Pica-Pau

 

O INÍCIO

A primeira fazenda, de 1200 alqueires no bairro, foi do Sr. Gabriel Guanazes, provavelmente a tenha adquirido do Dr. Labieno da Costa Machado de Souza, pois eram da mesma cidade, Garça, e as escrituras das terras por ele passadas constavam a identificação do bairro como sendo "Colônia Nova Germânia", o mesmo nome estampado nos mapas da antiga fazenda "Valle do Paranapanema". Em escrituras lavradas recentemente já aparece o nome do bairro como sendo "Água Sumida". Conforme desbravadores do bairro afirmam, ainda no final da década de 1950 o Ribeirão Água Sumida percorria aproximadamente quatro quilômetros de forma subterrânea, a água sumia na terra e só aparecia mais abaixo. Foi um trabalho exaustivo por quase um mês envolvendo aproximadamente cinqüenta homens escavando valetas e aterrando buracos para que a água pudesse escoar superficialmente sobre o terreno como, aliás, ocorre até hoje.

O nome "PICA-PAU", segundo alguns pioneiros, foi um apelido dado em razão da existência da grande quantidade de aves da espécie pica-pau por ocasião do desmatamento. Essa informação é confirmada pelo Sr. Floriano Quirino Cavalcante. Nas plantas cartográficas do município são identificados dois Pica-Paus, um de baixo, mais ligado ao Repouso, e outro chamado apenas de "Pica-Pau", localizado na área mais elevada do relevo do bairro.

Os pioneiros alegam que sempre existiu um só "Pica-Pau". A divisão pode ter surgido em função do desmatamento da área ter ocorrido em duas frentes ao mesmo tempo, uma do Bairro "Marco-Dois" em direção a Água do Repouso e outra no sentido contrário.

Depois do Sr. Gabriel, o primeiro a comprar terra no bairro foi o Sr. Akinoro Kadoaki. O primeiro comprador de terra a morar no bairro foi o Sr. Yagahashi, que adquiriu do Sr. Gabriel 50 alqueires, ainda no início dos anos 50. Em 1951 chegou o Sr. Floriano Quirino Cavalcante, comprando 7,5 alqueires do Sr. Akinoro e pagando Cr$ 24.000,00 em três anos. De meados da década de 1950 e aproximadamente 1967, comprou terras e morou também no bairro o Sr. Minoru Tamura,

Em 1952 o Sr. Hiroito Yamamoto, mais conhecido como "Alfredo Japonês", comprou uma área de 60 alqueires também do Sr. Gabriel e no ano seguinte mudou-se para o bairro, derrubou 20 alqueires de mata, plantou algodão e arrendou o resto para migrantes nordestinos. Em 1964 muda-se novamente desta vez para a cidade de Mirante do Paranapanema pela necessidade que via dos filhos prosseguirem os estudos. Afirma que sua maior riqueza foi ter formado todos eles na universidade. Hoje possui ainda no bairro uma propriedade de 110 alqueires onde comporta 350 cabeças de gado de engorda e de corte.

No bairro existiram vários proprietários de botecos e armazéns: José Quintino de Oliveira - 1954; Francisco Chagas - 1956; Raul - 1957 e Antônio Pernambuco - 1959.

 

RELAÇÃO SOCIEDADE - NATUREZA

Naquela área hoje nada resta da mata tropical e muito menos dos animais silvestres que constituíam um ecossistema equilibrado até a chegada do homem. Perobas, ipês, cabriúvas, cedros e tantas outras madeiras eram transformadas em cinzas do dia para a noite e animais como anta, capivara, macaco, onça, tatu e outros mais, acabaram queimados ou tendo que procurar outros locais para habitar. O Sr. Floriano Quirino Cavalcante, 75 anos, que possui terras até hoje no bairro, afirma que sente agora uma profunda tristeza quando precisa de um pedaço de madeira para fazer um mourão de porteira e se lembra de quantas toras de cabriúva e peroba que ele queimou ou enterrou quando estava "limpando" a sua propriedade para o plantio. O solo do bairro era um dos mais férteis do município e ideal para várias culturas agrícolas, apesar de ter sido tão pouco utilizado para o cultivo de gêneros alimentícios. Plantava-se praticamente só algodão; o arroz e o feijão que eles consumiam vinham principalmente dos Estados do Paraná e do hoje, Mato Grosso do Sul.

ALGODÃO

O bairro viveu o auge do progresso de 1953 a 1958 com a cultura do algodão. Juntamente com os bairros Água da Saúde e Água do Repouso, teve as maiores médias de produção por alqueire do município e contribuiu significativamente para que este se tornasse, naquela década, um dos maiores produtores de algodão do Estado e do Brasil. A produção chegava a 450 arrobas por alqueire e contava o bairro com aproximadamente trezentas famílias, entre proprietários e arrendatários. Inicialmente o algodão produzido era transportada através de caminhões até Santo Anastácio numa viagem demorada, cara e perigosa, mas com as instalações das máquinas de beneficiamento a partir 1953 em Mirante do Paranapanema, os negócios foram facilitados e isso contribuiu decisivamente para a grande expansão desta lavoura no município e região. Naquele período o algodão dava muito lucro, pois a terra era barata e o pagamento facilitado, o solo era fértil e o agricultor quase não tinha despesas, "era só plantar e colher", afirma o Sr. Floriano. Todo mundo ganhava dinheiro com o algodão: o dono da terra; o arrendatário, a "peãozada", os donos dos caminhões, os comerciantes, as máquinas e os financiadores.

O algodão começou a entrar em decadência já no final da década de 1950, por várias razões: a falta de conhecimento do nordestino para com o manejo do solo da região e dos negócios relacionados à produção e comercialização do produto; o enfraquecimento do solo; o surgimento de pragas na lavoura como pulgão, murcha, lagartas, formigas, e outras; a exploração das "máquinas" e dos "atravessadores" e a visão linear que o nordestino tinha de só verem uma cultura pela frente: algodão. Muitos arrendatários, em vez de comprar um pedaço de terra no ano em que o algodão dava dinheiro, não, eles preferiam arrendar o dobro de terra do ano anterior para ver se obtinham o dobro do lucro. Quase sempre as condições não eram as mesmas, seja com o tempo, pragas condições de solo ou preço na hora da venda, e com isso eles acabavam perdendo no ano seguinte o que tinham ganhado no ano anterior e pior ainda, quase sempre ficavam devendo. Tudo é "questão de cabeça". Quem ganhou dinheiro no auge da produção do algodão, investiu na compra de terras, formando pastagens e criando gado, conservou, quem assim não fez, perdeu praticamente tudo o que tinha acumulado.

PRODUTIVIDADE DO ALGODÃO

Não há contradição nenhuma entre o IBGE, que em seu Censo Agropecuário de 1960 registra uma média de 150 arrobas de algodão por alqueire em Mirante do Paranapanema e alguns agricultores que afirmam que em determinadas lavouras a produção, principalmente no bairro "Pica-Pau", chegou a mais de quatrocentas arrobas por alqueire. Acontece que o período que apresentou a maior média da produção de algodão foi anterior ao ano que serviu de base para esse instituto registrar seus dados, que foi 1959. Devemos reconhecer que neste ano a produtividade média por alqueire do município já não fora a mesma dos anos anteriores. E outra, o IBGE trabalha com o total de produção e área cultivada no município e não com produtividade isolada por bairro ou por produtor.

AMENDOIM

Como davam importância apenas para o algodão praticamente não houve plantação de amendoim, sendo cultivado apenas durante três anos, de 1959 a 1962. Quase ninguém ganhou dinheiro com essa cultura neste bairro e nem nos demais, apesar da produção alcançar até 300 sacas por alqueire.

 

FLORIANO QUIRINO CAVALCANTE E HIROITI YAMAMOTO

Falar sobre o bairro "Pica-Pau", necessariamente temos que lembrar, dentre outros pioneiros, como José Quintino de Oliveira, Benvido Morais e Francisco de Assis, de Floriano Quirino Cavalcante e Hiroiti Yamamoto ("Alfredo Japonês"). O Sr. Floriano, migrante nordestino do Estado do Ceará, veio como "peão" e chegou a possuir ao mesmo tempo, 217 alqueires de terra e 700 cabeças de gado. Hoje tem menos em função de divisão da herança. "Ganhei dinheiro com algodão e comprei terra, quando a lavoura fracassou, apliquei tudo na criação de gado. Quem insistiu na lavoura acabou perdendo tudo. Eu mudei de atividade para não perder o que tinha ganho. O mesmo chão que traz o lucro pode também trazer a perda" (Floriano, 75 anos).

"Eu cheguei, em 1964 a plantar em minha propriedade 75 alqueires de algodão, criar 300 cabeças de gado, financiar dezenas de arrendatários e ainda tocar um boteco no bairro. A partir de 1960 algodão foi só prejuízo. Quem investiu somente em terra e gado conservou o que tinha ganho, mas quem insistiu na lavoura perdeu tudo. A maior parte dos arrendatários foi embora sem poder pagar o que devia. Eu perdi muito com endosso e arrendatários. Lavoura é assim mesmo, ingrata"(José Quintino de Oliveira, 67 anos).

O Sr. Francisco de Assis, 76 anos, cearense que chegou no bairro em 1952, chegou a possuir aproximadamente setenta alqueires de terra e 200 cabeças de gado, afirma: "Ganhei dinheiro com algodão, mas roça é um jogo, ninguém consegue ganhar dois anos seguidos. O dinheiro do algodão era quente, ganhava fácil gastava fácil. Perdi dinheiro com endosso, mas ainda consegui conservar um pouco. Tenho muita saudade do Pica-Pau"

O bairro "Pica-Pau" proporcionou o maior número de agricultores bem sucedidos de Mirante do Paranapanema, além dos acima citados, temos Benvido Morais, Jovelino Messias Moreira, João de Almeida, Dr. Tércio Pessoa de Vasconcelos e José Marcolino Sobrinho, "Zuca", que foi Prefeito do Município A área que ainda no início dos anos 60 já dava sinais visíveis de mudança de atividade econômica, da agricultura para a pecuária, na década de 1970, já era praticamente toda ocupada por pastagens. Hoje o gado toma conta de tudo e um assentamento provisório de "sem-terras" já ocupa uma parte do bairro.

Floriano Quirino Cavalcante e Hiroiti Yamamoto pioneiros do Bairro Pica-Pau