é isso hoje por força dos outros. O Dr. Labieno dizia que não iria gastar dinheiro bom em coisa ruim, assim mesmo andou vendendo umas datas.

 

4 - NÚCLEOS HABITACIONAIS E VALORIZAÇÃO DAS TERRAS

Desde o início que o Dr. Labieno da Costa Machado, tinha como objetivo especular com as terras que afirmava ter herdado de seu pai. Buscando uma maior valorização das terras, era seu interesse organizar povoados em todas as colônias que iam se formando com os imigrantes europeus. Uma das maiores dificuldades para o europeu aqui se fixar, era a distância dos grandes centros urbanos, dado que a maior parte deles era procedente de cidades. Com os povoados esse problema poderia ser em parte também abrandado.

Mas apesar de todo o empenho despendido nesse sentido, o único núcleo que se mostrou tendente à constituição de um patrimônio, foi a colônia de Costa Machado.

A EMPRESA DE TERRAS E COLONIZAÇÃO LABIENO DA COSTA MACHADO

 

As origens da Fazenda Vale de Paranapanema

...O Dr. Labieno da Costa Machado tomou pose das terras havidas por doação de seu pai, passando a cultiva-la. Mandou levantar perímetro e todas as águas por meio de engenheiros. A posse do Dr. Labieno da Costa Machado, por si e antecessores, no referido imóvel, não foi molestada até 1921, quando começaram a aparecer os primeiros intrusos e pretensos donos de terras, portadores de títulos falsos, que, entretanto, sempre foram repelidos pelas ações competentes na justiça.

Fazer afirmação sobre o que é posse legítima ou ilegítima nessa região é algo perigoso. São muitos os exemplos que mostram a nulidade dos títulos apresentados como autênticos, quando já haviam sido repassados ou divididos para a comercialização de pequenos lotes...

A posse sobre terras do Dr. Labieno da Costa Machado foi confirmada oficialmente por uma vistoria em 1921, homologada pelo Juiz de Direito da Comarca de Assis, na defesa da invasão por parte da Companhia Marcados, que se dizia condômino de parte das terras, constatando-se que no imóvel Fazenda Vale do Paranapanema "... não existiam outras posses senão as dele"...

Apesar da vigilância e das ações impetradas contra eles (Dr. Labieno e Coronel Marcondes), na justiça, muitos intrusos permaneceram por muito tempo em determinados pontos do imóvel.

Apesar das ações de supostos grileiros, o Dr. Labieno da Costa Machado requereu a inscrição de várias glebas para serem retalhadas e vendidas à prestação, nas cabeceiras do Pirapozinho, o núcleo colonial Costa Machado, sede da fazenda, nas cabeceiras dos córregos Santo Antônio, os núcleos Nova Bessarábia e Santo Antônio e no Ribeirão das Queixadas...

Além das questões motivadas pelas invasões das terras, a Fazenda Vale do Paranapanema também teve a autenticidade dos títulos de posse avaliados pela Fazenda do Estado. Primeiro se discutiu se a posse do Dr. Labieno havia sido feita na totalidade das terras ou em apenas parte dela.

Entretanto, a questão de maior relevância contra o Estado teve início quando houve o "seqüestro da Fazenda Vale do Paranapanema", com publicação no Diário Oficial de 04 de novembro de 1933, devido ao atraso no pagamento de impostos rurais dos últimos 4 anos. A defesa da propriedade recorreu ao Supremo Tribunal de Taxas, onde obteve vitória, conseguindo o parcelamento de toda a dívida para com a Fazenda do Estado em doze parcelas, num total de 123.320$000, referente aos exercícios de 1928 a 1934. Pelo acordo, o não pagamento de qualquer uma das prestações, no mês estipulado, implicaria na caducidade imediata das concessões.

O interessante desse processo foi que, ao fazer o seqüestro pelo não pagamento de impostos, a Fazenda do Estado estava fazendo um reconhecimento formal da posse do Dr. Labieno da Costa Machado sobre a fazenda Vale do Paranapanema, além de confirmar as águas pertencentes à fazenda, tudo em acordo com as descritas na escritura original de compra de João da Silva Oliveira e de José Theodoro de Souza.

"A Fazenda do Estado, por esse seqüestro, inequivocamente reconheceu ao Dr. Labieno da Costa Machado à sua qualidade de proprietário da Fazenda Vale do Paranapanema, reconhecendo a área de 100.130 alqueires, os justos limites e confrontações da mesma, bem como as águas de que ela se compõe"(GLÓRIA, José O C. op.cit.,p.75)

No julgamento de uma ação de confirmação de posse, o Ministro Hermenegildo de Barros assim se pronunciou no final de seu voto.

"Aliás o próprio réu (Estado) reconheceu que as terras são domínio particular dos autores, tanto que lhes cobra os respectivos impostos, na qualidade de proprietário delas (Labieno da Costa Machado)"(GLÓRIA, José O C. op.cit.,p.72).

Mesmo quando as decisões não eram favoráveis às pretensões dos advogados do Dr. Labieno da Costa Machado, o discurso com os motivos para tal derrota era bem afinado.

"Somente a chicana sórdida e soez a serviço de advogados inescrupulosos, a cobiça descomedida e contrariada dos grileiros contumazes, a cretinice, a cretinice vesga de inimigos ou antipatizantes gratuitos, a má vontade da Procuradoria de Terras, apoiada no ´parti pris confessáveis e deslavado de juízes de outras comarcas, teriam tentado, como de fato, tentaram enxergar nesses títulos, qualquer ruga ou aparência de nulidade, com sadismo de deprecia-los. Não há, porém, nem pode haver, em que pese à semelhante gente, títulos, melhores e mais limpos de propriedade, nestas paragens, desde que elas começaram a ser conhecidas e desbravadas" "(GLÓRIA, José O C. op.cit.,p.69-70).

... Com a ação de especuladores e grileiros podia-se tomar posse de uma terra ou de outra já devidamente ocupada, transformando-as em áreas regularizadas, sob a proteção de títulos caprichosamente produzidos e coloca-las para a comercialização de pequenos lotes. Posto isso, entende-se porque durante muito tempo o Dr. Labieno da Costa Machado teve que freqüentar tribunais, levantar provas e impedir a ação de grileiros e ações do próprio Estado que constantemente colocavam sob suspeitas seus títulos e tentavam apropriar-se de parte das terras que considerava de sua exclusiva posse e controle.

Esse fato, que acabou se consumando mais tarde, em boa parcela das terras colocadas sob seu controle, nos deixa a dúvida até que ponto tais percalços atrapalharam o objetivo maior da Empresa de Terras em seu projeto inicial, que era a comercialização de lotes para pequenos proprietários. (Prof. Marcos De Martini – Tese "A EMPRESA DE TERRAS E COLONIZAÇÃO LABIENO DA COSTA MACHADO: DO VELHO PARA O NOVO OESTE PAULISTA"

 

AS TRANSFORMAÇÕES DO ESPAÇO GEOGRÁFICO

 

Decompondo o arranjo dos primeiros espaços geográficos do município de Mirante do Paranapanema em seu período de colonização, fato advindo através de diferentes fluxos migratórios e lutas pela posse de terras, pudemos identificar e distinguir quatro grandes áreas, locais ou bairros, que ficaram assim conhecidos: "Domínio (área) dos Imigrantes Europeus"; "Domínio (região) dos Fazendeiros"; "Domínio dos migrantes nordestinos" e "Domínio (bairros) dos Imigrantes Japoneses". Pelo mapa "MIRANTE DO PARANAPANEMA – DOMÍNIOS NA ORGANIZAÇÃO DO PRIMEIRO ESPAÇO GEOGRÁFICO", constatamos que o maior domínio, tomando quase a metade da área do município, coube aos fazendeiros. Devemos reconhecer que a importância e a influência dos migrantes nordestinos, a partir do final da década de 1940, pode ser constatada por todos esses os domínios.