Água do Mastro

 

Resgato hoje a história do bairro "Água do Mastro", localizado na região sul do município à cabeceira da "Água da Prata", fazendo divisas com os bairros "Mil Alqueires" e "Barra Funda". É uma história fascinante que pouca gente conhece. Sinto-me honrado por este trabalho, pois aí nasceu um grande amigo que muito tem contribuído com a minha pesquisa sobre Mirante do Paranapanema.

O destino do bairro "Água do Mastro" foi fortemente determinado pela ocupação de imigrantes japoneses, que muito ligados à agricultura, retardaram a entrada do bairro à prática da pecuária. A cultura do algodão se prolongou até o final da década de 1960, quando o solo já estava muito fraco e as pragas daninhas encareciam os custos da produção.

Como é característico desses imigrantes, com a decadência agrícola do bairro praticamente todos migraram para outros municípios. Os migrantes nordestinos que permaneceram ficaram descapitalizados e sem condições de investir na pecuária, acabaram vendendo as propriedades e também deixando o bairro na década de 1970. "O segredo para ter sucesso com lavoura é não arriscar nela todo o seu lucro. É trabalhar como um leão, mas usar a inteligência e investir também na pecuária" (Raimundo Batista da Costa, 65 anos - Pioneiro do bairro).

 

O bairro teve como destaques as culturas, inicialmente da hortelã e posteriormente da batata inglesa, do algodão, do amendoim e da mamona. Hoje, as terras que resistem às desapropriações são ocupadas pela pecuária leiteira e de corte.

 

INDÍGENAS: OS PRIMEIROS HABITANTES

O Sr. Natenor Rossete, 81 anos, conta que quando começou a tombar determinada área de sua propriedade no bairro, localizada acima da nascente do Córrego "Água do Mastro", revolveu do solo algumas peças parecidas com vasos e panelas de barro. Segundo confessa tudo levava a crer que seriam urnas e utensílios de indígenas que em alguma época habitou nesse bairro. A floresta naquela área era muito rica em frutas silvestres como, gabiroba, pitanga, araticum-do-mato, coquinho e jabuticaba. O Ribeirão Pirapozinho, que ficava próximo, era muito rico em peixes e animais do mato, que podiam ser caçados para alimento, como: capivara, porco do mato e lontra.

Sr. José Xavier, (in memorian), confirmou a existência de indígenas nesta região, quando fazia picadas para demarcar as terras do seu patrão, Dr. Labieno.

 

 

A PRIMEIRA OCUPAÇÃO DO "HOMEM BRANCO"

O desmatamento e ocupação do bairro tiveram início em 1943 com a chegada do Sr. Nakahashi. Para aproveitar a água de um córrego, esse imigrante japonês montou um alambique para destilar a hortelã. Parte da água abastecia as serpentinas durante todo o processo de produção. Formou uma grande represa onde criava peixes. Para estabelecer cerca de vinte famílias, que com ele trabalhavam, e para o plantio da hortelã, foi necessário o desmatamento de cerca de três alqueires.

 

Com a grande seca de 1943 e a queda no preço do óleo da menta, o Sr. Nakahashi tomou um grande prejuízo e não conseguiu arcar com as famílias que com ele trabalhavam. Vendeu as terras - a maior parte ainda mato - para o Sr. Kikuti. Todas as famílias do bairro foram embora e a área ficou praticamente abandonada até princípio de 1947. Os senhores Antônio Barbeto (im memorian) e Vicente Oliveira da Silva, 62, juntamente com suas famílias, fizeram parte dessa primeira ocupação do "homem branco".

 

A SEGUNDA OCUPAÇÃO

A partir de 1947, teve início no bairro "Água do Mastro" uma segunda ocupação, agora definitiva. Os 120 alqueires do Sr. Kikuti somados a área ainda de posse do Dr. Labieno, perfaziam o bairro, inicialmente cerca de 600 alqueires. Toda essa área foi dividida em pequenas propriedades de 10 e 15 alqueires para aproximadamente 35 famílias que chegavam de diferentes regiões do Estado e do nordeste. O corretor era o Sr. Iraku Okubo. Cerca de 25 dessas famílias eram de imigrantes japoneses oriundos dos municípios de Marília e Echaporã. O restante era formado por migrantes nordestinos. São pioneiros nessa época Hiroiti Yamamoto, Yoshino, Sakamoto, Kaimoto, Kanishi Kikushi, Kade, Yassame Yamamoto, Toyosaburo Shinya, Akiama, Yahashi, Antônio Rodrigues, Raimundo Batista da Costa, Antenor Rossete, Raimundo Demóstenes, Luiz Fugi e Kamataro Okuyama.

Segundo o Sr. Hiroiti Yamamoto, nessa época estavam desmatados no bairro apenas cerca de 80 alqueires. Segundo o Sr. Antenor Rossete o grande desmatamento ocorreu de 1947 para 1948, quando cerca de dois mil alqueires de mata virgem foram transformados em cinzas.

 

A CULTURA DO ALGODÃO

A floresta foi logo dando lugar à cultura do algodão que devido à quantidade de matéria orgânica no solo, a produtividade era elevada, chegando a 300 arrobas por alqueire, mesmo assim não alcançava a produtividade dos bairros "Pica-Pau" , "Repouso" e "Água da Saúde". Foi o último bairro do município a parar de plantar o amendoim - cerca de 1972 -, que chegava a produzir até 300 sacas por alqueire. No início da década de 1970 a mamona ocupava grandes extensões no bairro, mas em 1975 o prejuízo com essa lavoura foi muito grande. Foi o fim agrícola no bairro para muitas famílias.

No primeiro ano dessa segunda ocupação algumas famílias procuraram ainda plantar a hortelã, e assim como anteriormente, obtiveram poucos resultados. As famílias Yoshino e Sakamoto plantaram também batata inglesa (batatinha) em pequenas áreas de cerca de três alqueires cada. Os habitantes cultivavam também milho, arroz e feijão, mas apenas para o consumo.

 

A COLÔNIA JAPONESA

A primeira associação de imigrantes japoneses formou-se no bairro "Água do Mastro" e não no bairro "Paraíso" onde foi o maior reduto desse pioneiros. A associação começou a se formar no final de 1948, mas durou menos de uma década. No início de 1948 a Associação fundou uma escola onde ensinava somente o idioma japonês, sendo o professor Hidenoske Yamamoto, pai do Sr. Hiroiti. Mas no início de 1949 começou a funcionar uma escola em língua portuguesa com aproximadamente quarenta alunos. A primeira professora a lecionar nessa escola foi Odete Ferreira, depois Maria Clotildes de Souza Coelho, seguida por Ratib Chain Saab. Clotildes efetiva, recebia pelo Estado e Ratib, que era leiga, pela Prefeitura de Santo Anastácio. Na mesma sala, uma lecionava de manhã e a outra no período da tarde. Ambas as salas com aproximadamente quarenta alunos. A dona Ratib lecionou de 1950 a 1953. Quem posteriormente também lecionou nessa escola, por dois anos, foi a professora Joana Costa Rocha, que veio a falecer em 18/07/1960. Nessa época ela já estava lecionando na escola que leva hoje o seu nome.

Todas essas professoras hospedavam no bairro, na casa do Sr. Antenor Rossete.

Na busca de preservar sua cultura e valores, os imigrantes japoneses, além da grande colônia, criaram ainda a associação de jovens.

"Água do Mastro me lembra muita alegria, pois foi algo de muito especial na minha vida, me lembra juventude" (Ratib 68 anos).

Todos os anos, enquanto a associação perdurou, no dia primeiro de janeiro - dia Universal da Confraternização -, as famílias japonesas do bairro se reuniam para uma grande festa onde era servido toda variedade de alimentos típicos cuidadosamente preparados. E julho era comemorado o "Undokai", quando o bairro se transformava novamente numa só festa. Havia danças típicas e competições esportivas envolvendo pessoas de todas as idades. Práticas como corridas, beisebol e até sumô, faziam a festa tornar-se extremamente atraente. Muita gente, não só os chamados "japoneses", mas também muitos "brasileiros", de outros bairros do município e até da região, participava dessas festas.

"Era um pedacinho do Japão num lugar tão distante". (Hiroiti , 72 anos).

 

Antenor Rossete e Francisco Sakamoto (1948) Ao fundo a

casa do Sr. Rossete feita de coqueiro e coberta de tábua de cedro

 

Os agricultores da "Água do Mastro" Antenor Rossete, Kaimoto, Francisco Sakamoto e Luiz Sakamato posam orgulhosamente diante da colheita em 1949.  

 

Primeiras professoras da Escola "Água do Mastro": Ratib, Odete, Mafalda e Clotilde - 1949 a 1953

 

 

À esquerda Saitiro Okuyama quase é encoberto pelos

pés de algodão no Bairro "Água do Repouso". 

 

Vicente Oliveira morou no bairro em 1945, quando tinha apenas sete anos de idade

 

 

Massa Yoshino, que chegou no bairro em setembro de 1947, segura

nos braços seu filho Kenji. (Foto tirada em 1951).