Martinlândia

O ESPAÇO NATURAL

 

A Martinlândia apresentava grandes contrastes em seu espaço natural; enquanto a "Velha" compunha-se de uma floresta exuberante, rica em árvores de madeira de "lei", como: peroba, ipê, guarucaia, cabriúva, amendoim, cedro e canjerana; solo de boa qualidade e propício para o cultivo de determinados gêneros agrícolas, como: arroz, milho e café; na "Nova" a paisagem natural era completamente diferente: áreas florestais apenas em algumas manchas nos espigões do terreno, solo arenoso e muito pobre em nutrientes básicos e matéria orgânica. Na maior parte desta área o domínio pertencia a formação vegetal nativa do "cerradão", composta por uma grande variedade de plantas, tais como: candeia (diversos arbustos cujo lenho pega fogo mesmo quando verde), leiteiro, caraguatá, taboca (bambuzinho armado de espinhos), arranha-gato; tudo misturado a um capinzal.

Em toda a Martinlândia, "Velha" e "Nova", eram encontrados animais silvestres como: veado, queixado, anta, cotia, macaco, onça, tatu, cobras. Muitos animais se alimentavam de frutas como: guabiroba, ingá, pitanga, jabuticaba e coquinhos.

Quanto às formas do relevo, o terreno é relativamente plano e a hidrografia muito pobre, principalmente na Martinlândia "Velha". Na Martinlândia " Nova" , com até quinze metros de profundidade encontrava água.

O Sr. Luiz Pereira afirma que quando tombava terra em determinadas áreas da Martinlândia "Velha", era comum revolver do terreno alguns objetos do tipo panelas de barro, e as pessoas diziam ser "coisas de índio". Isso sugere que ali, há tempos anteriores, fora habitado por indígenas.

 

O ESPAÇO GEOGRÁFICO

O espaço geográfico da Martinlândia tem sua construção iniciada em meados da década de 1940, com um fazendeiro nascido em 1886 no Estado do Rio de Janeiro, denominado Coronel Otacílio Nogueira, que em sociedade com o Dr. João Gomes Martins, Deputado Estadual e fundador de Martinópolis, tomaram posse em onze mil alqueires paulista de mata virgem localizados dentro da antiga Fazenda Cuiabá, no extremo sudoeste do município de Mirante do Paranapanema e divisa com o município de Teodoro Sampaio. Segundo a senhora Maria de Lourdes Camargo Nogueira, 75, nora do Coronel Otacílio, parte das terras foram "oferecidas" a seu sogro pelo Estado para fins de colonização. Ela afirma ainda que o Sr. Otacílio procurava apenas vender as terras e beneficiar grande parte das madeiras ali localizadas. As informações da Dona Lourdes se confirmam quando o fazendeiro constrói uma serraria em meio à mata densa e manda publicar em 23 de março de 1950, no Jornal O OESTE PAULISTA, de Santo Anastácio, um extenso anúncio de vendas de terras onde assegurava tratar-se de uma vasta e riquíssima área de terras cuja origem remontava ao ano de 1856... A terra se localizaria no Núcleo, Patrimônio e futura cidade denominada "MARTINLÂNDIA" Essa cidade seria dotada de todos os pré-requisitos técnicos e modernos, reservando-se áreas para praça e jardins públicos, avenidas, igreja, escola, praça de esportes, Santa Casa e outros melhoramentos. Além dos lotes, a cidade teria ainda chácaras, pomares e granjas. Lotes especiais, com área mínima de 10 000 m2, seriam preservados para tais finalidades e cultivo de hortaliças, legumes, frutas, criação de aves e gado de pequeno porte. A futura cidade contaria ainda com um laticínio para industrializar ali mesmo o leite produzido nas fazendas.

 

Há fontes que sustentam que a posse do Coronel Otacílio chegou a quinze mil alqueires. Por outro lado também, antigos trabalhadores da fazenda, como o Sr. Luiz Pereira Ramos, "Luiz carroceiro", 75, assegura que o Sr. Otacílio nunca teve "jagunços", o que não deixa de ser estranho à "grileiros" daquela época. Pelo "clima" somos levados a crer que para dominar aquela área, o Sr. Otacílio, com certeza teve que se valer dos chamados "jagunços", apesar de todas as "amabilidades" reconhecidas pelos amigos e parentes.

Desde essa época, até morrer, o Sr. Otacílio sempre morou na cidade de São Paulo, segundo a Dona Lourdes, o seu maior sonho era um dia adquirir um avião e diretamente administrar suas fazendas.

Muito antes de fixar seus domínios na Martinlândia, o Sr. Otacílio possuía fazenda em Xavantes, cidade perto de Ourinhos. Foi nessa fazenda de café, ainda no final da década de 1920, que o Sr. Kosuke Endo encontrou seu primeiro emprego assim que chegou ao Brasil. Portanto não foi por casualidade que os dois velhos amigos vieram delimitar territórios próximos um do outro num mesmo momento.

"O Otacílio tinha um respaldo muito grande de políticos. Foi um homem admirável, cavalheiro", conta Dona Lourdes.

Em 1949 o Coronel Otacílio comprou a parte das terras pertencentes ao Dr. João e pouco tempo depois, em 27 de setembro de 1956, veio a falecer. Ele foi casado com Dona Sofia, o casal teve nove filhos, dos quais hoje só um é vivo, é o Wilson que mora em Xavante.

"Ninguém perdeu terra que comprou do Sr. Otacílio, a família dele foi muito ingrata comigo, mas o que é a gente tem que falar. Eu corria picada, cuidava do gado e fui guarda da serraria. Judiaram de mim à vontade, agora que eles foram honestos, foram" (Luiz Pereira Ramos,75).

 

POR QUE MARTINLÂNDIA?

 

Segundo Dona Lourdes, quem deu o nome àquelas terras foi o Dr. João Gomes Martins, a pedido do próprio Coronel Otacílio Nogueira. Influenciado pela grande homenagem recebida em 1938, quando o antigo povoado José Teodoro de nossa região passou a se chamar Martinópolis ("Cidade de Martins"), em sua homenagem, o Dr. João se empolgou de uma tal maneira que não hesitou em homenagear agora a si próprio nessas novas paragens e escolhendo o nome de MARTINLÂNDIA ("Terras de Martins" - land em inglês significa terra).

No início a colonização limitava-se Martinlândia Velha, localizada entre o bairro Novo Paraíso e a cidade de Teodoro Sampaio. Em decorrência das dificuldades de sobrevivência encontrada ali, onde poços escavados com até 115 metros de profundidade não "davam" água. Segundo os "furadores" nessa área, em determinada profundidade havia a formação de gases tóxicos e se a pessoa não fosse retirada imediatamente, corria sérios riscos de morte. Alguns mais experientes jogavam galhos verdes de mandioca para dentro do poço para tentar "cortar" um pouco os efeitos desses gases.

Diante dessa situação, o Sr. Otacílio procurou logo organizar outro povoado, mais próximo de um curso de água, no caso, o Ribeirão Nhancá, distante dali cerca de seis quilômetros. Ele até aventou a possibilidade de canalizar água do Ribeirão Cuiabá para o povoado, mas a previsão de custos, cerca de oitocentos mil cruzeiros, inviabilizou o projeto. A água para o consumo doméstico continuou sendo buscada em tambores em cima de caminhões no Ribeirão Nhancá, como procederam logo depois também os moradores do Bairro Novo Paraíso.

 

MARTINLÂNDIA OU MARTILÂNDIA?

 

Originalmente o nome da área em destaque é Martinlândia, colocado pelo Dr. João Gomes Martins, o qual me referi no texto anterior. Em matéria de divulgação das vendas de terras daquela área, o jornal O OESTE PAULISTA, de Santo Anastácio, em edição de 23/03/1950, aparece "Martinlândia". Com o tempo as pessoas, como ocorreu também com outros bairros deste município, até quem sabe, para facilitar a pronúncia, foram tirando o primeiro "n", tanto na linguagem falada como também na escrita. Na escola do patrimônio, já década de 1960, os professores ensinavam para os alunos "Martilândia" e não mais "Martinlândia". Fatos semelhantes ocorrerem com outros bairros do município: Lituânia é conhecida como "Leitoana"; Húngaros, a maior parte das pessoas pronúncia "ungareis", até mesmo os próprios imigrantes assim pronunciam; Bessarábia como "Bissarábia"; o bairro Vila Vasconcelos, na cidade de Mirante do Paranapanema, é chamado por muitos de "Vila Seca".

Estes fatos acabam se tornando extremamente importantes para o resgate histórico, pois eles comprovam que a organização e evolução do espaço geográfico se constroem de acordo com a cultura, grau de conhecimento, interesses e os pensamentos dos agentes que nele agem.

 

DAS ÁRVORES NASCEU UMA INDÚSTRIA E UM PATRIMÔNIO

 

A Martinlândia Nova foi único bairro de Mirante do Paranapanema que não teve a agricultura como elemento definidor na organização de seu primeiro espaço geográfico. Em seus arredores, a natureza, dentre outros elementos, criou árvores, e servindo-se de máquinas, ferramentas e trabalho, o homem a transformou em riqueza para poucos.

Quem produziu o arranjo territorial da Martinlândia Nova foram a madeira e a água. Devidamente constatada a carência de água na Martinlândia Velha, o Coronel Otacílio Nogueira se empenhou em buscar alternativas para seu intuito de lucro. A "Nova", estabelecida às margens de um ribeirão, favorecia a organização de um grande empreendimento ligado à facilidade pela água. A Martinlândia "Velha" entraria com a matéria-prima vindA da floresta e o homem completaria aliando trabalho e tecnologia. E assim surgiu bem no início da década de 1950, em meio à vegetação nativa e distante a mais de cem quilômetros da cidade mais próxima, uma das mais modernas indústrias extrativa de vegetal dessa região – uma serraria - e um dos patrimônios mais dinâmico e festivo do município de Mirante do Paranapanema.

Para transportarem os produtos produzidos pela serraria até Santo Anastácio, a cidade mais próxima e sede do município na época, o Sr. Otacílio, em parceria com o prefeito abriu a estrada, da Martinlândia a Mirante do Paranapanema, hoje chamada de " Estrada Velha" de Teodoro Sampaio". Para essa obra o Sr. Otacílio adquiriu até uma máquina esteira.

"Ninguém da família do Otacílio Nogueira plantou alguma coisa na Martinlândia; o negócio deles era negociar terra, tirar toras do mato, vender madeira e criar gado" (Luiz Pereira Ramos, 75).

 

A SERRARIA, UMA INDÚSTRIA EXTRATIVA

 

A serraria era tocada a lenha e uma caldeira, abastecida com água de um pequeno córrego próximo, movimentava uma dezena de serras para produzir diferentes produtos de madeira como: caibro, tábua, viga, balaústre, ripa, vigota, dormente e até assoalho para casa em tábua e taco.

Inicialmente os produtos eram transportados em caminhões até Santo Anastácio e de lá seguiam nos vagões da Estrada de Ferro Sorocabana para São Paulo e outras grandes cidades do Estado. Na segunda fase de funcionamento da serraria, de 1959 a meados da década de 1960, a entrega foi na estação de Mirante do Paranapanema, através do ramal ferroviário de Dourados. Segundo o Sr. Roldão Ribeiro, 60, a serraria tinha cinco caminhões para transportar as toras da mata e os produtos vendidos. Quase todo o dia de trabalho, era completado com duas a três cargas de mercadorias que iam sendo depositadas nos pátios das estações à espera dos vagões.

"Normalmente eram dois caminhões trabalhando no mato. Cada caminhão carregava em média sete toras por vez; tinha deles que faziam até três carretos por dia. Acontecia dos peões cortarem mais de cinqüenta árvores num só dia. Toda a madeira da fazenda, cerca de onze mil alqueires, foi transformada naquela serraria. Trabalhavam cerca de trinta pessoas cortando árvores e no transporte; e mais umas trinta na serraria. Sempre ficavam na explanada (depósito) da serraria, numa área de aproximadamente dois mil metros quadrados, uma reserva de cerca de mil toras" (Roldão).

 

Naquela época as árvores na mata eram derrubadas através de traçadores, uma espécie de serra manual de lâmina larga, provida de grandes dentes, com cabos nas extremidades, manobrada por dois operadores.

Nas proximidades do patrimônio, com formação de "cerradão", não se encontravam madeiras para a serraria, elas precisavam ser extraídas da Martinlândia Velha, dos Três Morrinhos e dos espigões do terreno.

Funcionou também no patrimônio uma máquina de beneficiamento (tirar a casca) de café dando serviço a vários trabalhadores. Esta firma funcionou mais com o café produzido no Norte do Paraná.

Com a morte do Coronel Otacílio Nogueira em 27/09/1956, suas posses entraram em inventário e a serraria parou; vindo a funcionar somente em 1960.

 

O PATRIMÔNIO

 

Os primeiros trabalhadores para a serraria, a maioria composta de solteiros, o Sr. Otacílio trouxe de Xavante. Ele construiu moradias próximas à serraria para seus familiares e com isso foi atraindo comerciantes e organizando ali um patrimônio com cerca de trinta casas residências e um comércio muito diversificado, com vários armazéns, farmácia, padaria, bazar, açougue, botecos, farinheira, pensão, barbeiro e até máquinas de beneficiamento de arroz e café. O patrimônio contava ainda com escola, igreja e campo de futebol. A maior parte dos moradores dali era composta por nordestinos, mas existiam também espanhóis, mineiros, italianos e paulistas.

"Quem não se lembra da pensão da Maria "Redondinha". Nos idos de 1952, ali se instalaram o senhor Levino Pereira, sua esposa dona Maria Pereira e cinco de seus filhos. Outros três nasceram ali no Patrimônio. Foram contratados para que fornecessem refeições aos empregados da serraria, que eram em sua maioria solteiros; e pessoas interessadas em conhecer as terras e possíveis compradores. Essa pensão tornou-se no ponto de encontro dos pioneiros que circulavam por essa região, era muito difícil encontrar alguns deles que não a conhecesse" (Maria de Lourdes Camargo Nogueira, 75).

 

Segundo relatos de todas as pessoas entrevistadas, que trabalharam, moraram ou conheceram o patrimônio da Martinlândia Nova, ali foi, nas décadas de 1950 e 60, um dos locais mais festivos no município; quase todos os finais de semana ocorriam bailes; e uma vez por mês tinha missa e quermesse. Na véspera do dia de Santo Antônio, padroeiro do patrimônio, a família Nogueira fazia um grande churrasco, chegando a matar numa das festas, oito bois. Quem afirma ter ajudado a matar todos esses bois é o Sr. Luiz Pereira Ramos, que na época era funcionário da fazenda. As pessoas que participaram dessas festas, dizem que o patrimônio era todo enfeitado, principalmente a estrada para Teodoro Sampaio que passava dentro do patrimônio.

"Era um tempo muito bom; quando a gente é jovem tudo é bom, tudo é bonito"(Dona Lourdes).

 

E O SONHO ACABOU...

 

Assim como aconteceu com moradores de outros patrimônios do município, as da Martinlândia Nova também sonhavam que ali um dia poderia virar uma cidade, mas ...

Com a morte de Benedito Pinheiro Nogueira, o "Benê", esposo da Dona Lourdes e filho do Coronel Otacílio, ocorrida em 1966, os negócios da família Nogueira ali estavam um tanto sem direção e já pouco interesse despertava pelos herdeiros da família pela continuidade da serraria. Para complicar a situação os funcionários, descontentes pelos seguidos desmandos, carência de direção, sem perspectivas e ganhando menos de um salário mínimo por mês, fizeram uma greve. Em plena implementação do regime repressivo militar no Brasil e ao estilo dos sindicatos dos metalúrgicos do ABC nos bons tempos, o movimento, que teve como líder Antônio Rosa, desligaram a caldeira da serraria e ocuparam a sede da fazenda. O administrador da fazenda, Sr. Oiti, sabendo antecipadamente do movimento, chamou o Dr. Carlos Nogueira que estava em Xavante, que naquele momento estava como patrão da serraria. Este chegou e radicalizando com os grevistas, mandou fechar a serraria naquele mesmo dia e despediu todos os funcionários, que nem registros em carteiras de trabalho possuíam. Nunca mais funcionou a serraria naquele local, tempos depois os maquinários foram vendidos e retirados dali.

E assim de modo repentino foi se embora, não só a serraria, mas também o sonho de muita gente de ver um dia o patrimônio ser transformado numa cidade. Os trabalhadores, que ali pelejaram duramente por muitos anos, e que continuaram morando nas proximidades, não podiam acreditar no que estava acontecendo. Em cada máquina daquela, em cada caminhão, mata e até mesmo em cada tora que permanecia apodrecendo naqueles pátios, armazenavam um pedacinho de suas próprias histórias. Até hoje ainda lá existe um caminhão, que em bom estado de funcionamento foi abandonado no pátio da serraria naquele dia.

Essa, com certeza foi a primeira greve que se tem notícia no município de Mirante do Paranapanema, infelizmente com um final melancólico.

Um outro fato, destacado por todos os entrevistados, e que merecerá posteriormente um texto à parte, que muito contribuiu ao mesmo tempo para o sucesso e o fracasso do patrimônio, foi o Sr. Severiano, o (a)fundador do bairro Severiano localizado também na estrada que liga Mirante a Teodoro Sampaio.

 

As aparências enganam Esta é hoje a imagem do córrego que alimentava com 

água a caldeira da serraria da Martinlândia; totalmente assoreado

dá a impressão de possuir um grande volume de água.

 

A LUTA PELO ESPAÇO Funcionários da Fazenda da Martinlândia ao lado do caminhão Internacional CB7, óleo cru, ano 1951, abandonado até hoje após greve de funcionários da serraria em 1966. Árvores nasceram por entre a carroçaria e cabina do caminhão e procuram ocupar o seu espaço

 

"Judiaram de mim à vontade, agora que eles foram honestos,

foram" (Luiz Pereira Ramos, 75; morador da Martinlândia de 1952 a 1967)

 

 

SÓ PASTAGENS Hoje esta é a paisagem do local onde

existiu o patrimônio da Martinlândia Nova

 

Roldão Ribeiro, 60, funcionário da serraria de 1959 a 1966, participante

da primeira greve no município de Mirante do Paranapanema.