Barra Funda

 

Observando hoje a paisagem do bairro "Barra Funda" não temos a menor idéia do que ele foi e representou para a economia e a história de Mirante do Paranapanema. A visão monótona contrasta com o período dinâmico compreendido do final dos anos 40 até meados a década de 1970. Nada mais resta da vegetação nativa, o espaço agrícola deu lugar às pastagens para o gado, o solo fértil e conservado, hoje se apresenta pobre e erodido, um campo de avião, que recebeu autoridades importantes do país e até aeronave da FAB (Força Aérea Brasileira), teve que ser interditado, pois estava sendo usado também para o tráfico de drogas. O que também contribuiu para o fechamento foi queda de um avião monomotor que costumava fazer vôos panorâmicos pela região. Nos últimos anos parte desse campo foi transformada em lixão da cidade e, à noite, em motel "à luz da lua e das estrelas" e em local de encontro de traficantes, sendo que no restante funcionou até recentemente uma hípica, atualmente parece estar abandonado. Antes da construção do campo, o local fora utilizado como campo de futebol e realizações de muitas festas populares.

O movimento intenso de caminhões de algodão, amendoim e de trabalhadores no passado, foi substituído por um tímido vai e vem diário de "sem terra" em bicicletas, carrinhos com animais ou em automóveis, quase todos em péssimo estado de conservação.

Um bairro que abrigou ao mesmo tempo mais de trezentas famílias agrícolas hoje, sem contar os "sem terra", que estão em fase de assentamento, não mais do que com menos de 50 proprietários, sendo que a maior parte é formada por pequenos sitiantes e donos de chácaras.

 

 

OS PRIMEIROS: GRILEIROS

No próximo texto, que será sobre a "Água da Prata", estaremos detalhando, a região sudeste do município sobre: a "grilagem" de terra, o "Ramal de Dourados" e Mapa Cartográfico da área.

O grileiro Ventura Basto de Cafelândia-SP, foi o primeiro, depois do Dr. Labieno, a se apresentar como sendo dono das terras que se estendem desde a cidade de Mirante do Paranapanema até o Ribeirão Pirapozinho. Como o Dr. Labieno tinha jagunços, acabou expulsando-o da área. Mesmo assim outros grileiros, menos apetitosos, acabaram se estabelecendo, tais como: Adalberto Marques (Fazenda Izabel), Dr. Libório ( tinha sede de fazenda onde foi construída a estação ferroviária) e o Dr. Anacleto. Esses grileiros penetravam na área através da chamada "Estrada Brasileira", que vinha de Pirapozinho e Tarabai, no território que hoje pertence ao município de Sandovalina, beirando o Rib. Pirapozinho e prolongava até o chamado Porto Ceará, na barranca do Rio Paranapanema. Todos esses grileiros, logicamente, sonhavam em abarcar grandes extensões de terras, mas quem acabou vendendo a maior parte da área foi o Dr. Labieno, através do Corretor Iraku Okubo, que inclusive ali foi também proprietário de terra e agricultor.

 

 

O NOME DO BAIRRO

Alguns pioneiros, como o Sr. Agripino Leite Barbosa, 75 anos, que chegou no bairro em dezembro de 1947, sugerem a existência de duas "Barras Fundas", uma velha e uma nova. A "velha" se localizaria na região centro-sul do bairro e a "nova", nas proximidades do campo de aviação, na área mais alta do bairro, no extremo norte e leste. Na verdade grande parte do que hoje é conhecido como "Barra Funda", originalmente, ou seja, nas escrituras emitidas pelo Dr. Labieno, era identificada como sendo "Gleba Seca". No final da década de 1940, muitos chamavam a "Barra Funda Nova" de "Ponte Quebrada". Isso porque, o nome "Barra Funda", segundo pudemos concluir, foi dado por um proprietário (grileiro?) que não comprou terra do Dr. Labieno, que segundo afirmam, tinha uma autorização de posse dada pelo Cartório de Santo Anastácio. Segundo a Dona Nair Pereira Gomes, 71 anos, residente em nossa cidade, quem colocou nome de "Barra Funda" (que no caso seria a "velha"), foi o seu pai Vicente Pereira Pardim, mineiro, já falecido. Sua família chegou quando tudo praticamente ainda era mato, em 1944. O seu pai tinha autorização do Cartório para explorar 15 alqueires, mas acabou estendendo a área para 35 alqueires. Ainda segundo a Dona Nair, o nome teve origem em 1948 em decorrência da chegada na área de migrantes nordestinos. O seu pai chegou a arrendar terras para seis famílias desses migrantes para que plantassem algodão. Outros proprietários também foram instalando mais famílias. Os migrantes chegavam praticamente sem quaisquer vasilhames domésticos. Como na propriedade do Sr. Vicente havia um barro preto, bastante argiloso e úmido, esses nordestinos, que dominavam o conhecimento e tinham habilidades nessa arte, passaram a fabricar, a partir daquele barro, utensílios como panelas, travessas, frigideiras e até vasos para flores e arranjos de enfeites. Devido a esse barro, que ficava no fundo de um vale - antigo córrego "Barra Funda" -, derivou o nome "Barra Funda". Segundo também apuramos, o Sr. Vicente não tinha ambição de que fosse futuramente, o nome de um bairro.

A maior parte da "Barra Funda", apresentava, antes da grande derrubada, água muito profunda, poços escavados com mais de 150 palmos apresentavam secos. Com a derrubada da mata a água foi surgindo. Nem o atual Córrego da Barra Funda, existia quando tudo ainda era mato. Foi em seu vale que construíram a chamada "Ponte Quebrada". Os primeiros habitantes do bairro buscavam água no Córrego da Figueira para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupas.]

 

ATIVIDADES AGRÍCOLAS

A Dona Nair conta também que no ano em que chegou - 1944 -, sua família se alimentou apenas de palmito de coqueiro e da caça de animais. Naquele ano plantaram hortelã e alambicavam na Figueira com o Sr. Iraku Okubo. Em 1946, uma praga de gafanhotos acabou com tudo que estava plantado.

O grande desmatamento da "Barra Funda" ocorreu nos anos 1948/49, com migrantes nordestinos, principalmente sergipanos, mas também havia cearenses e baianos e algumas famílias de migrantes mineiros.

A grande lavoura do bairro foi, como em todo o município, o algodão. Como afirma o Sr. Agripino "No espaço ocupado pelo capim no município foi todo plantado algodão. Apesar de não produzir bem como hoje, a gente ganhava dinheiro com o algodão, porque praticamente não tinha despesas. Se a plantação daquele tempo produzisse como hoje, era tanto algodão que ninguém iria dar valor".

Depois do algodão, o amendoim também foi bastante cultivado no bairro, que apesar das pragas, representou uma boa cultura.

A mandioca também foi cultivada para a produção da farinha e até farinheiras existiam no bairro.

O arrendamento e trabalho com peões, foi uma prática nas relações sociais de trabalho.

O bairro teve também uma escola, dois botecos e ainda tem uma fábrica de rapadura.

 

APARECEU A BRACHIÁRIA

Segundo o Sr. José Domingos de Souza (Zé Cassiano), 70 anos, as primeiras pastagens com brachiária no Município de Mirante do Paranapanema e na região oeste do Estado de São Paulo, foram formadas no Bairro "Barra Funda", mais precisamente na Fazenda Santa Izabel em 1975. O Dr. Lico, morador em São Paulo, mandou formar 200 alqueires deste pasto e no ano seguinte, quando o Sr. João Teixeira Filho, adquiriu a fazenda e o Sr. José Domingos foi administrar, este deparou com aquela planta exótica e totalmente desconhecida por aqui. Após cientificarem da riqueza encontrada, ele e seu genro, Nelson Sobral de Vasconcelos, passaram a colher aquelas sementes. A partir daí a brachiária decumbens se espalhou por todos os cantos do município, do estado e do Brasil. Na região foi a salvação para quem queria investir em pecuária.

 

LAMBEDOURO, O QUE É ISSO?

Um fato bastante curioso no bairro "Barra Funda", foi a existência de lambedouros de animais, também chamado de "Barreiro das Antas". Quando tudo era praticamente mato, determinados animais silvestres como a anta (principalmente), o porco-do-mato, o veado e a capivara, vinham lamber a terra em determinados locais. Interessante foi que depois os animais criados, como bois, lambiam também nesses locais. Talvez, como é comum no nordeste, ali existisse uma maior concentração de algum tipo de sais. Em função disso chegou a formar imensos buracos no terreno. Este fato foi relatado por pessoas respeitadas como Francisco Bezerra, João Vieira de Melo e a Dona Nair. No sítio do Sr. Saito, que fazia divisa com o seu, bem ao lado do hoje Córrego da Barra Funda, o Sr. João Vieira afirma que existiu um desses lambedouros. No sítio do Sr. Bezerra também havia outro.

 

FATOS MARCANTES

O campo de avião, construído pelo prefeito Francisco Cândido Marcolino (Nenca) em 1974, com extensão de 1200 m, foi palco de alguns acontecimentos que fizeram história.

No dia 24/06/1984, um avião bimotor, pilotado por Aurinos Nogueira, com três tripulantes que fazia um vôo panorâmicos sobre nossa cidade, começou apresentar problemas. Não houve tempo para o piloto retornar com o aparelho ao campo de pouso e este acabou caindo nas proximidades da pista, quase levando à morte todos os que dentro estavam. O Prof. José Carvalho de Farias era um dos tripulantes, que apesar dos ferimentos, escaparam todos com vida.

No dia 10/01/1985, foram apreendidos 330,9 quilos de maconha em forma de tijolos, trazida por um avião que fugiu. A droga estava sendo cuidadosamente colocada num tanque falso de uma jamanta. A polícia local, astutamente e em flagrante, apreendeu a "mercadoria" que poucos dias depois foi incinerada nos fornos do Laticínio Resplendor.

O pioneiro Agripino L. Barbosa em sua fábrica de rapaduras no ano 2000

João Vieira de Melo (João Geremias) e Maria Nazaré - Pioneiros do Bairro "Barra Funda"

Profª Lúcia da escola "Barra Funda" - 1958 a 1961

 

D. Nair Pereira Gomes, 71 anos, pioneira da

Barra Funda onde chegou aos 10 anos.