Água da Saúde

O INÍCIO

O nome "Água da Saúde", já aparece no mapa da Colonizadora Valle do Paranapanema do final da década de 1920. A intenção do Dr. Labieno era formar a grande colônia "Santo Antônio", englobando as duas áreas dos atuais bairros que levam estes nomes. O primeiro comprador e morador no Bairro "Água da Saúde", foi o Sr. Sabino, mineiro, moreno e forte, que chegou com sua família (esposa e filha), em 194l, após ter comprado cinqüenta alqueires de terra do Dr. Labieno da Costa Machado, através do corretor, Iraku Okubo. O Sr. Severiano, que possui um bairro neste município com o seu nome, acabou casando com a filha do Sr. Sabino. O segundo morador, chegou em 14 de agosto de 1943, foi o Sr. Manoel José da Silva, ficou conhecido por "Manoel Mamédio", que veio a falecer em 1967, e enterrado no Cemitério daquele bairro. O Sr. Manoel era casado com a Ana Lino da Silva, que tem hoje 81 anos de idade e continua lúcida, morando ainda naquele bairro. Chegou quase junto com o Sr. Manoel, o Sr. João Luiz com sua família. No início de 1944, iniciava-se a grande colonização do bairro, com a chegada de outros compradores de terras, como os Srs. José Siqueira e Silva (Zé Neco), José Tavares, Raimundo Galvão, Ezequiel Pereira, Alexandre Rodrigues, José Clementino e outros tantos.

 

Quando fala-se em Bairro Água da Saúde, imediatamente todos se lembram de Carlos Rodrigues Bonfim, mineiro, e Celso Barros, pernambucano. Esses dois foram figuras importantíssimas na história daquele Bairro, principalmente pela força econômica que exerceram.

O Patrimônio começou em 1944, com a chegada do Sr. Carlos Bonfim, que bem próximo ao Córrego Água da Saúde, montou um boteco, onde praticamente só vendia pinga. Ganhou dinheiro, comprou e desmatou cinco alqueires de mata, onde formou-se parte do Patrimônio, do qual é tido como fundador. O Sr. Bonfim acabou montando um dos estabelecimentos mais importante daquele núcleo populacional, contendo um grande armazém, loja e sorveteria e ainda um serviço de alto-falante. Segundo o Sr. Joaquim Siqueira Campos, 70 anos, ele vendia até wisk caro e chegava mercadoria até de caminhão para os seus estabelecimentos. Além do comércio estabelecido ele financiava inúmeras famílias de agricultores de algodão e no final da colheita ainda comprava destes toda a produção. Chegou a possuir, de uma só vez, mais de um caminhão. Com "calote" de muitos agricultores, a quem financiava, seus negócios, que já não caminhavam bem, complicaram-se definitivamente quando pegou fogo em seu armazém. Acabou falido, mudando-se para a cidade de São Paulo.

O Sr. Celso Barros, chegou praticamente junto com o Sr. Bonfim e teve o mesmo destino nos negócios. Comprou cinco alqueires de terras, onde formou parte do Patrimônio, montou um grande armazém e passou a fornecer de tudo para muitas famílias de plantadores de algodão. Foi também um grande comprador desse produto e possuiu dois caminhões ao mesmo tempo. Teve também muito prejuízo com os agricultores a quem fornecia e acabou perdendo tudo que com muito sacrifício havia ganhando. Mudou-se para Fátima do Sul - MS. e segundo informações, conseguiu ainda recuperar, em parte, sua condição econômica.

VIDA PENOSA

As moradias dos primeiros habitantes do Bairro Água da Saúde, eram extremamente precárias, feitas de paus de coqueiro, tanto as paredes como também a cobertura. Quem ficasse doente morria, pois não havia qualquer condição, ou condução para ser levado para a distante cidade de Santo Anastácio, não existia estradas e nem animais para o transporte. A Dona Ana, dos treze filhos que teve, três morreram antes de completar um ano de idade e um com um ano e três meses. Todos morreram com o chamado "mal de sete dias" (Tétano), ou com a doença, popularmente chamada de "Simioto" ("doença de macaco"). "A criança chorava e entortando braços e pernas até morrer. A maior parte, das mais de cem pessoas que foram enterradas no Cemitério do Bairro, era criança. Havia picadas de insetos que formavam nos corpos das pessoas, as chamadas "feridas bravas", que dava para ver até o osso. Era comum encontrar pessoas com panos amarrados nas pernas por causa das feridas". ( Ana Lino da Silva).

ATIVIDADES ECONÔMICAS

Os primeiros moradores do bairro praticavam uma economia de subsistência, plantando apenas o suficiente para sobreviver. Os Bairros Água da Saúde, Repouso e Pica-Pau, foram os maiores produtores de gêneros alimentícios e de algodão do Município de Mirante do Paranapanema nas décadas de 1940 e 1950. De 1945 a 1950, os cereais perdiam-se nas roças por falta de trabalhadores, estradas e compradores, pois a produção de arroz, feijão, milho e mandioca era abundante. A maior concentração populacional do município deu-se nestes bairros. A cultura do algodão chegou no Bairro Água da Saúde, já no final da década de 1940, quando chegou um enorme contingente de migrantes nordestinos. Segundo a Senhora Ozenir Alves Gomes, 76 anos, o primeiro caminhão de pau-de-arara que chegou no Bairro Água da Saúde foi em 1947. Muitos migrantes ganhavam dinheiro em um ano e já no outro voltava para o nordeste. Até 1952, ainda se plantou a hortelã, em cultura mista com o algodão. Até alambique de menta existia no bairro.

 

OPULÊNCIA E DECADÊNCIA

Não temos qualquer sombra de dúvida de que foi a cultura do algodão a grande impulsionadora do rápido desenvolvimento econômico do Bairro Água da Saúde. E não fossem por outros motivos e razões, poderíamos ter hoje, quem sabe, um município com um nome bem diferente.

Com a cultura do algodão o Bairro teve um desenvolvimento rápido e extraordinário, superando facilmente os distritos de Cuiabá Paulista e Costa Machado, e em muitos casos, até Palmital. O apogeu do Bairro e conseqüentemente também o do Patrimônio, ocorreu entre os anos 1951 e 1958. Eram centenas e centenas de pequenos agricultores de algodão espalhados pelas inúmeras clareiras que se abriam no meio da mata densa. O solo era muito rico em matéria orgânica e a produção era uma das maiores do município. As estradas eram feitas e conservadas pelos próprios agricultores, para transportar a produção até Mirante ou Santo Anastácio. A terra era barata e facilitado o pagamento, em média Cr$ 3.500,00 o alqueire. Em 1950, com o valor total da venda da produção de algodão de um alqueire dava para comprar um alqueire de terra. Arrendatários e peões podiam comprar um pedaço de terra, desde de que fizessem alguma economia, mas poucos se preocupavam em investir o que ganhavam e assim a maioria acabou sem nada, pois o período das "vacas gordas", durou pouco. No período do apogeu, o Patrimônio, era um verdadeiro paraíso, um "Eldorado", corria muito dinheiro, festas e mais festas. Nos finais de semana era muita gente que chegava nos famosos ônibus do Ferré, principalmente de Mirante do Paranapanema. Todos os entrevistados são unânimes em afirmar que as melhores festas do município, nessa época, ocorriam na Água da Saúde. Em 1953 o Patrimônio chegou a ter um movimento comercial fantástico, com quatro armazéns, vinte e um botecos, dois açougues, duas farmácias, dois salões de barbeiros, uma sapataria, um campo de futebol, uma serraria, um salão com até seis costureiras. Além disso, tinha ainda uma igreja bem mais aparelhada do que a de Mirante, um Grupo Escolar funcionando com seis classes, um Cemitério e três depósitos de algodão. Até uma Seção da Justiça Eleitoral, com 250 eleitores chegou a funcionar no Patrimônio por duas eleições.

Ninguém podia imaginar que todo aquele esplendor poderia acabar de uma hora para outra. O Patrimônio chegou a possuir cinqüenta casas residenciais e comerciais. A maior parte das famílias morava nos fundos e de frente para a estrada, num salão, tocava o seu comércio. A decadência do Patrimônio e do bairro, começou a partir de 1958 e as causas foram: A criação do município com sede em Palmital (Mirante do Paranapanema), difícil acesso, doenças nas lavouras do algodão, o que fez diminuir a média de produção, o baixo preço deste produto, o encarecimento das terras e arrendamento, o avanço das pastagens e a abertura de uma nova estrada de rodagem saindo de Mirante do Paranapanema até Cuiabá Paulista, passando pelo bairro do Repouso. Essa nova rota tirou o movimento do patrimônio. O que contribuiu também para o enfraquecimento do Patrimônio, foi a falta de um planejamento urbano, pois não havia um projeto de loteamento e nenhuma preocupação para instalação de energia elétrica, água, etc. Qualquer pessoa podia construir a sua casa onde e do jeito que bem desejasse, pois não tinha qualquer controle ou fiscalização. Ninguém possuía escritura dos lotes e sim recibos, pois a área era considerada espaço rural. Tanto é verdade que as famílias na medida em que iam mudando, a maior parte levava consigo também a casa.

"Água da Saúde era uma só família" (Joaquim S. Campos). "Quem conheceu Água da Saúde jamais poderá esquecer" (João Augusto de Almeida, 78 anos). "Enquanto o chicote "comia" solto lá fora, dentro do salão a sanfona "alimentava" o povão à noite toda". ( Antônio Alves de Alencar - "Marion", 69 anos).

Visitando hoje a área do antigo Patrimônio da Água da Saúde, não dá para acreditar que ali, algum dia existiu um dos Patrimônios mais importantes desta região. O que restou foram três pequenas casas e um cemitério, onde foram enterradas aproximadamente cem pessoas e que ficou totalmente abandonado. Quem não tem respeito para com os seus próprios mortos, não pode acreditar em seus vivos.

HISTÓRIA VIVA Dona Ana Lino da Silva, atualmente com 8l anos de idade, foi a segunda pessoa a chegar no Bairro Água da Saúde em 1943. O seu desejo é ser enterrada junto ao seu marido no cemitério do bairro. (Foto Aliança - Júnior) 

A SELEÇÃO DO BAIRRO Time de futebol do Bairro Água da Saúde de 1954. Da esquerda para a direita, de pé: Germano (Técnico), Santo, Dito, Prof. Paulo, Pedrinho, Dedé, Dito e Darci. Agachados: Raimundo, Zé Germano, Marion, Prof. Urcine e Aparecido Gazeta.