Água do Repouso

 

A construção do espaço geográfico do bairro "Água do Repouso", em Mirante do Paranapanema, é uma extensão do bairro Água da Saúde e uma entrada para o bairro "Pica-Pau", dada as características do processo de ocupação que os identificam: época de fundação (década de 1940), ocupação (imigrantes), cultura agrícola (hortelã e algodão), importância econômica (grande produção), estrutura agrária (pequenos proprietários), relações de trabalho (familiares, "peões" e arrendamento) e o mesmo destino (decadência agrícola e pecuária). O conjunto formado pelos três bairros constituiu o maior centro populacional e produtor de alimentos e de algodão deste município nas décadas de 1940 a 1960.

O início

O nome "Água do Repouso", tem uma origem incerta, alguns pioneiros sugerem que foi em função de existência de uma casa, no início da ocupação, onde as pessoas que chegavam em busca de compras de terras ou trabalho, pernoitavam ("repousavam"). É sabido que nesta época não existia no bairro "Água da Saúde" nenhum local que pudesse prestar esse tipo de serviço aos forasteiros. Mas a Dona Ozenir Alves Gomes, 75 anos, dona desta referida casa, não confirma essa tese e desconhece a origem do nome, entretanto, admite que as pessoas tenham feito esse tipo de relação.

O primeiro morador do bairro foi o paulista, Sr. Benedito, Administrador do Dr. Labieno da Costa Machado. Sua família numerosa morava em uma casinha de coqueiro coberta com sapé numa pequena abertura no meio da mata. Ao redor da casa eles plantavam mandioca, milho e feijão, apenas para a subsistência. Quando a Dona Ozenir chegou, em 1944, com seu esposo, Valério, era o que existia no bairro. Nesse ano o Senhor Valério Pereira Gomes, comprou do Dr. Labieno 35 alqueires de terra, toda coberta de mata virgem, derrubou uma pequena área e plantou inicialmente gêneros alimentícios e hortelã. Chegou a plantar, nos anos seguintes, até cinco alqueires de menta de uma única vez e a possuir dois alambiques, onde também destilava o óleo para agricultores da Água da Saúde que levavam, em carros de boi, as plantas cortadas.

 

Daniel Bitencurte o precursor do "pau-de-arara"

O primeiro caminhão de "pau-de-arara" a chegar no município de Mirante do Paranapanema não foi de nordestinos e nem de trabalhares para as lavouras de algodão. Foi de mineiros e para cultivar a hortelã no bairro do Repouso. Naquela época ninguém sonhava com uma cidade do porte de Mirante do Paranapanema, até porque toda esta área pertencia ainda a Santo Anastácio. Coube ao Sr. Daniel Bintencurte o "privilégio" de ser o primeiro "importador" desse tipo de mão-de-obra. Chegou no Bairro em 1945, com sua numerosa família, 16 filhos, comprou 150 alqueires de terra, começou a desmatar e a plantar hortelã. Como essa cultura voltou a ser um bom negócio depois da grande "febre" e crise do início daquela década (recuperação do preço do óleo no mercado internacional), o Sr. Daniel buscou cultivar uma grande extensão de terra e ganhar muito dinheiro, mas lhe faltava mão-de-obra. Resolvendo o problema, comprou um caminhão e foi procurar trabalhadores em sua terra natal, Minas Gerais. O primeiro grupo de "pau-de-arara" chegou no bairro em 1947. Foram várias viagens até conseguir alojar em sua propriedade cerca de cinqüenta famílias. Inicialmente tinham que derrubar a mata o que era um trabalho dispendioso. Na época foi um dos maiores plantadores dessa cultura exótica deste município, cultivando cerca de quarenta alqueires e possuindo vários alambiques. Nos anos seguintes os negócios começaram ir de mal a pior. Os gastos com a manutenção das famílias, os custos com a cultura aumentando e a produção de óleo não sendo a esperada, nos anos seguintes o Sr. Daniel só acumulou prejuízos. As famílias cultivavam a hortelã "`a meia" com o proprietário da terra, ou seja, este ficava com a metade da produção ao final da colheita. Quando os negócios começaram a despencar, segundo afirmam, os Sr. Daniel começou a ficar com mais da metade da produção de óleo dos "meeiros. Isso acabou trazendo um grande desconforto para essas famílias, pois não podiam cultivar alimentos nas terras do patrão. Não tardou muito o proprietário acabou abandonando à sorte todo esse pessoal que veio tentar melhorar de vida em lugares tão distantes e de poucos recursos. Quase todas as famílias foram embora desiludidas, algumas caminhando até Santo Anastácio, numa viagem penosa de vários dias, com os maiores levando as crianças nas costas. O Sr. Daniel também acabou desaparecendo depois de vender sua propriedade para o Sr. Onishi (Nichão), e segundo a Dona Ozenir ouviu dizer, "morreu pobre em conseqüência das muitas "pragas" daquelas pessoas sofredoras".

Valério Pereira Gomes e Vergílio Agneli

Não se pode falar ou escrever sobre "Água do Repouso" sem vir à memória dois expoentes pioneiros, infelizmente já falecidos, Valério Pereira Gomes e Vergílio Agneli ("Duda") respectivamente em 1987 e 1998. O primeiro chegou em 1944 e o segundo em 1945. O senhor Agneli adquiriu 15 alqueires de terra (mata) do Dr. Labieno. Foram os primeiros a plantar hortelã no bairro, o Sr. Valério chegou a plantar dois alqueires e a possuir dois alambiques. Assim como os demais plantadores, nada ganharam, apesar do esforço e sofrimento dispendido com essa cultura. Segundo relatos do Sr. Agneli e da Dona Ozenir, os primeiros anos no bairro foram de muito sofrimento, as picadas de insetos do mato provocavam feridas "bravas", a falta de assistência médica e a ausência de estradas, causavam constantes aborrecimentos. A Da. Ozinir mesmo chegou a perder quatro filhos recém-nascidos, com doenças que hoje dificilmente levariam à morte. "Em 1949, tinha o caminhão do Ferré, que com uns bancos em cima da carroçaria carregava o pessoal até Santo Anastácio, era apelidado de "cachorro louco", pois só andava no meio do mato" (Vergílio Agneli, in memorian). As habitações eram precárias, de coqueiro e sapé e ao lado dos córregos, onde ficavam os alambiques, a presença de cobras venenosas era sempre uma ameaça.

"Fartura que perdia"

Se as condições de saúde eram precárias no bairro, a produção de alimento era farta. "Havia fartura que perdia no Bairro"(Ozenir). "O arroz maduro perdia na roça, não havia gente para colher e se colhia não tinha estrada para transportar e nem preço para vender na cidade" (Agneli). De gêneros alimentícios produzia-se, além do arroz, mandioca, feijão e milho. Na divisa com o bairro Cuiabá Paulista, no famoso "Cafezinho", chegou a ter uma plantação de café, numa área de aproximadamente dez alqueires, mas o solo não era propício a essa cultura e acabou não produzindo praticamente nada. Plantado em 1948 em 1952 já estava sendo arrancado para o plantio de algodão.

A cultura do algodão

O bairro "Água da Repouso", semelhantemente aos bairros Água da Saúde e Pica-Pau, alcançou seu apogeu com a cultura do algodão entre os anos 1952/58. Em determinadas áreas do bairro chegou a produzir mais de quatrocentos arrobas deste produto por alqueire. Dividido em pequenas propriedades, segundo afirmam alguns moradores, o bairro chegou a possuir, em um mesmo ano, mais de trezentos produtores de algodão, incluindo proprietários e arrendatários. Faltava mão-de-obra para a cultura algodoeira, foi quando incentivou a vinda imigrantes nordestinos que chegavam de vários Estados nos famosos caminhões "pau-de-arara". Quando começou a decadência do algodão, estimulados pelas máquinas algodoeiras de Mirante do Paranapanema, muitas agricultores começaram a plantar o amendoim, mas segundo o Sr. José Quintino de Oliveira, 67 anos, "o nordestino não conhecia e não sabia cultivar este produto". Realmente a cultura que o nordestino mais se deu bem foi com a do algodão. Mas a falta de conhecimento das características físicas específicas do solo desta região, aliado a forma produtiva da cultura algodoeira, baseada essencialmente no arrendamento das terras e na mão-de-obra do "peão", levou em poucos anos a decadência dessa cultura, não neste bairro, mas em todo este município. Sendo a cultura algodoeira uma das mais nocivas ao solo em menos de uma década, áreas que produziam cerca de trezentas arrobas por alqueire não chegava a produzir mais do que cem. Aliadas ao enfraquecimento do solo temos o surgimento da formiga saúva e "quem-quem", e outras pragas como lagartas, pulgão e "murcha". "Algodão dava dinheiro porque a despesa era pouca" (José do Nascimento Sobrinho, 78 anos). "Eu nunca adubei terra, se fosse para adubar eu deixava de produzir, como deixei. Adubar só dá prejuízo" (Joaquim Franceline de Andrade, 76 anos). Com a inviabilidade de continuar plantando algodão ao arrendatário só restava uma alternativa, buscar terras novas nos Estados do Paraná ou Mato Grosso do Sul, ou ir morar na cidade e transformar-se em "bóia-fria", o que foi o fim da maior parte deles. O pequeno proprietário, descapitalizado, ficou também praticamente sem alternativas: plantar pastagem e criar gado de reprodução economicamente não dava para sobrevir, gado leiteiro não tinha quem comprasse o leite como hoje, a única solução era vender a propriedade para os fazendeiros que conseguiam com apenas uma pessoa cuidar de um grande número de cabeças de gado e tentar outra coisa. Muitos ficaram foi sem propriedade e sem dinheiro e mudando-se para a cidade também acabaram se tornando "bóia-fria". Se o solo estava fraco para a agricultura, para a formação do colonião ele ainda mostrava-se muito propício. Com isso já em 1965, exuberantes pastagens já tomavam conta de grande parte do bairro. Hoje poucas famílias moram no bairro e o processo de assentamento dos chamados "sem-terra" já está em franco andamento e no local do antigo povoado nada restou que possa comprovar hoje o seu dinamismo de cinqüenta anos atrás.

O que ajudou no progresso do Patrimônio do Repouso e por outro lado prejudicou o da Água da Saúde, foi a construção de uma nova estrada de rodagem pelo prefeito do município, José Quirino Cavalcante, em 1957, ligando a sede Mirante do Paranapanema com o Distrito de Cuiabá Paulista. Com um trajeto mais curto aumentou o movimento de carros e pessoas entre as duas localidades que necessariamente tinham que passar pelo patrimônio. Como se pode constatar pela planta do Patrimônio, em 1956 ele chegou a possuir várias casas residenciais (de 20 a 25) e comerciais, além de centro religioso, educacional e de entretenimento.

SAUDADES DA ESCOLA - O Sr. Ivo Agneli, 53 anos, indica com a mão direita o local, entre as árvores, onde foi o Patrimônio "Água do Repouso" na década de 1950, como se observa, hoje virou pastagens.

Valério Pereira Gomes pioneiro na Água do Repouso, onde chegou em 1944