Novo Paraíso

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OS PRIMEIROS COLONOS

Quando a produção cafeeira se achava em falência total no Oeste Paulista e demais regiões do Estado de São Paulo, dez famílias de imigrantes japoneses, no início de 1950, partem de Valparaíso, região noroeste do Estado de São Paulo, com destino a uma floresta que protegia um dos mais importantes recursos naturais deste município: um solo que se transformou nas mãos desse povo, numa fonte oportuna de produção econômica e acumulação de riqueza. Partiram sob o comando do grande líder e profundo conhecedor do cultivo do café, Sr. Nanorii Kuroba, que em sociedade com o Sr. Outy, possuíam na época uma máquina de beneficiar arroz naquela cidade. Essas famílias eram: Saito (11 membros), Oki (11), Kuroba (7), Kamioka, Outy, Akessaka, Mikami, Yokoiama, Sato, Higashiama, Ariki. Um dos filhos do Sr. Saito, Yoshimi, ainda vive e mora em nossa cidade.

Logo em seguida, com a chegada de outras famílias de patrícios, esse grupo organizou, nas décadas de 1950 e 1960, nas proximidades do Distrito de Cuiabá Paulista, um dos espaços geográficos mais ricos do município de Mirante do Paranapanema ao longo de sua construção histórica: o bairro Novo Paraíso.

 

Essas famílias tinham adquirido terras, três anos antes, do também imigrante japonês, Sr. Kosuke Endo, possuidor de uma grande gleba de terras, com 13.840 alqueires em sociedade com seu amigo e compadre, Dr. José Garcia da Silveira Sobrinho.

A colonização foi iniciada de modo racional e dividiram a gleba em pequenos lotes pelo saudoso engenheiro Benício Mendonça Filho.

 

Fruto da cultura japonesa, vários patrícios que ainda continuavam morando em Valparaíso, vieram ajudar na construção das primeiras habitações dessas famílias.

 

AS CAUSAS DAS MIGRAÇÕES

Todos os chefes das primeiras famílias que aqui chegaram eram imigrantes japoneses que aportaram ao Brasil nas décadas de 1920 e 1930. Vieram estimulados pelo governo japonês e pelo atrativo da cultura do café que se estendia por grande parte do interior do Estado de São Paulo. Assim que chegavam, por contrato eram obrigados a permanecerem no mínimo por dois anos na fazenda trabalhando nessas lavouras.

Com a decadência da cultura cafeeira na década de 1930, quando o Brasil queimou 71 milhões de sacas de café, muitos passaram a investir o capital acumulado desse trabalho na compra de terras e a cultivar o algodão nas regiões noroeste, mogiana e paulista do nosso Estado. Mas em razão do enfraquecimento do solo e surgimento de pragas, esta cultura também entrou em decadência naquelas regiões.

 

Em decorrência da baixa oferta e da Guerra na Coréia, de 1948 a 1951 o café teve uma elevação brusca de mais de 100% nos preços no mercado internacional. Somando-se a isso os japoneses possuíam terras aqui com solos de excepcionais qualidades para o cultivo dessa lavoura. Tratava-se do Latossolo Vermelho escuro (terra mista) com algumas manchas do roxo, de composição argilosa, rico em matéria orgânica, profundo, boa drenagem, de fácil manejo e muito fértil. O terreno plano favorecia o uso de implementos agrícolas inicialmente eram somente de tração animal, e assim evitava-se a erosão e conservava-se o solo fértil por muitos anos.

Com o conhecimento da cultura, capital acumulado, preços do produto altamente compensatórios, terras adequadas para o cultivo já adquiridas, disposição para o trabalho comunitário e capacidade de organização, não restavam a esses japoneses outra alternativa se não migrarem para nossa região.

 

E assim eles retornaram à cultura cafeeira, agora com uma diferença fundamental: não mais como empregados, mas sim, donos de seu próprio cafezal.

Mesmo com todas essas possibilidades de sucesso imediato, eles não fizeram uma mudança precipitada, completaram a colheita do algodão e por vários meses os chefes de famílias se reuniram para estabelecerem estratégias, prioridades e procedimentos na nova empreitada.

 

A ORGANIZAÇÃO DO PRIMEIRO ESPAÇO GEOGRÁFICO

 

O espaço natural era muito rico também em espécies vegetais e animais. Árvores como peroba, ipê e jatobá eram abundantes. Além de jabuticaba, palmito, coqueiro e animais como onça, queixada e macaco.

As primeiras dez famílias adquiriram pequenos lotes próximos uns dos outros, com área que variavam entre 5 a 15 alqueires e perfaziam um total de 70 alqueires. Pela necessidade primária da água, por quase um ano as famílias moraram próximo ao Ribeirão Nhancá, distante quatro quilômetros de suas propriedades. Cada família desmatou uma parte de suas terras e no mês de setembro de 1950, começou a plantar o café para em seguida mudar definitivamente para suas posses. Em 1953 realizaram uma pequena colheita, média de 30 sacas por mil pés.

Com o arranjo do espaço geográfico, em pouco tempo a paisagem da área foi totalmente modificada e o que mais impressionava era o alinhamento perfeito das ruas do cafezal que se prolongava de uma propriedade para outra.

 

Naquela época ainda se plantava o café em grãos nas covas, o que retardava o seu crescimento e início de produção. As primeiras sacas de sementes foram trazidas de Valparaíso.

Por sugestão do Sr. Kuroba, a colônia inicial, que depois virou bairro, recebeu o nome de "Novo Paraíso", em homenagem ao município de onde saíram. Foi também dessa forma a origem dos nomes dos bairros vizinhos: Novo Tupã, Nova Promissão, Novo Horizonte e Novo Oriente.

 

O Sr. Yoshimi Saito, nascido no Japão, hoje com 70 anos de idade, e que chegou ao bairro com 20 anos, conta que no início as dificuldades foram muitas, pois que dormiam em redes nas primeiras noites, eles passaram a morar em habitações de pau-a-pique construídas de coqueiro rachado ao meio e cobertas de sapé. Nos primeiros anos, enquanto esperavam a primeira colheita de café, praticaram uma economia, quase que de subsistência, cultivando feijão, arroz, hortaliças e legumes em meio às ruas de café. O arroz era o único produto que sobrava do consumo e que tinha preço para compensar a venda, assim mesmo por preço irrisório, pois a oferta era maior do que a procura.

 

 

chegada dos primeiros imigrantes ao bairro .

Além de solo fértil, o café, por se tratar de uma cultura perene e anual, - só produz depois de no mínimo três anos, - exige mais investimento de capital do que o algodão, pois o plantio, cultivo e colheita requer muita mão-de-obra. Além de ser uma cultura "cara", corre ainda o risco das intempéries no clima, pois uma geada, - e ali eram constantes - pode significar a perda de grandes investimentos e maturação (lucros), adiada por vários anos. Também as pragas, - que acabaram surgindo nessas lavouras no final da década de 1960 - , e os preços do produto no mercado internacional, interferem diretamente nos lucros dos produtores. Assim como também a adubação e uso de fungicidas.

 

Pioneiros do Bairro Novo Paraíso - Década de 1960

Com muita dificuldade quanto à água e locomoção, esses imigrantes vão aos poucos e em silêncio, recriando um verdadeiro "novo paraíso", onde conseguiam manter viva parte de sua cultura que é centrada na disciplina, organização coletiva, no respeito, habilidade de administrar problemas. Acredito que a maior virtude e razão do sucesso desse povo estão nestas competências.

Os japoneses estavam preparados no lugar certo e na hora certa.

 

 

A HEGEMONIA DA CULTURA CAFEEIRA

Cada família que chegou no bairro no ano de 1950, desmatou cerca de seis alqueires e plantou café. As primeiras colheitas despertaram interesse em outras famílias de japoneses de Tupã, Promissão, Oriente e Horizonte, que foram chegando na condição de proprietários ou colonos dos patrícios. Já em 1956, no bairro Novo Paraíso, cerca de setenta alqueires produziram 6.481 sacas de café de 40,5 kg. Mas a grande produção de café só veio mesmo em 1959, quando em 495 alqueires de lavouras, somando-se todos os bairros próximos, foram colhidas 42.790 sacas, com envolvimento direto de quase dois mil trabalhadores.

O café inicialmente era plantado 4 x 4, ou seja, um pé (cova) distava do outro quatro metros. De certa forma isso possibilitava plantar, entre as ruas cereais como arroz, feijão, milho e até mesmo algodão, mas por outro lado "perdia-se" muito terreno. As últimas plantações do bairro já foram feitas com espaçamento 1,5 x 1,5 metro, o que veio proporcionar uma maior média de produção por alqueire.

Estando o produto extremamente valorizado no mercado internacional em meados da década de 1950, outros países foram também instigados a plantarem café em grande quantidade. Quando os japoneses começaram a extrair as primeiras boas colheitas, veio a superprodução mundial de 1957, e os preços caíram, mas ainda assim era muito lucrativo cultivar café.

Deve-se ressaltar que a altitude do terreno (cerca de 416 metros), de toda essa região não era muito recomendado pelos agrônomos para o cultivo do café, pois ela fica exposta às constantes geadas. Tanto isso é verdade que nos terrenos localizados nas baixadas não se plantava café e sim cereais, verduras, legumes e até melancia. O terreno do Novo Paraíso, era o mais elevado daquela região e também o de maior fertilidade, por isso sempre foi o que mais produziu café. A área do cafezal localizada para a banda sul dos terrenos, constantemente estava sofrendo com as geadas. As geadas muito influenciavam na variação da produção de uma área para outra e também de ano para ano. Se uma geada fraca viesse quando o café já estivesse maduro, o prejuízo não era muito, pois os pés "perdiam" as folhas e até facilitava a colheita.

 

Inicialmente o café era secado somente nos terreiros, mas os maiores produtores logo adquiriram secadoras.

Para amenizar o problema da escassez da água (poço com água somente a mais de cem metros), os japoneses construíam no chão reservatórios de água da chuva. O que escorria dos telhados das casas e das escolas, caía direto no tanque. Quando a estiagem era prolongada, buscavam água no Ribeirão Nhancá, em tambores colocados em cima de carros puxados por animais, tratores e caminhões. Essa água servia para tudo: beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupa.

 

IDENTIDADE NA UNIDADE

Mesmo em terra distante de seu berço natal os imigrantes japoneses e seus filhos brasileiros, pagavam qualquer preço para conservarem a cultura de seu povo. A maior preocupação deles era com relação a educação dos filhos. Em terras doadas pelo Sr. Kosuke Endo, assim que começou a colonização do bairro, em forma de mutirão, foram construídas escolas para o ensino em língua portuguesa, apesar de que ali quase só se falava em língua japonesa. Em 1955 só no bairro Novo Paraíso já existiam três escolas isoladas e multiseriadas, com 91 alunos. O bairro Novo Tupã também já contava naquele ano com duas escolas e 80 alunos matriculados. Apesar de a maioria da população, em todos os bairros da região ser de "brasileiros", as escolas eram freqüentadas mais por filhos de japoneses.

Além das terras para as construções de escolas, sedes de Kaikans e campos de beisebol, o Sr. Kozuke e sua família faziam questão de também ofertarem materiais de construção.

O que contribuía também na manutenção e sustentação da identidade e unidade dos imigrantes japoneses e seus filhos, eram as festas anuais em 1º de janeiro e 7 de setembro quando as Gincanas, "Undokai", faziam a festa das crianças e dos adultos. Durante o ano tinha também as disputas esportivas onde cada grupo de atleta disputava pelo seu bairro. As modalidades eram: Atletismo, Beisebol, Luta livre, Sumô, Tênis de mesa, e outros. No período da noite era projetado filmes do Japão. Em todos os finais de semana a Associação dos japoneses se reuniam no chamado clube "Kai-kan" de seu bairro. Até concurso de oratória em japonês e português era realizado todos os anos entre os jovens dos bairros.

Os brasileiros não tinham nenhum tipo de organização, era "cada um para si e salve-se quem puder". Eles só puderam participar das festas dos japoneses quando o "sistema colonialista" na região estava em decadência, isso já na década de 1980.

 

AS RELAÇÕES SOCIAIS DE TRABALHO E AS CONTRADIÇÕES DO ESPAÇO GEOGRÁFICO

Ainda hoje as pessoas se referem ao bairro Novo Paraíso, como sendo ou foi de japoneses. Por que isso ocorre, quando sabemos que a maior parte dos habitantes daquele bairro foi de brasileiros? O bairro ficou assim conhecido porque foram os japoneses que ali dominaram e exerceram o domínio.

Com a chegada de mais famílias japonesas, o bairro organizou uma forte colônia, que através de eleições anuais elegia presidente, secretário e tesoureiro.

A colônia era dividida em cinco seções e cada uma dessas também elegia o seu representante junto ao órgão máximo.

Como a mão-de-obra familiar dos japoneses não era suficiente para fazer o desmatamento e cultivar suas lavouras de café, os proprietários se valiam do trabalho dos migrantes mineiros e nordestinos, principalmente sergipanos e baianos. Era comum cada sitiante japonês ter quatro ou cinco famílias de colonos trabalhadores "brasileiros" morando em sua propriedade. Os colonos ajudavam nas lavouras durante o ano todo e recebiam o pagamento por dia trabalhado, empreita ou por porcentagem. Tinha também os colonos japoneses que gostavam de trabalhar mais por empreita ou porcentagem e não por dia pois achavam mais vantajoso.

Na época da colheita, quando o serviço aumentava, utilizavam-se a mão-de-obra do chamado "peão" ou camarada. (mineiros e nordestinos), um tipo de trabalhador que ganhava por produção, ou seja, por saca colhida. Quem trabalhava por dia na época da colheita, tinha direito a comida, mas quem pegava por empreita, tinha que "queimar lata".

Quanto as condições das posses, o bairro Novo Paraíso, na década de 1960 estava assim constituído: 45 proprietários, todos japoneses, e 170 famílias de colonos, sendo 30 "japoneses" e 140 "brasileiros". O Senhor Antônio Yokosawa conta que para colher 30 alqueires de café ele necessitava, durante toda a safra, de cerca de 80 trabalhadores "de fora", entre colonos e "peões". O Sr. Saito e seu irmão Sussumu, para tocar quinze alqueires de café tinha em suas propriedades quatro famílias de colonos e na época da colheita, 15 camaradas.

 

"OS BRASILEIROS FORAM PAGOS"

O espaço geográfico formado pelos bairros Novo Paraíso e vizinhos, reflete claramente como que um grupo menor, detendo o capital, o conhecimento, poder de organização coletiva e tendo às mãos os meios de produção, conseguem arranjar um território onde as relações sociais de trabalho resultam somente em benefícios deles próprios.

Apesar de contraditório, essa forma de organização praticada por eles se encaixa perfeitamente nos princípios do sistema capitalista de produção e é absolutamente normal. Cada grupo ou pessoa, que tendo os poderes às mãos, organiza o espaço de forma ou maneira que lhe convém.

Mesmo em todos os bairros da região cafeeira, sendo a maior parte dos habitantes composta por "brasileiros", o lucro do trabalho, ("mais valia") de mais de trinta anos, acabou nas mãos dos japoneses, a minoria. "Agora que a gente vê o quanto nos fomos explorados pelos japoneses" (Antônio Servolino dos Santos, 49 anos, filho de colono brasileiro).

Alguns elementos conduziram para esse fim, os colonos nordestinos que chegavam, eram quase todos semi-analfabetos, nunca tinham visto lavouras de café e tinham objetivos limitados, apenas de sobrevivência e ficavam até felizes por terem encontrado "colocações". Nenhum deles saiu de lá correndo ou devendo para patrão ou fornecedor, como ocorreu com seus conterrâneos que tentaram a sorte na cultura do algodão.

"Os brasileiros não tinham do que reclamar dos japoneses, pois estes cumpriam corretamente o que era combinado. Agora, que um japonês ajudava o outro, isso é verdade. Quem comandava tudo aquilo lá eram os japoneses. Brasileiro gostava mais de trabalhar para japonês do que para outro brasileiro. (Idália de Almeida Messias, 70 anos, nascida na Bahia, colona de japonês por mais de trinta anos).

 

Quando estava para iniciar a colheita do café, todos os representantes das seções da colônia japonesa do bairro reuniam-se para estabelecer um valor único de pagamento para a cada saca colhida. Assim também ocorria nos outros bairros. Todos os proprietários seguiam fielmente o que era decidido.

Existia um compromisso entre os japoneses de que nenhum deles poderia aceitar trabalhar em sua propriedade, e muito menos morar, uma família de colono brasileiro que tenha se desentendido com um patrício do bairro. Não só em função disso, mas a verdade é que constamos que muitas famílias de colonos brasileiros moraram, em uma única propriedade de japonês, por até quinze anos consecutivos.

"Quando tinha uma família de patrício que estava passando por dificuldade financeira, reunia umas dez famílias e ajudava"(Yoshimi Saito, 70 anos)

A prova do grande sucesso dos japoneses desses bairros, foi o resultado do conhecimento que possuíam da atividade econômica praticada, (o cultivo do café) e da capacidade de organização coletiva baseada na fidelidade e disciplina, o que não aconteceu quando de lá mudaram e nas cidades buscaram outros tipos de negócios, como por exemplo o comércio, muitos acabaram perdendo praticamente tudo o que acumularam com o café. Os negócios nas cidades exigem outros tipos de conhecimentos onde a competição está acima de qualquer vínculo de nacionalidade ou organização coletiva. Se um comerciante puder "quebrar" o outro, qualquer que seja, ele assim o faz. Um exemplo, segundo algumas pessoas, é a família do Sr. Kuroba, uma das mais bem sucedidas do bairro, andou perdendo muito dinheiro em negócios na cidade de São Paulo.

O que não resta qualquer dúvida é que, praticamente todas as famílias de japoneses daquela região ganharam dinheiro com a cultura do café, até mesmo os que inicialmente eram colonos acabaram adquirindo propriedades e tocando suas próprias lavouras. A família do Sr. Tetsuo Odahara, 71 anos, chegou diretamente do Japão para o bairro Nova Promissão, e trabalhando na condição de colono, em poucos anos conseguiu comprar quatro alqueires de terra e plantando café acumulou capital. O Sr. Eizi Sato, chegou como peão do Sr. Kuroba, guardou dinheiro, montou um grande armazém no bairro e chegou a possuir 130 alqueires de terra.

Em compensação, não se tem qualquer notícia de que uma única família de colonos brasileiros, daquela região, tenha saído dali bem economicamente. O Sr. Antônio conta que seu pai, Noé Servolino dos Santos, chegou ali no bairro Novo Paraíso em 1959, trabalhou com seus dez filhos durante trinta anos na condição de colono e acabou praticamente sem nada. Só com o Sr. Akira Miura, que tinha somente quatro filhos, sua família trabalhou vinte anos. Já o patrão chegou a possuir trinta alqueires de lavoura de café e a colher anualmente cerca de trinta mil sacas.

"Morei nesse região por mais de trinta anos e não conheci nenhum brasileiro que tivesse sua própria lavoura de café. No final, quando os cafezais já precisavam ser arrancados, teve alguns, como minha família, que puderam comprar um pedaço de terra, mas para plantar outra lavoura. Formar cafezal gastava muito, só para japonês mesmo" (Idália).

"Naquele tempo nordestino trabalhava muito, era de "sol a sol". O mato eles derrubavam por empreita. Os brasileiros receberam o combinado para trabalharem, se não tiveram sucesso, japonês não tem culpa" (Antônio Yokosawa, 68 anos).

 

 

O FIM DA SOCIEDADE JAPONESA

Quando definitivamente a monocultura cafeeira cedeu o espaço para as pastagens e criação do gado bovino no bairro Novo Paraíso e proximidades, já tinha chegado ao fim a mais organizada sociedade que este município já conheceu ao longo de sua história: a sociedade agrícola japonesa. Os japoneses conseguiram aliar capital, conhecimento e trabalho exercitando ali, ao longo de três décadas, as regras do verdadeiro capitalismo. Um povo que preservou sua identidade enquanto pôde e que soube abandonar uma atividade econômica no exato momento em que era grande o risco de se perder com ela tudo que tinha acumulado com muito sacrifício.

Portanto, veremos no texto de hoje, não propriamente o fim da lavoura do café nessa região, mas a fragmentação de uma comunidade que com muito apego a seus valores culturais construiu uma geografia de sucesso e uma história que jamais será esquecida. Mas o povo japonês não desvaneceu ali, ele continua vivo até hoje, pois a maior herança deixada aos seus filhos foram: o exemplo de vida e a formação escolar.

 

SUPERANDO OBSTÁCULOS

A cafeicultura na região do bairro Novo Paraíso, iniciada em 1950, teve uma expansão muito lenta, pois além da derrubada da mata, plantio e cuidados até a primeira colheita, demandavam vários anos, além do investimento de um razoável capital. Portanto, café não é uma "mina" de dinheiro como algumas pessoas imaginam. Além de cara, é uma cultura de muito riscos. Mesmo assim, com muito trabalho, conhecimento e organização racional os japoneses obtiveram grande sucesso nas duas primeiras décadas de cultivo. Aliado a tudo isso, o solo favorável contribuía para uma boa produtividade e obtenção de bons rendimentos. Devemos entender, entretanto, que no sistema capitalista, nem sempre uma boa produtividade redunda em lucratividade.

Na duas primeiras décadas da cultura cafeeira não existiam as terríveis pragas e o sistema de colonato nos moldes em que era praticado, contribuía para a obtenção dos lucros. Nem mesmo as condições adversas, como a carência de água nos poços profundos escavados manualmente e as geadas, foram obstáculos para que os japoneses conseguissem sucesso com uma economia complexa como é a cafeicultura.

 

Quando a matéria orgânica começou a esgotar-se do solo, vários proprietários montaram granjas com a intenção de aproveitarem o esterco das galinhas na adubação e com isso manter a produção. A produção de ovo era toda vendida ali mesmo na cooperativa que inicialmente pagava um preço compensador.

Uma conjugação que deu certo por alguns anos entre duas atividades econômicas: agricultura com avicultura. Só o bairro Novo Paraíso chegou a contar, simultaneamente, com 18 granjas (galpões), e a região do café, com mais de 30, segundo os Srs. Yokosawa e Servolino. Os proprietários que criavam galinhas compravam estercos dos patrícios ou buscavam, inicialmente nas regiões da Paulista, Noroeste e cidades próximas de Pres. Prudente. Até do município de Bastos veio esterco para os cafezais do Paraíso.

Veremos ainda neste texto que essa combinação "galinha-café", não durou muito tempo.

Em 1959 foi inaugurada a Cooperativa Cotia no bairro e pela primeira vez, desde sua fundação, ela passou a comprar café. A cooperativa, que atuava em quase todo o interior do Estado de São Paulo, era administrada por "japoneses" e tinha como cooperados os seus patrícios.

No bairro foi instalada uma máquina para beneficiamento (descascar) do café que teve como primeiro maquinista o Sr. Yamada. Além de comprar a maior parte da produção do café, a cooperativa fornecia quase de tudo para os seus cooperados: desde alimentos, calçados, vasilhas, inseticidas até implementos agrícolas. Os colonos brasileiros, segundo o Sr. Servolino, só podiam comprar na cooperativa através de um cooperado, ou seja, em nome de um "japonês", que normalmente era o seu patrão. Bem antes da chegada da cooperativa, em Cuiabá Paulista já existia uma máquina de beneficiar café, mas como o preço que costumava pagar ao produtor não era dos melhores, muitos preferiam levar a produção para outros mercados ou então negociar ali mesmo com compradores "de fora".

 

A produção média do café na região variava de 80 a 120 sacas de 40,5 kg por mil pés, e a produção total do município foi de 42.790 em 1959; 68.864 em 1974; 49.283 em 1980 e 41.407 em 1985.

 

O FIM DA SOCIEDADE AGRÍCOLA JAPONESA E A DECADÊNCIA DA ECONOMIA DO CAFÉ

 

O café é uma lavoura que utiliza muita mão-de-obra, principalmente nos moldes tradicionais como era ali praticada, despendia de 30 a 50% do custo de produção. Só para colher pagava-se cerca de 10% do valor da venda da saca. A colheita que deve ser feita no menor espaço de tempo possível, mobiliza um elevado número de trabalhadores, pois uma vez secos no pé, se não forem logo derriçados e recolhidos os frutos caem e com as chuvas logo se perdem.

A maior parte do café colhido era secado naturalmente nos terreiros, mas alguns dos maiores produtores, como a família Kuroba e Yokosawa, buscavam a secagem artificial, por meio de secadores mecânicos, utilizando o calor do fogo, e a lenha como combustível. Para ficar no ponto de ensacar o café ficava no terreiro de quatro a oito dias e uma "máquina" conseguia secar até cinqüenta sacas em apenas um dia. Isso reduzia custos e evitava prejuízos.

 

CAUSAS DA DECADÊNCIA

Vários foram os fatores ou obstáculos, que pôs fim à sociedade agrícola japonesa e a decadência da economia cafeeira nessa região:

1º) - NOVAS RELAÇÕES DE TRABALHO: O BÓIA-FRIA

A promulgação do Estatuto do Trabalhador Rural em 1963, que visava fixar o trabalhador rural no campo e evitar a sua exploração, como em todo o Brasil, acabou provocando mesmo foi mais êxodo rural. Os proprietários japoneses ficaram com medo, e até com certa razão, pois havia boatos de que se um colono ficasse morando numa propriedade por mais de cinco anos ele teria direito a uma parte da terra. Sem contar os direitos trabalhistas que ele teria. Direito, caso fosse "mandado embora". Isso fez com que a maior parte dos proprietários procurasse desvencilhar o mais rápido possível dos seus "empregados". A maior parte dos colonos "japoneses" tinha acumulado capital e já tocava suas próprias lavouras, e os "brasileiros" foram para novas frentes pioneiras agrícolas para continuarem como colonos.

Surge a partir desse momento uma nova relação de trabalho, produtor rural do café e o "bóia-fria" trabalhador que havia migrado do campo para a cidade. A monocultura do algodão também já tinha expulsado um considerável contingente de trabalhadores rurais para as cidades. A grande "vantagem" para o produtor era que esse trabalhador volante não fixava residência em sua propriedade.

Como as despesas pelo deslocamento diário desses trabalhadores ficava a cargo dos proprietários das lavouras, o gasto era muito elevado e refletia consideravelmente em seus rendimentos finais. Além dos custos essa nova relação trouxe muitos problemas. "Era preferível trabalhar com mil bois do que com um "bóia-fria" (Antônio Yokosawa, 68 anos). Pelo menos para trabalhar a lavoura até a colheita foram introduzidas algumas máquinas. O S. Michio Yodono, foi o primeiro produtor, em 1964, a introduzir um rotativa movida por trator. Muitos proprietários, com medo de que o uso desses instrumentos pudesse prejudicar as raízes dos cafezais, preferiam continuar utilizando apenas instrumentos puxados por animais.

2º) - PRAGAS E DOENÇAS NO CAFEZAL

O café, como toda lavoura, é bastante atacado por pragas e doenças No final da década de 1960 elas apareceram nos cafezais: nematóide, que ataca as raízes, o Bicho-Mineiro e a Ferrugem, que atacam as folhas. Essas pragas além de causarem sérios prejuízos às lavouras, influenciam diretamente nos lucros do produtor, pois os agrotóxicos necessários têm preços elevados e necessitam, nas aplicações do envolvimento de muita mão-de-obra desde equipamentos manuais até mecanizados. Em se tratando de uma região com carência de água, as dificuldades e os custos refletiam ainda mais nos lucros, pois as aplicações necessitavam de muita água.

3º) - PREÇOS DO CAFÉ

O mercado interno e externo do café sempre esteve ligado à conjuntura nacional e mundial envolvendo grandes interesses econômicos e políticos. Em termos de Brasil já ocorreu de tudo com o café: subsídio para plantar e para arrancar pés plantado, confisco e até grandes queimas do produto já colhido. Até política café com leite já existiu. Tudo isso faz do preço desse produto viver uma constante instabilidade. Desde 1983 até hoje o preço baixou e nunca mais subiu. O valor da saca (60 kg), beneficiado, para exportação em US$: 1940 - 7,93; 1950 - 58,34; 1960 - 42,37; 1970 - 57,46 e 1983 - 55,30.

4º) - O ADUBO ENCARECEU

Já no final da década de 1960, o custo-benefício na criação de galinhas no bairro acabou se transformando num negócio inviável em razão dos preços dos ovos não acompanharem a majoração da ração. A busca do esterco em outras localidades também encareceu muito em função da alta do combustível.

5º) - AS GEADAS

Como já afirmamos, essa região faz parte da zona favorável a cultura do café com restrições em função da altitude. Segundo vários ex-proprietários, era muito difícil passar três anos sem uma pequena geada. Mas as grandes vinham geralmente de dez em dez anos. As mais fortes ocorreram em 1954, 1963 e 1975.

Somando-se a todos esses fatores negativos citados, a geada de 1975, foi como um "tiro de misericórdia" na disposição dos japoneses em continuarem cultivando café no bairro Novo Paraíso e região. Desde meados dos anos 60 que começou a ocorrer migrações de japoneses. O Sr. Yoshimi Saito, que foi um dos primeiros a chegarem ao bairro, desanimado pelas constantes geadas, também foi um dos primeiros, ainda em 1965, a abandoná-lo.

Foi atípico o ano de 1975 para os produtores de café, ocorreu a maior geada das últimas cinco décadas e também o ano em que eles ganharam mais dinheiro. A geada, que queimou aproximadamente 6.000.000 de pés ocorreu na madrugada do dia 13/07/1975, quando o café já estava praticamente todo granado, no ponto de colher. Quem contemplou o quadro do cafezal naquela manhã conta que era impossível conter as lágrimas. Parecia as cidades de Hiroshima e Nagasaki após a bomba atômica. Só o Sr. Yokosawa teve 160 000 pés queimados.

Sem as folhas nos pés a colheita foi facilitada e os custos diminuídos. Na área, nesse ano foram colhidas cerca de 70 000 mil sacas. Em função da geada o preço da venda do produto inicialmente teve uma alta de mais de 100%, mas quem conseguiu estocar a produção para venda posterior, alcançou preço quase três vezes mais. Todo mundo sabia que café ali agora somente três anos depois. A maior parte dos pés de café foram decepados, (podados, cortados) com moto-serra. O cafezal que não estava produzindo satisfatoriamente foi arrancado. Depois de 1975, somente em 1983 é que teríamos outra geada, assim mesmo bem fraca. A maior parte dos japoneses venderam suas propriedades ainda com café. Quem mais se interessou em continuar tocando os cafezais ali foram italianos vindos do Estado do Paraná.

 

O QUE RESTOU

É muito comum hoje nos finais de semana e principalmente nos feriados prolongados depararmos com "japoneses" visitando o espaço do antigo " Eldorado Negro". Estacionam aqueles carros modelos novos nas estradas estreitas que ainda cortam a área, descem, olham em todas as direções, tiram fotografia e alguns fazem até usam filmadoras. Olhares tensos e pouca conversa, ninguém parece acreditar no que está a sua volta., pois a pujança deu lugar a uma paisagem monótona, onde a maior movimentação é feita agora pelo gado bovino que ocupa todo a região.

No bairro e em toda a área só restou um plantador de café, é o Sr. Katsumiti Irie. Ele ainda insiste em manter uma lavoura com 60 mil pés de café em 30 alqueires de terra. No período da colheita proporciona trabalho para cerca de 120 pessoas. Afirma que já tomou muito prejuízo com essa lavoura, pois quando não é a geada, é falta de chuva, ou ainda é o preço na venda que não compensa o investimento. Irie relembra com saudade de anos passados quando com apenas 160 sacas de café podia-se comprar um caminhão novo Mercedes Bens 1113, hoje essa mesma compra só é possível com a venda de 800 sacas de café.

De cerca de 600 famílias restam apenas 65 nessa área, que estão assim distribuídas pelos bairros: 44 no Novo Paraíso; 7 no Novo Tupã; 6 na Nova Promissão; 3 no Novo Horizonte e 5 no Novo Oriente.

Na área hoje existe somente uma escola de 1ª a 8ª Séries com apenas 98 alunos matriculados localizada no bairro Novo Paraíso.

Essa área passou do café para a pecuária, hoje temos as grandes fazendas e todas as famílias que ali residem estão ligadas a essa atividade, quem não cuida de gado; planta ou colhe brachiária para a formação de pastagens.

E assim foi e é a geografia do espaço da área da cultura do café em Mirante do Paranapanema, organizado e reorganizado de acordo com os interesses econômicos do capitalismo. A cultura do café trouxe, na verdade, riqueza para poucos, mas criou a possibilidade de um povo mostrar a todos os alicerces de sustentação de uma sociedade de sucesso. Parabéns, povo guerreiro e vencedor.

"Nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia"(Lulu Santos).