Água da Prata

 

Da Região Centro-Sul do município de Mirante do Paranapanema, formada pelos bairros Barra Funda, Água da Prata e Água do Mastro, podemos destacar o seguinte:

1º) foi intensamente disputada à bala e na justiça por muitos grileiros, invasores e posseiros nas décadas de 1930 e 1940. O maior de todos, Dr. Labieno da Costa Machado de Souza, chegou até construir um rancho de dois andares em meio à densa floresta para abrigar seus jagunços e dominar o território.

O Sr. Ventura Bastos, também grileiro de Cafelândia-SP, tinha os mesmos objetivos, mas como era "fraco", procurava apenas receber dinheiro dos pequenos posseiros que se arriscavam fixar na área. Além desses, outros posseiros, se aproveitando de uma nova frente de penetração na região, no sentido sul/norte, procuravam tirar benefício da situação, tais como: Dr. Libório de Pres. Prudente, Adalberto Marques de Pirapozinho, Demétrio Fioravante, que por sinal foi jagunço e Administrador do Dr. Labieno, e Tertuliano Ribeiro.

 

Devido à incerteza e insegurança da propriedade territorial, a terra não se valorizava. O que ocorria era que uma mesma área tinha que ser paga várias vezes a diferentes "donos". Como a área ainda pertencia ao município de Santo Anastácio, muitos conseguiam falsas escrituras no cartório daquela cidade.

Tudo isso transformava a área num "barril de pólvora", e a "quebra de milho" (assassinatos de invasores), era uma constante. O Sr. Geraldo Vieira, 81 anos, conta que a primeira casa de pau-a-pique construída por ele na Água da Prata,, ainda em meio da floresta em 1943, foi derrubada e recoberta por enormes árvores por jagunços que se declaravam a serviço do Dr. Labieno. Ele só não foi executado à carabina porque muito se humilhou, mas teve que abandonar a área imediatamente e fugir para nunca mais aparecer.

2º) Paradoxalmente, na sua segunda fase de colonização essa foi uma das regiões mais movimentadas e alegres do município. As festas populares eram constantes e o funcionamento da estrada de ferro, de 1957 ao final da década de 1970, trouxe uma sensação de "privilégio" para a região. Com o novo meio de transporte afluía diariamente à famosa "estação de trem" um enorme contingente de pessoas e de mercadorias de todo o município e região. Os trilhos da ferrovia foram retirados nos anos de 1998/99.

Considerando no contexto geral a construção do Ramal de Dourados, foi na verdade, muito dinheiro jogado fora (600 milhões de cruzeiros - "O CORREIO DA SOROCABANA" 14/05/1955), do que benefícios para esta região e Pontal do Paranapanema. O que os moradores mais viam passar todos os dias eram cerca de 30 vagões carregados de madeira. A estrada contribuiu para que as últimas reservas florestais do Pontal praticamente desaparecessem em poucos anos.

 

3º) Em sua segunda fase de colonização, nas áreas cultural e educacional, tivemos dois grandes destaques: o músico José Basílio do Nascimento, o popular "Zil", e as professoras Lúcia e Zulmira.

O "Zil", começou a tocar "pé-de-bode" (tipo de acordeão, fole no NE.), com sete anos, em Alagoas. Assim que chegou, em 1949, juntamente com o pai Balbino e o irmão Jaime, formaram um conjunto que abrilhantava os finais de semana dessa região. Dez anos depois, com a colaboração do Sr. José Pedro (Compadre Farrista), despontou para todo o estado e para o Brasil, sempre com a música regional nordestina, o forró.

Ainda jovem, foi convidado para tocar com o rei do forró, Luiz Gonzaga, quando este aqui esteve 1959. Depois do "Zil e Seu Conjunto", veio a "Banda Zil Brasil", com novos instrumentos musicais e muito brilhantismo. 

 

Em 1995, no auge do sucesso, veio a falecer, deixando um rastro de saudade de uma vida marcada pela competência e simplicidade.

Lúcia Vasconcelos Kasae e Zulmira Benatti foram o grande destaque na área educacional, como professoras primárias nesta região. A Lúcia efetivou-se na 2ª Escola da Barra Funda em 1958 e ali lecionou até 1961. Seus registros pedagógicos arquivados na EE Joana Costa Rocha, são provas incontestáveis do seu caprichoso trabalho de alfabetização o que mereceu o prestígio que gozou de toda a população dessa região enquanto viveu. Infelizmente, também veio a falecer drasticamente, em acidente automobilístico em 1994. A Zulmira lecionou dois anos na Água da Prata na década de 1970 e era chamada no bairro como " a professora que valia ouro em pó". Segunda ela afirma, apesar de todo o sofrimento que ali passou, valeu o sacrifício a pena . Sara (década de 1980), Fátima, Luzia Pereira e Maria Inácio, lecionaram também naquela região e serão sempre lembradas.

 

AS MUDANÇAS NO ESPAÇO GEOGRÁFICO

Com a decadência das culturas do algodão e do amendoim, parte da região, principalmente na Barra Funda, começou a ocorrer a concentração de terra e a formação de latifúndios para formação de pastagens para a criação do gado de corte. Nos últimos anos o espaço geográfico desses latifúndios está sendo reconstruído dentro de novas estruturas agrárias e de relações sociais de trabalho, pois está havendo o assentamento dos chamados "sem terra". Para uma melhor leitura e interpretação desse novo arranjo territorial serão necessários mais alguns anos de observação e análise. Interpretando as informações do passado e estabelecendo relações com o presente, podemos perceber o quanto a luta pelo poder dessa região vem construindo diferentes espaços geográficos.

ÁGUA DA PRATA

ORIGEM DO NOME

Segundo vários pioneiros, o nome "Água da Prata", surgiu em função das águas límpidas do córrego que cortava o bairro, isso logicamente quando tudo ainda era floresta. Também segundo afirmam, esse e demais córregos da região eram ricos em peixes.

 

A PRIMEIRA OCUPAÇÃO

Assim como na "Água do Mastro", nesse bairro ocorreu uma ocupação em princípios da década de 1940, durante aquele período de grilagem citado anteriormente. Na abertura de aproximadamente 10 alqueires no meio da mata , segundo o Sr. Anacleto Alves de Souza, 88 anos, alguns aventureiros buscaram cultivar a hortelã. Chegando até mesmo construírem um alambique para a destilação do óleo. Em função das constantes ameaças dos grileiros e da derrocada nos preços desse produto, a área foi abandonada e um capinzal recompôs a vegetação.

 

 

A OCUPAÇÃO SEGUINTE

A ocupação definitiva veio ocorrer a partir de 1949, com a chegado dos migrantes nordestinos. As primeiras famílias a chegarem foram as dos senhores Anacleto Alves de Souza, Augusto Alves Santana (Olisso) e Jaçon Ferreira dos Santos, 69 anos.

O grande desmatamento do bairro ocorreu de 1950/52, e o espaço deu lugar ao plantio do algodão. Apesar da qualidade do solo não ser uma das melhores do município, nos primeiros anos a produção, em média ficou em torno de 200 arrobas por alqueire. O lucro era significativo em virtude dos baixos custos para produzir, pois a terra era barata e quase não havia pragas. O amendoim apresentou uma boa produção nesse bairro e foi uma alternativa para o pequeno produtor descapitalizado. A mandioca para a produção da farinha também foi cultivada e o bairro chegou a comportar três farinheiras e vender o produto na região e até no nordeste. Apenas para o consumo, nos primeiros anos, plantou-se arroz, milho e feijão.

 

Zulmira, professora na Água da Prata - 1973 a 1975

A pequena propriedade e a mão-de-obra familiar, foi característica das relações sociais de produção. Na época da colheita do algodão a participação dos "peões", (trabalhadores temporários que moravam junto à casa do agricultor), era necessária.

A área territorial do bairro é pequena em comparação as demais do município e continua até hoje praticamente toda nas mãos de pequenos proprietários, o que impede as desapropriações para assentamentos.

 

APARECIDA: O PATRIMÔNIO DO "CACETE ARMADO" E DO "PÉ-DO-GALO"

Segundo os pioneiros, Gabriel Inácio da Silva, 79 anos e Corina Nunes de Jesus, 71 anos, o bairro nunca chegou a ter mais de oitenta famílias, quase todas formadas por migrantes sergipanos.

Em 1952, num alqueire de terra doado por Tertuliano Ribeiro, começou a formar-se um patrimônio com o nome de Aparecida. O povoado foi muito bem até 1958, enquanto o algodão estava dando dinheiro para os agricultores do bairro, com a chegada da pecuária e o enfraquecimento do solo, os habitantes migraram novamente. No auge, o povoado chegou a ter igreja, açougue, três botecos, campo de futebol, escola e aproximadamente quinze casas residenciais. Tinha até inspetor de quarteirão (Sr. Gabriel Inácio da Silva). Nos finais de semana realizavam-se bailes, leilões e quermesses. As festas eram quase sempre animadas por "Zil e Seu Conjunto".

Em decorrência de "confusões" nas festas, o patrimônio passou a ser chamado de "Cacete Armado". Os visitantes entendiam que as pessoas dali estavam sempre querendo briga. Isso não era verdade, pelo menos é o que os pioneiros garantem, pois não há registro de homicídio naquele patrimônio durante toda sua existência.

Em depoimento gravado, dona Corina afirma que o nome popular "pé-do-galo" foi uma autodenominação de seu próprio filho, Odésio de Oliveira, quando ambos ainda moravam em Aparecida.

Onde era estrada de ferro, hoje é somente pedras.

Antiga estação de trem do Ramal de Dourados - Anos 60

Pioneiro da Água da Prata Sr. Geraldo Vieira

 

Zil começou sua carreira artística em Mirante do Paranapanema

no bairro Água da Prata nos anos 50 - Na foto Zil com 13 anos de idade.